“Essa guerra terá mais alguns capítulos”

O experiente delegado Juvenal Marques não só acredita que o crime organizado já faz parte do cotidiano da Baixada Santista, como também que haverá uma reação policial “ainda que na forma de esquadrões da morte”

Comentar
Compartilhar
06 FEV 201315h59

Se por um lado o Comando do 6º Batalhão de Polícia Militar do Interior (6º BPM/I), responsável pelo policiamento ostensivo na Região Metropolitana da Baixada Santista, não acredita que o crime organizado já faz parte do dia a dia da população regional, a Polícia Civil, que responde pela investigação e elucidação de crimes, pensa bem diferente.

Um dos policiais mais experientes da região, o delegado de polícia Juvenal Marques Ferreira Filho, lotado na Delegacia Sede de São Vicente, tem certeza, diante de seus mais de 30 anos dedicados à segurança pública, que não só existem grupos formados pelo crime organizado, como haverá uma reação forte por parte da polícia caso os crimes não parem de acontecer.

O delegado está tão convicto disso que, nos últimos dias, postou na Internet um polêmico texto sobre a questão da violência em São Paulo. Num dos trechos mais contundentes, Marques afirma: “a polícia está sendo caçada por criminosos que têm instruções de matar policiais na frente de suas famílias. A tropa está se sentindo encurralada e abandonada pelo comando. Ninguém se engane, a reação virá, ainda que na forma de esquadrões da morte. Aliás, as últimas ocorrências de chacinas indicam que caminhamos para a barbárie. Não àquela do ‘olho por olho’, mas a que sanciona dez mortes por cada vida tirada”.

O delegado Juvenal Marques, atuante na Delegacia Sede de São Vicente, falou com exclusividade à reportagem do DL (Foto: DL)

Na noite da última sexta-feira (26), o Diário do Litoral esteve em São Vicente e entrevistou o delegado. Confira os principais trechos:

Diário do Litoral (DL) - O senhor acredita mesmo na volta de um grupo semelhante ao Esquadrão da Morte?
Juvenal Marques – Alguns grupos (de policiais) vão reagir a tudo o que está acontecendo. Eu não tenho a menor dúvida disso. Já há indícios para isso. Você nunca ouviu dizer de pessoas, dentro de veículos de cor escura, atirando em pontos de tráfico de drogas, onde acreditam que a marginalidade está em pecado, vamos dizer assim.

DL – Pouco antes de iniciarmos a entrevista, o senhor comentou a possibilidade de formação de cartéis do crime na região. É isso mesmo?
Marques – Se não houver uma mudança na política de segurança, acredito que daqui a uns cinco anos, no máximo, nós iremos enfrentar situação semelhante a da Colômbia, onde os cartéis de narcotraficantes punham um preço pela cabeça de um policial, que era caçado como um animal. Motoqueiros disfarçados cometiam o crime. Não estamos vendo isso já hoje?

DL – Há como combater ou evitar isso?
Marques – Investindo pesado em segurança pública. Mas não o que o Governo anuncia em ano de eleição. Ao invés da população acreditar em propaganda oficial, nas estatísticas sempre muito bonitas, é interessante que procure a delegacia, a polícia, a escola e o pronto socorro do bairro para saber a real situação. A diminuição do crime é muito bonita na televisão, mas a realidade nua e crua é bem diferente.

DL - O senhor acredita na existência do PCC na região?
Marques – Tenho certeza que existem grupos ligados ao PCC na região. Todo mundo sabe disso. Tanto é que até para fazer as transferências penitenciárias tem que tomar cuidado, porque é preciso ver quem domina a unidade. Os políticos dizem que isso não existe. Mas já passamos da fase de acreditar em tudo que é colocado na televisão. Na época da ditadura, as pessoas tinham pouca informação. Hoje não.

DL – O Comando da PM nega crime organizado. O que o senhor acha disso?
Marques – É negar o óbvio. Todos lembram de 2006, quando houve um número monstruoso de ataques do PCC com indícios de tática de guerrilha que, entre outras coisas, procura desacreditar as instituições. Hoje, as instituições brasileiras estão desacreditadas. A corrupção já passa pelos três poderes. Se você colocar no Google a palavra corrupção, aparece no Executivo, Legislativo e Judiciário. A guerrilha ataca transportes e comunicações e é o que está acontecendo.  Há também toques de recolher. Isso é tática da guerrilha. É muita inocência acreditar que tudo isso está ocorrendo de forma aleatória, desorganizada. As facções estão agindo e comandadas de dentro dos presídios.

DL – Aproveitando a ação de 2006, ela cessou por quê?
Marques – Naquela semana fatídica morreram 64 policiais e, oficialmente, mais de 400 pessoas ligadas ao crime. Até hoje se tenta investigar a autoria daquelas chacinas, mas acredito que seja muito difícil de chegar à autoria.

DL – O senhor acredita na atual política de segurança pública?
Marques – Nós não temos política de segurança pública. Estamos sob uma ótica errada. Tem pessoas que se autodenominam especialistas que não entendem nada. Só se fará uma política quando chamarem pessoas que lidam com segurança no seu dia a dia. Está cheio de sociólogos e psicólogos falando sobre segurança pública, que nunca trocou tiros com marginal, que desconhece o cotidiano de um policial e os furos da segurança. Ninguém monta uma padaria e coloca um açougueiro para fazer pão. Nos últimos dias, temos cerca de 80 policiais mortos e mais de três mil civis executados. Isso é resultado de uma política de segurança séria?

DL – Falta preparo aos agentes de segurança?
Marques – Com certeza e a começar pela seleção. Se você oferece um salário de R$ 1.200,00 para o camarada arriscar a vida, quem é que se apresenta? Pessoas vocacionadas e preparadas ou quem está sem perspectiva e com a finalidade de ficar um período no emprego. Se o salário fosse R$ 5 mil, a pessoa que tem preparo, formação acadêmica enfim, uma visão mais ampla, iria se apresentar. A polícia paga mal e, na seleção, não pode exigir os melhores. Eu sou delegado de Polícia e ganho menos que o porteiro da Assembleia Legislativa.

DL – Então, a Polícia Civil também estaria desmotivada?
Marques – As delegacias, de uma forma geral, estão sucateadas. Temos, em média, de dois a três policiais por plantão e isso é um absurdo. Como um camarada pode dar conta de 40 ou 50 boletins registrados por dia com apenas uma equipe?

DL – O que o senhor entende por inteligência policial?
Marques – Infelizmente está banalizada em função das escutas telefônicas. Inteligência policial não é só isso. Escuta é apenas uma ferramenta. Inteligência é mais complexo e envolve infiltração em organizações criminosas, acompanhamento delas, investigação dos líderes, equipamentos e homens especializados. Quem defende escuta é Ministério Público e Polícia Militar. Não existe profissionalismo hoje. Fazem escutas e depois vão à televisão e falam como fizeram. Que inteligência é essa? Isso é um desserviço à segurança pública deste País.

DL – O senhor acredita que na vinda da criminalidade carioca à Baixada?
Marques – Eu acredito em um intercâmbio. O crime age como uma empresa. Ele tem seus diretores, pessoal do financeiro e departamento jurídico que, aliás, atua muito bem. Tem também o pessoal do gerenciamento e o de combate. Nesse sistema empresarial, ocorre a troca de informação e de estratégia.

DL – O senhor acredita na necessidade de instalação de uma UPP?
Marques
– Criam-se nomes bonitos para coisas que já existiam. Eu fui policial militar em São Paulo em 1985 e já haviam destacamentos posicionados em morros fazendo policiamento comunitário. O que é a UPP carioca? Nada mais do que policiais com forte relacionamento com a comunidade. Antigamente havia esse tipo de policiamento na Nova Cintra, no São Bento, no Pacheco, enfim. Funcionava e muito bem.

DL - O senhor defende um tripé para a segurança pública: inteligência policial, policiamento ostensivo e polícia investigativa. Esse é o caminho?
Marques
– É um projeto mínimo e tem que ser orquestrado. Inteligência policial com todo o aparato (e não somente escutas), o policiamento ostensivo forte e preparado tecnicamente e, por fim, a polícia investigativa, para não só corrigir as possíveis falhas dos dois primeiros, como levantar provas, autorias e formalizar os autos, proporcionando boa base para o Ministério Público agir e condenar os responsáveis. Não adianta colocar só a Rota nas ruas.

DL – Finalizando, o senhor acredita numa solução rápida para tudo o que está acontecendo?
Marques
– Não. Eu acredito que essa guerra terá mais alguns capítulos e eu, que além de policial, sou um cidadão, fico receoso de ver a escalada de violência, porque eu tenho família na região, como todo mundo, que tem essa preocupação. Os marginais também têm família e devem estar apreensivos com relação às famílias deles. O Estado tem que fazer alguma coisa, pois do jeito que está não pode continuar.