Clientes 'ignoram' investigação e continuam comprando em loja de chocolate de Flávio Bolsonaro

A loja foi alvo de um dos mandados de busca e apreensão cumpridos na última quarta-feira (18).

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21 DEZ 2019Por Folhapress16h18
Desde que Flávio assumiu a franquia até 2018, o volume de depósitos em dinheiro vivo foi o equivalente a cerca de 37,5% dos recebimentos por cartões de débito e crédito.Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

O vai e vem de clientes foi intenso nesta sexta-feira (20) na loja da Kopenhagen do shopping Via Parque, zona oeste do Rio. Surfando nas vendas de Natal, a franquia é idêntica a centenas de outras que existem no país.

Há, no entanto, uma (importante) exceção: segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, foi por meio dessa loja que o senador Flávio Bolsonaro (sem partido), dono de metade da empresa, lavou até R$ 1,6 milhão em recursos ilícitos entre 2015 e 2018. Ele nega. 

A loja foi alvo de um dos mandados de busca e apreensão cumpridos na última quarta-feira (18). Nesta sexta, a reportagem permaneceu por cerca de uma hora no local.

Cinco clientes abordados pela reportagem disseram não saber quem é o dono da loja, que ficou em 3° lugar no PEK (Programa de Excelência Kopenhagen).

Para o MP-RJ, o volume de depósitos em dinheiro vivo na conta da franquia era desproporcional em relação a negócios semelhantes.

Durante o tempo em que permaneceu na loja, a reportagem verificou que a maioria dos clientes efetuou o pagamento utilizando cartões.

Os investigadores afirmam também que a entrada dos recursos em espécie em favor da empresa coincidia com datas em que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, arrecadava parte dos salários dos empregados do então deputado estadual.

A suspeita é de que o estabelecimento, propriedade do atual senador desde 2015, tenha sido usado para a lavagem de dinheiro no suposto esquema de "rachadinha" em seu antigo gabinete na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), de 2007 a 2018.

Os depósitos de dinheiro vivo nas contas da loja teriam como objetivo "esquentar" os recursos obtidos ilegalmente, segundo a Promotoria. Eles poderiam simular vendas fictícias feitas pela empresa, dando aparência legal ao recebimento.

Desde que Flávio assumiu a franquia até 2018, o volume de depósitos em dinheiro vivo foi o equivalente a cerca de 37,5% dos recebimentos por cartões de débito e crédito – de 2015 a 2017, esse percentual chegou a 41,8%.

Em depoimento ao Ministério Público, o antigo proprietário da loja afirmou que essa proporção girava em torno de 20%.

A Promotoria também identificou que essa proporção não se mantinha estável ao longo do ano.

Em período de vendas maiores, como na Páscoa, o pagamento com dinheiro representava apenas cerca de 20% do recebido por cartões. Essa taxa aumentava nos demais meses do ano.

Foi o que ocorreu entre 22 de novembro e 7 de dezembro de 2015, quando os depósitos em espécie foram equivalentes a 92% do recebimento por cartões. O período coincide com o início do pagamento de 13º de servidores da Alerj.

Os promotores recorreram também à auditoria feita por shoppings nas lojas para cálculo do aluguel, que também considera o faturamento do estabelecimento –modalidade chamada de "aluguel de desempenho". Essa fiscalização costuma ser feita também presencialmente, para contabilizar as vendas realizadas.

O volume de créditos efetivos nas contas da loja superou em 25% o faturamento auferido pelos fiscais do shopping de 2015 a 2018. Em valores absolutos, a diferença chega a R$ 1,6 milhão.

O tradicional panetone da Kopenhagen foi o produto escolhido por grande parte dos clientes que passaram pela franquia de Flávio nesta sexta. O panetone também é uma das compras preferidas do policial militar Diego Ambrósio, segundo entrevista que deu ao jornal Folha de S.Paulo.

O Ministério Público afirma que Ambrósio pode ter tido participação na lavagem de recursos ilícitos obtidos por Flávio Bolsonaro. Ele repassou mais de R$ 20 mil à franquia do senador em três anos.

O militar afirmou à Folha de S.Paulo que compra cerca de cem panetones por ano para distribuir a síndicos de prédios, fornecedores e colaboradores nas festas de fim de ano. "Foi uma maneira de ajudar um amigo que acabava de abrir uma empresa", justificou, enviando ao jornal fotos de caixas de panetone.

Nas redes sociais, Flávio afirmou ser comum o uso de dinheiro vivo em compras de lojas como a sua, uma franquia da Kopenhagen.

"É óbvio, energúmenos. É um comércio. As pessoas pagam em dinheiro também. A gente recebe em dinheiro e depois deposita na conta da loja. Qual o problema? O que tem de ilegal nisso?", afirmou.

O filho do presidente Jair Bolsonaro nega ter utilizado a loja para lavar dinheiro.

"Se eu quisesse lavar dinheiro eu abriria uma franquia, que tem o controle externo da franqueadora, que tem auditoria? Abriria uma outra atividade qualquer que não deveria satisfação a ninguém."