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Polícia

Moradores falam em 'noite de horror' ao redor da Vila

Atos de vandalismo foram registrados em diversas ruas e serviços de luz e internet foram prejudicados

Jeferson Marques

Publicado em 07/12/2023 às 16:05

Atualizado em 07/12/2023 às 16:31

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Morador teve braço cortado após vândalo dar soco em sua janela / Nair Bueno/Diário do Litoral

Carros incendiados, ônibus queimados, janelas depredadas, fiação elétrica pendurada e centenas de moradores sem luz e internet. A noite que marcou o rebaixamento do Santos para a Série B do Brasileirão foi marcada por dezenas de atos de vandalismo na Vila Belmiro e, principalmente, ao redor dela.

Lucas dos Santos Lima (39) é administrador de empresas e mora na Rua Dom Pedro I, que fica em frente ao estádio. Ele relembra que, assim que a confusão começou, ele foi para a sua janela observar a briga de torcedores com policiais. Com um celular em mãos ele começou a filmar tudo, mas um torcedor encapuzado não teria gostado e quebrou sua janela.

"Ele (torcedor) falou que não era pra filmar e, com as mãos, deu um soco no vidro da minha janela, que se espatifou. Um dos pedaços do vidro acertou a minha mão e fez um corte. Tive que ir para a Santa Casa por causa do sangramento, mas não precisei de pontos. O susto foi grande e por isso que deixei de frequentar estádios faz tempo", conta Lima.

O morador ainda criticou a forma com que as torcidas atuais se comportam dentro do estádio. 

"Um bando de xingadores, que só vão ali para isso. É um grande consultório de psicologia à céu aberto, onde o torcedor vai para desabafar, menos para torcer. Moro do lado do estádio, torço pelo Santos, mas não entro na Vila pra ver jogo. A hora chega para todo mundo e o Santos vem caindo para a Série B faz tempo", lamenta.

Noite de horror

Uma dona de casa de 53 anos pediu para não ter seu nome revelado, já que seu filho, segundo ela, "é conhecido dentro do clube". Moradora do bairro desde 2003, ela disse que os confrontos entre policiais e a torcida santista não acontecem apenas em dias de clássicos, mas que o da última quarta (06) extrapolou o limite da ignorância.

"A briga começa lá e vem sempre parar aqui na Avenida Pinheiro Machado. É sempre aqui. Sempre. E agora foram ônibus queimados, carros e a gente sem luz e internet há quase 12 horas. São vândalos, pois a torcida de verdade não vai fazer isso".

A mulher também mostrou preocupação com a possível ampliação da capacidade do estádio para 32 mil pessoas, prevista para ocorrer em 2024.

"Não há efetivo policial pra isso. E a gente, como fica? O estádio está em um bairro residencial; no meio dele, e já somos obrigados a conviver com as brigas quase todos os jogos, mas dessa vez todos os limites da ignorância foram extrapolados. Nunca vi nada parecido. Foi uma madrugada de insônia e angústia", relata.

Tânia Almeida (59) é aposentada e também mora na Avenida Senador Pinheiro Machado há 40 anos. Torcedora do Santos, ela disse que estava deitada quando ouviu o barulho dos estilhaços. Ao abrir a janela, viu que eram dois ônibus pegando fogo, mas precisou fechá-la em seguida por conta do calor das chamas.

"Abri a janela e o fogo estava ardendo. Os ônibus queimando na porta da minha casa, eu com dois carros na garagem e ligando pro bombeiro. Logo em seguida foram os fios, que caíram dos postes por conta das chamas. Olha, foi uma noite de horror", desabafa.

PM mandou fechar

Um comerciante de 68 anos, que também pediu para ter seu nome preservado, contou à Reportagem do Diário que no intervalo da partida, quando o Santos perdia de 1 a 0, foi orientado pela Polícia Militar a fechar as portas.

"Eles vieram até aqui, bem educados, e pediram para eu fechar, pois, pelo cenário que se desenhava, teríamos muitos problemas após o jogo. Ainda conversei com alguns deles por uns 5 minutos, e eles mostravam muita preocupação com o que poderia acontecer. Acho que foram prudentes, de certa forma acabaram me protegendo, pois a rua aqui virou um palco de guerra após o jogo", lembra.

Bombas e um cheiro muito forte do spray de pimenta foram relatados pelo empresário, que fechou seu comércio e ficou do lado de dentro assistindo ao jogo pela TV.

"Mesmo com tudo fechado o cheiro daquele spray (pimenta) veio aqui. Eram xingamentos, explosões e muitos barulhos de vidro quebrando e gritos de pessoas com dor. Fiquei quietinho até as coisas se acalmarem e eu poder voltar para a minha casa, que fica há três minutos daqui".

Novos cabos

Ruan dos Santos de Oliveira, de 26 anos, é auxiliar técnico de redes e estava trabalhando na rua Princesa Isabel para restabelecer o sinal de internet dos seus clientes. Também torcedor do Santos, ele disse que deixou de ir aos estádios após presenciar atos de violência na Vila em um jogo contra o Corinthians.

"Nunca mais vou ao estádio. Está muito perigoso. Já fui muito fanático, mas hoje em dia não. Fico triste com o rebaixamento, mas mais triste por estar aqui consertando a baderna de vândalos. Eu poderia estar empenhado em outros serviços da empresa, mas estou aqui trocando cabos por causa de uma violência desnecessária", lamenta.

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