'As bombas têm que ser desarmadas', afirma Ciro Gomes

Pré-candidato pelo PDT à Presidência da República, ele esteve nesta terça-feira (3) em Santos na 62º Congresso Estadual de Municípios

Comentar
Compartilhar
03 ABR 2018Por Carlos Ratton17h22
Ciro foi ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e da Integração Nacional do governo de Luiz Inácio Lula da SilvaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A frase é de Ciro Gomes, sobre as armadilhas montadas contra as principais demandas brasileiras. Pré-candidato pelo PDT à Presidência da República, ele esteve nesta terça-feira (3) em Santos na 62º Congresso Estadual de Municípios.

Na bagagem, a experiência de ter sido por duas vezes deputado estadual, uma federal, prefeito de Fortaleza (CE) e governador do Ceará, além de ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e da Integração Nacional do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Diário do Litoral – Qual o diagnóstico do Brasil de hoje?
Ciro Gomes – O Brasil, desde os anos 80, cresce 2% ao ano. Na medida que a população também cresce quase esse mesmo percentual (1,7%), estamos parados. Isso explica quase 34 milhões de pessoas na informalidade, correndo do rapa, tentando levar algum para casa honestamente. Temos 13,1 milhões de pessoas desempregadas. O desdobramento, quase inevitável disso, é que o Brasil anotou, nos últimos 12 meses, 64,7 mil homicídios. Uma selva que está matando jovens, negros e pobres nas periferias do país afora.

Diário – Tem como mudar isso?
Ciro Gomes –
É preciso um projeto com três vertentes básicas: superação do endividamento das famílias e empresas – 60 milhões da brasileiros estão negativados no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) por conta de anos de juros altos; solução da equação fiscal, as contas públicas estão na pior situação que conheço e resolver a questão relacionada às importações. Em qualquer crescimento, a gente explode as importações. Quando os preços de nossos produtos tradicionais sobem, a gente paga a conta. Quando ocorre o contrário, entramos em crise. As bombas têm que ser desarmadas para que as demandas nas área de saúde, educação, segurança e combate à corrupção possam ser atendidas com seriedade.

Diário – É cedo para falar de campanha?
Ciro Gomes –
É tudo muito preliminar. Estamos fazendo um esforço grande para tentar antecipar o futuro. O Brasil em que, por exemplo, existe a possibilidade de Lula não ser candidato, que o governador de São Paulo (Geraldo Alckmin) ainda não ter se apresentado potencialmente, o cenário ainda é precário e pode ser mudado com grandes emoções.

Diário – O Geraldo Alckmin, entre outros problemas, tem um sério e mal resolvido com relação à segurança. Jair Bolsonaro nunca se prontificou a ajudar e agora, com frases fáceis, afirma que tem a solução.
Ciro Gomes –
Nosso povo está com medo. Não podemos imaginar que esse problema é fácil de resolver. O narcotráfico movimenta bilhões de dólares que vão parar em paraísos fiscais. O contrabando de armas é grave. Mais de mil fuzis AR-15, fabricados nos EUA, foram capturados no Brasil. As agências de segurança internas dos EUA sabem o caminho dessas armas, mas o império do dinheiro prevalece. E por outro lado, o Brasil tem uma coisa muito peculiar, dificílima de ser enfrentada, que são as facções criminosas. Um fenômeno que cresceu nos últimos 15 anos e se espelhou por todo os sistema de modo a colapsar o tradicional, que é: a Polícia prende, o Ministério Público representa, a Justiça condena e o sistema prisional segrega. Bandido segregado comanda o disputa por território, mata pessoas, confronta ­autoridades e desmoraliza o Estado Democrático de ­Direito.

Diário – A intervenção no Rio de Janeiro é pirotecnia?
Ciro Gomes –
Pura. Má-fé e politicagem das grandes. Não há a menor chance de resolver a criminalidade. Só corresponde a um querer popular de alternativas. O narcotraficante, chefe de facção, não mora na favela. Recentemente, foram assassinados dois altos representantes de uma dessas facções que moravam em Alphaville de Fortaleza, um condomínio de bilionários. Foram retirados de helicóptero e mortos, com requintes de tortura, por uma facção inimiga. O que resolve não é a força, apontar fuzil para dona de casa e estudante na favela. O que resolve é inteligência policial.

Diário – Há solução para melhor mobilidade urbana?
Ciro Gomes –
Enquanto acreditarmos que é preciso de um carro para uma ou duas pessoas irem trabalhar ou estudar gastando combustível fóssil, vamos continuar matando o planeta e prejudicando a qualidade de vida. A solução, já experimentada em sociedades mais avançadas, é o transporte de massa qualificado, que devolve ao trabalhador ou trabalhadora o terceiro turno, que são três ou quatro horas sem remuneração só no trânsito, que pode ser transformado em convívio familiar. Tenho um projeto de tudo que precisa ser feito no País com R$ 300 bilhões em 10 anos. Uma meta perfeitamente praticável.

Diário – Como o senhor vai lidar com a bancada BBB (boi, bala e bíblia)?
Ciro Gomes –
Eu respeito a representação de qualquer grupo de interesse. O que precisa é fazer prevalecer o interesse das maiorias, que são as bancadas da saúde, do trabalho, produção, paz e da decência. A essas, eu darei ­prioridade.

Diário – Temer deveria ser candidato?
Ciro Gomes –
Sim, para ele ver o tamanho do repúdio que a sociedade brasileira tem por ele           

Diário – Como o senhor analisa essa divisão entre direita e esquerda?
Ciro Gomes – 
Vamos sair do atoleiro que divide o País entre coxinhas e mortadelas. Precisamos reunir as ideologias num amplo debate nacional e não acrewditar em pseudos salvadores da pátria. Eles não existem. São ­mistificadores, nada mais do que isso.

Diário – O senhor foi a favor da Reforma Trabalhista?
Ciro Gomes –
Contra. Nenhum país do Mundo prosperou em produzir insegurança jurídica e econômica no mundo do trabalho. Não devemos cristalizar uma legislação que herdamos dos anos 40 ou 50, porque tudo muda e requer desafios, legislações mais modernas e flexíveis. Mas a forma que foi feita a reforma não trouxe avanços. Só no primeiro mês, foram destruídos 380 mil empregos no Brasil. Janeiro deste ano, foi o primeiro mês da história que mais da metade da população foi apanhada na informalidade, sem proteção e sem contribuição. Qual o sistema tributário e previdenciário que pode funcionar empurrados por biscates? Precisamos corrigir essa selva.

Diário – E a Previdenciária?
Ciro Gomes –
Precisamos discutir por um simples fato: só funciona numa lógica de demografia jovem. Quando o sistema da previdência foi criado, tínhamos seis trabalhando para financiar o aposentado que não chegava aos 60 anos. Hoje, em média e por informalidade, mecanização e automação, temos dois trabalhadores para financiar a aposentadoria de uma pessoa com expectativa de vida de 73 anos. O problema é que esse debate teria que ser feito num momento mais fácil e não em tempos de eleições. Essa perversão que o senhor Michel Temer não reforma nada. Ela só economizaria R$ 360 bilhões em 10 anos. Ora, o déficit da previdência ano passado foi de R$ 180 bilhões.