Policiais de Santos agem no interior paulista e atingem esquema de desvio de soja

Cargas adulteradas são enviadas ao exterior via Porto de Santos e prejudicam, inclusive, a imagem do País perante compradores estrangeiros

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23 JUN 2021Por Gilmar Alves Jr.20h24
Locais usados pela organização criminosa no interior paulista foram descobertos pelos policiais de Santos (Divulgação)Locais usados pela organização criminosa no interior paulista foram descobertos pelos policiais de Santos (Divulgação)

Policiais civis de Santos cumpriram a segunda fase da operação “Grão de Ouro” e atingiram um esquema de desvio de soja no Estado de São Paulo que tem como investigados empresários, pessoas físicas, motoristas de caminhão e até funcionários de empresas no Porto de Santos. As cargas adulteradas, que recebem até areia e farelo de soja de qualidade inferior, são enviadas ao exterior e prejudica, inclusive, a imagem do País perante compradores estrangeiros.

Doze mandado de busca e apreensão foram cumpridos por policiais da 1ª Delegacia da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) regional. O inquérito policial já apurou o desvio de mais de 300 toneladas de soja e os prejuízos financeiros, apesar de ainda não contabilizados em balanço, são muito elevados. Aproximadamente 25 pessoas físicas são investigadas, além de diversas pessoas jurídicas.

Sob o comando do delegado Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior, titular da delegacia, e do investigador-chefe, Paulo Carvalhal, os policiais da especializada realizaram uma série de diligências sigilosas no interior paulista até atingirem o esquema, que tinha atividades nos municípios de Assis, Lutécia, Salto Grande, Palmital, Lins e Ribeirão do Sul.

Palmital, com somente cerca de 20 mil habitantes, exigiu metodologia específica para se atingir os objetivos das investigações.

“Os policiais tiveram o cuidado extremo para identificar os locais (nessas cidades) onde substituíam o farelo de soja bom pelo farelo de soja misturado, com casca de soja peletizada, com areia”, disse o delegado Leonardo Amorim Nunes Rivau em entrevista coletiva no Palácio da Polícia.

“Alguns dos galpões que foram alvos das investigações possuem misturadores, que são equipamentos específicos para proporcionar a retirada da soja, a mistura dela com esses insumos e a recolocação no caminhão”, detalhou o delegado Luiz Lara.

Delegados da 1ª Delegacia da Deic regional em entrevista coletiva nesta quarta-feira (23) (Nair Bueno/DL)

 
  • Fotos: Divulgação/Polícia Civil

Como areia, casca de soja e carga peletizada possuem aparência e coloração muito similar à soja havia dificuldade das empresas em detectar as irregularidades antes das cargas serem exportadas.

“Se não é feito um exame laboratorial, o destinatário não tem como a olho nu identificar que aquela mercadoria está adulterada”, disse Lara.

Conforme apurou o inquérito, carga adulterada pela organização criminosa chegou a emperrar um equipamento, pois a areia tem peso muito superior à casca de soja e o equipamento travou.

Até amostras que devem ser colhidas das cargas eram substituídas por amostras de cargas de qualidade regular em terminais, segundo as investigações.

O delegado Francisco Wenceslau ressaltou que um dos grandes problemas causados pela organização criminosa é para o comércio exterior.

“Imagine um importador recepcionando essa carga no exterior. Como é que fica a impressão do nosso país perante os grandes compradores? A soja, inegavelmente, representa uma grande porção da riqueza exportada pelo Brasil”, disse na entrevista coletiva.

“Uma das preocupações da operação era justamente desmantelar a organização criminosa e proporcionar aos nossos parceiros comerciais no exterior uma segurança. Segurança absolutamente necessária nesse período em que há uma retração por conta da questão da pandemia e há uma necessidade de que o comércio seja estabelecido com base em sólida confiança”, afirmou.