Combate da PF ao PCC chega ao ápice e mais de R$ 1 bilhão é bloqueado

“Somente seguindo esse caminho (descapitalização) nós vamos enfraquecer essa organização criminosa”, disse o delegado Elvis Secco; rede de postos no Estado de SP era utilizada para lavagem de dinheiro da facção, segundo a investigação

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30 SET 2020Por Gilmar Alves Jr.19h58
Rede de postos, segundo a PF, era usada para lavagem de dinheiro do narcotráfico do PCC e de outros crimes da facçãoFoto: Divulgação

A Polícia Federal (PF) chegou ao ápice no combate à estrutura financeira do Primeiro Comando da Capital (PCC) ao deflagrar, nesta quarta-feira (30), a Operação Rei do Crime e bloquear mais de R$ 1 bilhão - R$ 730 milhões em contas bancárias e uma série de bens oriundos do crime. Houve cumprimento de mais de 40 mandados de busca e apreensão em São Paulo, incluindo Mongaguá e Guarujá, no Paraná e em Santa Catarina. 

"Somente seguindo esse caminho (descapitalização) nós vamos enfraquecer essa organização criminosa", disse o delegado Elvis Secco, coordenador-geral de Repressão a Drogas e Facções Criminosas da PF, em entrevista coletiva na manhã desta quarta, na Superintendência da instituição na capital paulista. 

A operação mirou o braço financeiro que opera há mais de dez anos em benefício da chamada sintonia final do PCC. 

Parte da rede de combustíveis Boxter, que atua em SP, agia conforme a PF, em benefício da facção criminosa, lavando ativos de origem ilícita, através de empresas com atuação sólida no mercado e de empresas de fachada ou compostas "laranjas".

"Alguns postos (ao menos 40) estavam efetivamente sendo utilizados para a lavagem de dinheiro, não só do narcotráfico, mas de crimes propriamente cometidos pela facção criminosa aqui de São Paulo", disse o delegado Rodrigo de Campos Costa, coordenador da Operação Rei do Crime. 

Durante a investigação, que durou cerca de 1 ano e meio, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) forneceu relatórios de inteligência financeira à Polícia Federal apontando movimentações atípicas do grupo investigado, cujo valor ultrapassa a cifra de R$ 30 bilhões.

Mais de 200 policiais federais saíram a campo para o cumprimento de 13 mandados de prisão preventiva, 43 mandados de busca e apreensão, sequestro de 32 automóveis, nove motocicletas, dois helicópteros, um iate, três motos aquáticas, 58 caminhões e 42 reboque e semirreboque, com valor aproximado que ultrapassa os de R$ 32 milhões em bens sequestrados da facção criminosa.

Houve também o bloqueio, junto aos cartórios de imóveis do estado de São Paulo e Balneário Camboriú/SC, de bens imóveis de pessoas físicas e jurídicas, impossibilitando a alienação de tais bens.

 
  • Fotos: Divulgação/Polícia Federal

Entre os alvos das medidas judiciais estão empresários do setor de combustíveis e uma pessoa que foi condenada pelo envolvimento no furto ao Banco Central do Brasil, ocorrido em Fortaleza (CE), em 2005. Todos eles, ao todo 20 indiciados, responderão pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.

"Essa ação policial demonstra a força que a PF tem em suas investigações. Nós estamos falando de movimentação financeira de bilhões de reais. Nós estamos falando de veículos de luxo, imóveis de luxo. Nós estamos falando de iates, aeronaves. Estamos falando e mostrando mais uma vez que a facção criminosa paulista deve ser encarada de outra maneira. Que essa operação seja um divisor de águas em como o Brasil encara as facções criminosas, notadamente a facção criminosa paulista", afirmou o delegado Secco. 

Ele fez um alerta sobre a crescimento da facção e ressaltou que ações policiais isoladas não são eficazes. "Enquanto comemoramos apreensões pura e simples de drogas, essa facção criminosa se enriquece, se robustece e se infiltra na estrutura do país, em todas as áreas", disse. 

Boxter
Em nota, a Boxter disse que está "cooperando com as investigações para demonstrar que nenhuma irregularidade foi praticada". 

"As atividades prosseguem normalmente, com a certeza de que os fatos serão esclarecidos o mais rápido possível, respeitando um histórico amplo no mercado de combustíveis, sempre prezando pela idoneidade e qualidade dos serviços prestados. A empresa é capitalizada e tem ativos para honrar todos seus compromissos vigentes", diz.

A Boxter informa, ainda, que abrirá apuração interna para averiguar os fatos e tomará todas as medidas cabíveis contra licenciados ou quaisquer outros que tenham desrespeitado as regras de conduta.

Por fim, a Boxter reitera que não compactua com nenhuma espécie de ilícito e que as empresas do grupo operam com a mesma qualidade de atendimento.