Inquérito da Polícia Civil age contra ação do 'Tribunal do Crime' na Baixada Santista

Ex-presidiário foi sequestrado, baleado nos dois pés e exigiu antecipação de alta médica de hospital com medo de ser executado pelo PCC

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04 AGO 2020Por Gilmar Alves Jr.19h12
Policiais do 1° DP de Santos identificaram um barraco em Bertioga para onde a vítima chegou a ser levadaFoto: Divulgação/Polícia Civil

Um ex-presidiário de 40 anos, baleado nos pés durante uma tentativa de homicídio, em 28 de maio na Área Continental de Santos, e que ainda seria “julgado” na mesma data, em Guarujá, pelo “Tribunal do Crime” do Primeiro Comando da Capital (PCC), chegou a apressar um pedido de alta médica no Hospital Santo Amaro por temer que pudesse ser executado dentro da unidade de saúde por integrantes da facção.

Os fatos constam no inquérito do 1° Distrito Policial de Santos (Centro) que esclareceu a tentativa de homicídio e que ainda tramita visando a responsabilização penal de todos os envolvidos no “tribunal de exceção”. As investigações, sob o comando do delegado Max Pilotto, titular do distrito, e do investigador-chefe, Rodrigo Cesar Lima, já resultaram na prisão temporária do motorista autônomo de 33 anos acusado de transportar, em seu Palio, dois comparsas do PCC e a vítima, dominada no banco de trás. Os policiais também obtiveram o mandado de prisão temporária do ex-cunhado da vítima e principal articulador do crime, que está foragido.

Em 28 de maio, caso uma viatura da Guarda Municipal de Santos não tivesse agido na Rio-Santos, o ex-presidiário, apontado pelos rivais como integrante da CDL (Comando Democrático da Liberdade), seria transportado até a Favela do Caixão, em Guarujá, onde seria “julgado”  e poderia ser assassinado.


Vítima exigiu antecipação de alta do Hospital Santo Amaro temendo ser executada dentro da unidade pelo PCC (Foto: Hygor Abreu/Prefeitura de Guarujá)

Naquela ocasião, os três comparsas conseguiram fugir e a vítima foi retirada do carro para ser socorrida.

Temendo ser assassinado, o ex-presidiário, depois que teve a alta, sequer veio ao 1° DP de Santos para ser ouvido no inquérito. Investigadores do distrito santista foram até a capital paulista, onde ouviram a vítima em um unidade policial. Participam das diligências os policiais Marcos Roberto Neves, Marcos Prado e Victor Silvério.

PCC no encalço

Conforme as investigações da Polícia Civil, os autores da tentativa de execução suspeitam que o ex-detento, na condição de membro da CDL, “Armas e Rosas”, matou um integrante do PCC na década passada dentro da extinta carceragem da Delegacia Sede de Guarujá. Ele nega.

Em 26 de maio de 2020, após ser solto de uma penitenciária em Balbinos, no interior paulista, o homem iniciou uma viagem até Bertioga para visitar o filho na casa de sua ex-mulher no bairro Centerville.

No dia 27, o homem chegou à residência da ex-mulher para ver o filho e pernoitou no imóvel porque estava tarde. Na data seguinte, ele foi surpreendido pelo ex-cunhado, que armado com uma pistola o rendeu e disse que o levaria para uma conversa reservada com integrantes do PCC devido à atuação na CDL.

Em um carro prata a vítima foi levada a um barraco no Jardim Vista Linda, onde havia um adolescente e um outro rapaz. Os policiais já ouviram o adolescente e o rapaz no distrito e ambos negaram envolvimento o crime, mas seguem sob investigação.

A ex-mulher da vítima quis ir ao barraco também visando garantir a segurança do homem. O irmão dela exigiu que ela fosse embora e o crime então teve sequência com o transporte da vítima para a Área Continental, com destino a Guarujá, em um carro de transporte clandestino.

A vítima questionou para onde seria levada e um dos criminoso que estava no banco de trás, com uma tatuagem de lágrima no rosto, disse “que iriam para outra quebrada”.

No trajeto, os criminosos perguntavam para a vítima a todo momento se ele havia matado “algum irmão” do PCC. Quando o carro se aproximava de uma base da Polícia Rodoviária Estadual, o ex-presidiário lutou com os sequestradores e foi atingido com um tiro no pé. Na sequência ele foi alvo de um golpe “mata-leão” e foi atingido por um  segundo tiro em outro pé.

O motorista então ingressou na estrada de serviço e parou embaixo do viaduto. Um dos criminoso desceu e ficou apontando a arma para a vítima, enquanto o outro foi para a parte de trás do carro e ficou o telefone. Segundo o relato da vítima, o motorista dizia o tempo todo “mata logo ele e vamos embora”, demonstrando claramente que estava junto com os demais na prática do crime.

Antes de um novo disparo, chegou uma viatura da Guarda Municipal, o que culminou na fuga dos criminosos.

O ex-presidiário permaneceu internado por dois dias no Santo Amaro até solicitar a alta médica para a garantia de sua segurança.