Ainda mancando da perna direita, o vendedor Anderson Cardoso, 39, mostra um saco com cápsulas de bombas de efeito moral que coletou após a partida entre Corinthians e Atlético-MG, no último domingo (1º). “Isso foi aqui dentro de casa”, disse, nesta terça-feira (3). Ele é um dos moradores de uma rua no entorno do estádio Independência, em Belo Horizonte, que tiveram a residência invadida por torcedores do time paulista e, em seguida, por policiais militares. Eles entraram em conflito no início do jogo -vencido pelo Corinthians por 3 a 0- e a torcida fugiu para dentro das casas.
Além de lesões também no rosto, Anderson teve portas e parte do banheiro quebrado. A vizinhança diz que a violência partiu apenas dos policiais. Já a PM diz que, junto com a torcida corintiana, os residentes reagiram.
“Os policiais sapecaram tudo com bomba de gás aqui”, reclamou o vigilante Demóstenes César, 41, que mora ao lado de Anderson. “Os torcedores queriam só se proteger, foram os policiais que fizeram confusão”, completou a dona de casa Cláudia Leite Santos, 39.
Comandante do batalhão de Choque, o tenente-coronel Gianfranco Caifara rebate. “De lá de dentro das casas, os torcedores estavam jogando garrafas. E esses moradores agrediram os policiais, nós temos filmagem”, disse.
“Se eu tiro os corintianos, a culpa é nossa. Se eu deixo eles entrarem na casa e fazerem arruaça, a culpa é nossa também. Viramos bode expiatório”, acrescentou.
Anderson fez exame de corpo de delito e um boletim de ocorrência contra os policiais. A PM diz que investigará a situação.
O conflito começou após a torcida, que estava isolada em uma rua próxima à parte de trás do estádio, pressionar uma barreira policial que impedia o acesso à entrada.
Parte deles não tinha um dos 1.800 ingressos vendidos aos visitantes. Outra parte aguardava a liberação dos PMs com o bilhete em mãos. Quando a partida começou, os torcedores que ainda estavam do lado de fora se exaltaram.
Houve uso de tiros de bala de borracha, bombas de gás e spray de pimenta por parte da polícia. Do outro lado, os torcedores atiravam pedras e garrafas. Para escapar da confusão, parte deles teve que entrar nas residências próximas, que vendiam comida e cerveja aos torcedores.
Também houve conflito entre a polícia e atleticanos que tentaram se aproximar dos torcedores rivais.
Organização
O tenente-coronel critica a organização do Corinthians para a partida e diz que estava preparado para a chegada 12 ônibus de torcedores, mas foram ao local 26, além de sete vans.
Antes do jogo, corintianos também reclamavam do clube por falta de informação sobre a venda de ingressos.
“Eu sou Fiel Torcedor [sócio] e há dez dias ligo para saber se eu podia conseguir comprar ingresso em Belo Horizonte, mas ninguém conseguiu me informar”, disse o engenheiro Maurício Martins, 38, que aguardava junto ao estádio antes da confusão.
Outra crítica de policiais que trabalhavam no dia do jogo foi a escolha do estádio. O Independência tem capacidade para 23 mil pessoas e ruas estreitas no seu entorno, ao contrário do Mineirão, onde o Atlético também manda partidas e comporta 60 mil torcedores.
O time mineiro optou pelo Independência, onde tem um histórico recente de bons resultados.
O jogo foi um dos mais importantes do Campeonato Brasileiro de 2015, entre o líder Corinthians e o Atlético, vice-líder e então com oito pontos a menos. Com a derrota, o Galo ficou 11 pontos atrás dos virtuais campeões.
O Corinthians foi procurado para comentar sobre a venda dos ingressos, mas não se manifestou até a publicação da reportagem.