Policiais investigados por morte de jovem em favela são afastados

A morte de Leandro ocorreu durante uma ação da rota na favela do Moinho. A PM diz que ele atirou contra os policiais e estes revidaram

Comentar
Compartilhar
02 JUL 2017Por Folhapress16h30

Os dois policiais militares que atiraram em Leandro de Souza Santos, 19, na favela do Moinho (região central de São Paulo), na última terça-feira (27) foram afastados de suas funções.

Eles vão fazer apenas trabalhos administrativos até o fim das investigações sobre a morte do rapaz.

A informação foi dada pelo vereador Eduardo Suplicy (PT), que acompanha o caso. Os nomes dos policiais, ambos da Rota (unidade de elite da polícia), não foram divulgados.

A morte de Leandro ocorreu durante uma ação da rota na favela do Moinho. A PM diz que ele atirou contra os policiais e estes revidaram.

Já moradores afirmam que Leandro não tinha arma, mas era usuário de drogas e correu para dentro do barraco de uma moradora da comunidade. Ali, teria sido agredido e assassinado.

Por isso, a corregedoria da PM está investigando o assunto. O funeral aconteceu na quinta-feira (29).

Pressão

Testemunha da morte do rapaz, a dona de casa Lucimar Oliveira Santana, 30, diz ter se sentido pressionada por oficiais na investigação sobre o caso.

Um dia depois do caso, a dona de casa, ainda assustada, contou que, após ter sido retirado do barraco, o corpo de Leandro foi levado para ao menos três endereços por oficiais dentro de uma viatura da Rota.

Ela conta que se preparava para levar as filhas à escola quando foi surpreendida por um vulto invadindo sua sala. Era Leandro, que corria dos policiais pela rua principal da favela. Em seguida, apareceram homens fardados, que a impediram de se aproximar.

Segundo três vizinhos ouvidos pela Folha de S.Paulo, os policiais ficaram cerca de uma hora dentro do barraco com o rapaz, que saiu de lá desacordado em cima de uma maca e foi levado para o pronto-socorro da Santa Casa.

Lucimar diz que o som da casa estava ligado e foi elevado para o volume máximo após a entrada dos policiais. "Não ouvi nem vi mais nada. Fiquei do lado de fora." O relato é o mesmo que consta do boletim de ocorrência.

A dona de casa afirma que se sentiu intimidada por repetidas perguntas dos agentes para que ela respondesse se o rapaz estava armado ou traficava drogas.

"[Eu] dizia que não tinha visto arma nenhuma e que não sabia nada da vida dele, só o via pela vizinhança, mas eles insistiram", afirma. "Me senti pressionada."

Ela relata que, espremida entre dois oficiais no banco de trás da viatura, foi levada da favela por volta das 11h.

Pediu para ser acompanhada pelo marido, mas teve o pedido negado. "Disseram que eu tinha que ir sozinha. Foi só o tempo de eu pegar meu RG na bolsa e sair com eles", afirma.

Lucimar só voltou para casa seis horas depois, às 17h, após ser interrogada no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e no batalhão da Rota.

Antes, passou ainda por duas delegacias, mas não desceu do carro. "Eles pediam meu RG e entravam. Enquanto isso, um sempre ficava do lado de fora do carro, acho que para me vigiar."

No interrogatório, realizado em uma sala do DHPP, a dona de casa diz terem sido repetidas as mesmas perguntas feitas por policiais dentro do carro.

Na tarde desta quarta-feira (28), Lucimar tentava retomar a rotina. Ao lavar a cozinha que ficou com manchas de sangue no chão e no fogão, encontrou um projétil deflagrado dentro do saco de arroz na dispensa. "Nem sei o que fazer. Tenho medo de continuar aqui", diz.

Sargento

A Polícia Militar afirma que a operação na qual a morte ocorreu estava relacionada com as tentativas do governo estadual de coibir o tráfico de drogas na cracolândia, localizada a cerca de 1 km dali.

Um dos oficiais que perseguiu o jovem da favela do Moinho e entrou no barraco de Lucimar, o sargento da Rota Pierre Alexandre de Moraes, responde por homicídio em outro caso, que é investigado pelo DHPP. A corregedoria não confirmou se ele é um dos afastados.

Outro lado

Questionada nesta quarta-feira (28), a Secretaria de Segurança Pública afirmou que encaminhou as reclamações da dona de casa Lucimar Oliveira Santana para a Corregedoria da PM. Segundo a pasta, o órgão investiga todos os fatos ocorridos na ação.

Sobre a morte de Leandro Souza Santos, 19, a secretaria disse que o jovem se recusou a ter seus pertences revistados pelos policiais na operação de combate ao tráfico de drogas.
Os PMs, então, teriam ido atrás dele até vê-lo entrar em um dos barracos, tirando os moradores de lá. Dentro do barraco, ele teria atirado contra os policiais, que revidaram. O caso está sendo investigado pelo DHPP.

Na terça (27), o tenente-coronel da PM Miguel Daffara, que comandou a operação, disse que as ações no local serão contínuas. "Temos que sufocar o tráfico de drogas."

A secretaria confirmou a existência de um processo em que o sargento da Rota Pierre Alexandre Andrade é acusado de homicídio, mas disse que não pode se pronunciar sobre esse caso porque a ação ainda está tramitando na Justiça.