Polícia conclui que estudante inventou tentativa de estupro

Investigação foi aberta e até um retrato falado chegou a ser feito, mas não divulgado; com o depoimento de um segundo garoto, de 12 anos, a farsa do primeiro, de 9, foi descoberta

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15 MAI 2017Por Gilmar Alves Jr.11h30
O caso mobilizou o efetivo da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de SantosO caso mobilizou o efetivo da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de SantosFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Um estudante de nove anos que afirmou ter sido vítima de uma tentativa de estupro no último dia 2, após uma abordagem na Zona Noroeste de Santos, inventou o crime somente para ocultar da mãe que tinha ido à praia tomar banho de mar e justificar atraso, conforme concluiu a Polícia Civil . O caso mobilizou a Central de Polícia Judiciária (CPJ), que registrou o suposta ocorrência, a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e até o setor de retratos falados do Departamento de Polícia Judiciária do Interior-6 (Deinter-6), que confeccionou a imagem de um homem até então suspeito com base na descrição do garoto. O retrato não chegou a ser divulgado.

A falsa comunicação de crime foi esclarecida com a oitiva de um menino de 12 anos, apontado pelo primeiro garoto como também vítima da tentativa de estupro. Ambos estudam na mesma escola, de manhã, e fazem atividade esportiva juntos no período de tarde . Sabendo somente o primeiro nome do estudante de 12 anos, policiais da DDM foram à Unidade Municipal de Ensino (UME) na quarta-feira (10) e apuraram junto à diretoria a série e classe do garoto. Informalmente, ele logo revelou que seu colega inventou o crime para “não apanhar e ficar de castigo”. Acompanhado da avó, ele foi ouvido na sexta-feira (12) pela delegada Desirée Piedade Quintela, assistente da DDM, e manteve as afirmações que já havia revelado. 

O investigador Marcos Roberto Neves, da DDM, afirma que o que causou maior estranheza no caso foi a riqueza de detalhes apresentada pelo estudante que inventou o falso crime. “Uma criança fantasia, mas você não imagina que chegue ao ponto de fantasiar tanto assim.”

Conforme inventou o garoto, o “criminoso” era manco, branco, sem um dente frontal e com cabelos curtos e encaracolados. Pesava, ainda segundo ele, cerca de 85 quilos e tinha aproximadamente 1,82m. O menino também relatou que o homem usava um carro preto e arma de fogo. 

Ele sustentava que acompanhado do colega foi rendido na Rua Francisco Lourenço Gomes Júnior, quando retornavam para casa após terem jogado tênis de mesa na escola onde estudam. Ainda conforme o menino, ambos foram levados para São Vicente, onde o estupro só não se consumou, diz ele, porque o garoto mais velho conseguiu chutar o estuprador e possibilitar a fuga. 

O investigador Neves faz um alerta sobre os riscos que falsas comunicações de crime podem gerar na sociedade. “Se ele sustentou essa história na presença da mãe, na presença da autoridade policial, de repente ele poderia sustentar essa farsa quando visse uma pessoa detida. Então, de repente, você pode acabar gerando um problema muito grande para uma pessoa que não tem nada a ver. Que às vezes nem sabe o que está acontecendo”, assinala o policial civil.

ECA

O menino que criou a farsa, por ter somente 9 anos, não está sujeito a responder por ato infracional, já que 12 anos é a idade mínima para atuação penal pelo regime especial do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

Nesta semana, ele e a mãe deverão comparecer à DDM, segundo informou Neves. Além de Neves, participaram das investigações os policiais Ricardo Krone e Rodrigo Lima (investigador-chefe), que agiram sob a coordenação da delegada titular, Fernanda Santos Souza.