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Política

Bolsonaro se filia ao PL e volta ao centrão durante evento

Discurso do presidente foi de gestos a parlamentares e de ataques à esquerda

Bolsonaro se filia ao PL e volta ao centrão com ataques a Lula e Moro / FolhaPress

O presidente Jair Bolsonaro se filiou ao PL na manhã desta terça-feira (30), em um evento com ministros, governadores, dirigentes partidários e parlamentares. Seu discurso foi de gestos a parlamentares e de ataques à esquerda.

"Nós tiramos o Brasil da esquerda, nós todos tiramos. Olha para onde estávamos indo", disse o mandatário para a plateia, citando a Venezuela.

"As cores verde e amarela [estão agora] predominando sobre o vermelho. Nós conseguimos fazer brotar o sentimento de patriotismo".

Ao seu lado, estavam dirigentes do centrão, que foram base e integraram o primeiro escalão dos governos petistas.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, foi preso e condenado no escândalo do mensalão. O discurso dele antecedeu o do presidente e ele ressaltou os programas sociais do governo, como Auxílio Brasil.

"Senhor presidente, temos a noção exata da nossa responsabilidade ao empunhar as bandeiras de sua obra à frente de um governo que nunca de intimidou", disse.

Já o mandatário acenou aos partidos do centrão e citou nominalmente os dirigentes do PP e do Republicanos, Ciro Nogueira e Marcos Pereira, respectivamente, que estavam na plateia. Os três são as principais legendas que dão sustentação ao governo

"Estou me sentindo aqui, Arthur Lira, em casa", declarou Bolsonaro. Presidente da Câmara, o deputado do PP é aliado do Planalto.

"Pode ter certeza que nenhum partido será esquecido por nós. Não temos aqui a virtude de sermos o único certo, queremos, sim, compor nos estados".

O discurso mais político e eleitoral coube ao filho do presidente Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), que também se filiou ao PL nesta terça.

Criticou o ex-ministro da Justiça e presidenciável do Podemos, Sérgio Moro, chamando-o de traidor. Flávio relembrou do episódio em que então ministro divulgou conversa com a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), de quem foi madrinha de casamento, a respeito da troca no comando da PF (Polícia Federal).

"Juntos, vamos vencer o vírus, qualquer traidor e qualquer ladrão de nove dedos, pelo bem do Brasil", afirmou.

O filho senador do presidente atacou também os governos petistas -dos quais, parte da plateia apoiou no passado. "Ainda querem nos fazer crer que um ex-presidiário, preso por roubar o povo brasileiro, estará à frente [de Bolsonaro nas pesquisas]".

Em meio a uma possível quarta onda da Covid-19, com a variante ômicron, o evento contou com mais de 200 pessoas, num local sem ventilação. Apenas autoridades puderam entrar no pequeno auditório reservado para a cerimônia com o presidente. Convidados e imprensa ficaram numa antessala.

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O evento foi bastante diferente do lançamento do Aliança para o Brasil, partido que Bolsonaro tentou criar, mas não conseguiu. À época, a plateia estava repleta de apoiadores e discursos ideológicos. O tom da assinatura da ficha do presidente nesta terça-feira (30) foi assim como a plateia: político.

Ainda que Bolsonaro quisesse uma filiação mais discreta, o quórum de ministros foi alto. Os ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), entre outros, devem se filiar.

Ministros mais ideológicos como Damares Alves (Direitos Humanos), Braga Netto (Defesa) e Augusto Heleno (GSI) não participaram da cerimônia.

Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) também prestigiou a cerimônia no PL, mas, quando questionado sobre filiação, disse "agora não". O ministro é a aposta de Bolsonaro para governo de São Paulo, como a Folha mostrou.

"É uma esperança para o nosso querido estado de São Paulo", disse Bolsonaro no discurso. "Quero deixar bem claro que eu e Valdemar não seremos as pessoas que vão decidir tudo sozinho. Em grande parte, vai passar por vocês. Queremos compor".

O filho do presidente Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disse "acreditar" que deve se filiar ao PL também, mas afirmou que é preciso "conversar ainda". Mais ideológico que o irmão Flávio, o deputado foi questionado sobre as antigas críticas ao centrão, sobre se elas se mantêm agora.

"O presidente tem que governar com o Congresso que tá aí. Tem uma entrevista dele em em 2017 para a Jovem Pan que ele fala exatamente isso. Ele não é um ditador. O Congresso, quem escolhe não é o presidente, é a população", disse.

"Mas eu estou feliz sim de estar no PL, que é um partido grande, tem um tempo de televisão, tem uma estrutura, e está nos recebendo de braços abertos. Tem tudo para dar certo sim", completou Eduardo.

Flávio Bolsonaro comentou, antes de o evento começar, os planos do partido para palanques regionais. Segundo ele, o cenário está encaminhado para que Tarcísio de Freitas (Comunicações) se filie e saia candidato ao governo de São Paulo.

"Ele está numa função chave do projeto de resgatar o país junto com o Bolsonaro", disse.
Flávio confirmou que Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente, também deve sair candidato ao Senado pelo estado.

Já em Goiás, Flávio disse ser necessário ter mais conversas antes que se bata o martelo para lançar o líder do PSL na Câmara, Major Vitor Hugo (GO), ao governo, como quer uma ala de apoiadores de Bolsonaro.

Ao assinar a ficha do PL, o chefe do Executivo encerra novela partidária de idas e vindas, "casamentos", como costuma dizer, entre o partido de Valdemar e o PP de Ciro Nogueira (Casa Civil) e Arthur Lira, presidente da Câmara.

Bolsonaro chegou a dizer que estava 99% fechado com o PL, depois adiou a filiação, que ocorreria no último dia 22.

Agora, o mandatário decidiu migrar para o partido de Valdemar por acreditar que, sem isso, o PL teria mais chances de desembarcar no ano que vem e bandear para a campanha petista. Bolsonaro está há mais de dois anos sem partido, desde que deixou o PSL, pelo qual foi eleito.

De acordo com auxiliares palacianos, a estratégia do presidente é reeditar, ao menos em parte, o mapa de votação da última disputa, garantindo vitória no eixo Sul-Sudeste e no Centro-Oeste.

A leitura no entorno de Bolsonaro é a de que não é possível ganhar no Nordeste contra Lula, mas que o Auxílio Brasil, sucessor do Bolsa Família, e outros programas sociais, como o vale-gás, podem ajudar a diminuir a rejeição. De acordo com um aliado, a ideia é diminuir o placar de 7 a 1 para 2 a 1.

Para acertar a negociação com o PL, Bolsonaro demandou a prerrogativa de escolher candidatos em estados-chave e de vetar alianças com partidos de esquerda.

As principais divergências se deram a respeito de São Paulo, onde o partido estava apalavrado com o PSDB para apoiar Rodrigo Garcia, vice-governador e pré-candidato ao governo em 2022.

Auxiliares do presidente chegaram a fazer um movimento para que Garcia pudesse ser candidato de Bolsonaro no estado, mas isso só seria possível se João Doria não tivesse ganhado as prévias do partido. De toda forma, a negociação não foi adiante.

A principal aposta do presidente para São Paulo é uma chapa com Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) para governador e o ex-ministro Ricardo Salles para o Senado.

O acordo ainda não está selado, porque depende de uma decisão final do ministro, mas, segundo interlocutores, ele já teria aceitado que terá de cumprir essa missão, jargão bolsonarista, para o presidente: garantir palanque nos 645 municípios paulistas.

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