Delator cita R$ 24 milhões a Paulo Preto em propina de obra na marginal de SP

Os repasses, de acordo com ele, ocorreram tanto antes da licitação como durante a execução da obra em São Paulo, a cargo do governo José Serra (PSDB)

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25 ABR 2019Por Folhapress17h01
Paulo Preto está preso desde fevereiro deste ano em CuritibaPaulo Preto está preso desde fevereiro deste ano em CuritibaFoto: Agência Brasil

Um ex-gerente da empreiteira Delta declarou à Justiça ter destinado cerca de R$ 24 milhões em propina ao ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, em razão das obras de ampliação da marginal Tietê em 2009. Os repasses, de acordo com ele, ocorreram tanto antes da licitação como durante a execução da obra em São Paulo, a cargo do governo José Serra (PSDB).

O delator disse que chegou a levar caixas de dinheiro na sede da Dersa, estatal paulista que foi uma das responsáveis pela construção. A obra envolveu a criação de uma nova pista na marginal Tietê, ao longo de 22 km e ao custo de R$ 1,75 bilhão.

A decisão de fazê-la foi controversa: especialistas questionavam a necessidade de uma intervenção viária desse porte voltada principalmente a usuários de automóvel.

Paulo Preto está preso desde fevereiro deste ano, em Curitiba, por causa de uma ação da Lava Jato do Paraná. Ele é acusado de ser operador de propina da Odebrecht destinada ao PSDB. A defesa dele não quis comentar as acusações (leia abaixo).

O ex-gerente da Delta em São Paulo Helvétio Rocha firmou delação premiada junto com outros executivos da empreiteira na parte da Lava Jato que tramita na Justiça Federal do Rio de Janeiro.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas no último dia 12, Rocha disse que, antes da licitação, entregou até sete "caixas-box" –com volume equivalente a três caixas de sapato, segundo ele– no 10º andar da Dersa, onde Paulo Preto mantinha seu gabinete.

O ex-gerente afirmou saber que havia dinheiro na caixa, embora não soubesse precisar a quantia com exatidão. Ele estimou em cerca de R$ 1 milhão cada volume.

O executivo declarou que costumava ir à Dersa para buscar informações técnicas sobre a dificuldade da obra da marginal Tietê.

Disse que, antes da licitação, recebeu pedido de André Ferreira, ex-diretor da Delta em São Paulo, para entregar uma caixa com dinheiro no andar do gabinete de Paulo Preto.

"Nunca em mãos [do ex-diretor da Dersa]. Cada hora tinha uma pessoa [para receber]. Até porque eu queria me livrar daquilo", disse Rocha, que calculou em aproximadamente R$ 7 milhões os pagamentos anteriores à obra.

O executivo declarou que, depois do início das intervenções na marginal Tietê, recebeu Adir Assad, empresário que se apresentou em nome de Paulo Preto.

"Ele veio dizendo que havia um percentual em cima de cada medição que devia ser contratada a empresa Legend. Fui conseguir a confirmação com o doutor Paulo Souza, que confirmou", disse Rocha.

Assad firmou acordo de colaboração premiada em que declara ter sido responsável por gerar dinheiro em espécie para diversas empreiteiras, entre elas a Delta, do empresário Fernando Cavendish. Apenas para a construtora, ele declarou ter fornecido R$ 370 milhões em papel-moeda.

O percentual cobrado por Assad para Paulo Preto, segundo Rocha, era de 6%. Pelos cálculos do executivo, entre R$ 16 milhões e R$ 17 milhões foram repassados ao ex-diretor da Dersa no decorrer da obra da marginal.

O ex-gerente da Delta declarou que o operador financeiro também gerou até R$ 21 milhões em dinheiro vivo para pagamento "por fora" de funcionários e prestadores de serviço.

Embora tenha confessado a entrega da propina, Rocha buscou desvinculá-la de aumentos no custo oficial da obra –disse que eles foram absorvidos pela empreiteira e impactaram até no pagamento de participação nos lucros de empregados.

Rocha declarou que, só anos após a licitação, teve conhecimento sobre a formação de um cartel para definir os vencedores da obra, mas não soube dar detalhes.

Além de ser alvo da delação do ex-executivo da Delta na Justiça Federal do Rio, Paulo Preto já foi condenado em duas outras ações em São Paulo –em uma delas, a 145 anos de prisão, por desvios em reassentamentos do trecho sul do Rodoanel.

O ex-diretor da Dersa também foi denunciado sob a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro pela Lava Jato de Curitiba, suspeito de movimentar quase R$ 100 milhões em favor das empreiteiras Odebrecht e UTC.

Paulo Preto fez retificações em declarações à Receita Federal e disse ser dono de quatro contas abertas na Suíça, com saldo equivalente a R$ 137,4 milhões. A admissão, além de poder livrá-lo da acusação de crime fiscal, afasta suspeitas sobre outros tucanos.

Outro lado

O advogado Alessandro Silvério, que defende o ex-diretor da Dersa Paulo Preto, não quis comentar as acusações contra seu cliente feitas pelo delator da Delta na Justiça General do Rio de Janeiro.

A defesa de Fernando Cavendish, proprietário da construtora, afirmou, por meio de nota, que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações.

A assessoria do ex-governador e atual senador José Serra não respondeu aos questionamentos da reportagem até a conclusão deste texto.

A defesa do ex-diretor da Delta André Ferreira afirmou à reportagem que o executivo falará apenas em juízo.

Atualmente ligada ao governo João Doria (PSDB), a Dersa afirmou que sua nova gestão "apoia toda e qualquer investigação e vai colaborar de forma integral com a Justiça para a elucidação de dúvidas em busca do interesse público".

"Esta gestão, aliás, em fevereiro reforçou seu compromisso com a ética pública e a qualidade do trabalho prestado à população, com lançamento de um canal exclusivo para envio de denúncias de práticas de corrupção, fraudes, atos ilícitos, irregularidades, assédio e outras infrações", disse.

O canal, batizado de Íntegro, está disponível no site (www.canalintegro.com.br/dersa) ou pelo telefone 0800 878 9037, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h.