Apologia ao crime na web: um curto caminho para a prisão

Quadrilha de Guarujá que utilizava o Facebook para divulgação de crimes teve dois integrantes presos na última terça-feira

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24 NOV 201310h20

Colaborou: Thales Mauá

A crônica policial sempre mostrou que assaltantes buscam o anonimato após suas investidas criminosas. Dificultar o trabalho de obtenção de provas dos delitos é objetivo recorrente de um assaltante que age com “profissionalismo”. Na contramão desse caminho, assaltantes de Guarujá agem de modo diferente: divulgam na rede social Facebook como e onde agem, que tipo de bens têm interesse nos assaltos e ainda fazem ameaças a policiais civis e militares.

Na última terça-feira (19), dois acusados de integrarem a quadrilha — que comete roubos nas imediações do Túnel da Vila Zilda (Juscelino Kubitscheck) — foram presos pela Polícia Civil em suas residências, em Morrinhos. De acordo com o delegado que comandou a operação, Luiz Ricardo de Lara Dias Júnior, a divulgação feita pelos criminosos no Facebook contribuiu para identificar os assaltantes. As investigações, iniciadas em outubro, ainda prenderam nos dias 8 e 14 de novembro outros dois membros da quadrilha. 7

“Hoje a polícia detém ferramentas tecnológicas suficientes que propiciam a identificação daqueles que participam dessas comunidades em redes sociais”, assinala o delegado.

 Página da quadrilha no Facebook foi monitorada pela Polícia Civil (Foto: Reprodução)

Denominada Brow, a página dos assaltantes no Facebook informa, em sua apresentação, ser a primeira da rede a fazer apologia ao crime. Em diversas postagens, os marginais deixam claro que agem próximo ao Túnel da Vila Zilda. “Aee boy nois ta te esperando la na curva, no bolo e na boca do túnel também (sic)”, consta em uma postagem.

Em outros materiais publicados pela quadrilha, além da apologia ao crime, há ironia com as futuras vítimas: “Bem vindos a Guarujá, onde seu ouro vale muito para nós”.

Os criminosos deixam claro o interesse por carros importados, os quais eles chamam de “naves”. Diversas fotos de relógios importados desejados nos roubos (Tissot, Baume & Mercier, Bulova, Hublot e Patek Philippe Geneve) também estão entre as postagens.

Criminosos ironizam futuras vítimas por meio de postagens na rede social (Foto: Reprodução)

Diretor da Polícia Civil vê disputa de poder entre criminosos

O diretor do Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-6), Aldo Galiano Júnior, analisa que a utilização das redes sociais para postagem dos crimes cometidos trata-se de uma disputa de poder entre criminosos.

“Isso mostra que eles estão em uma disputa, tendo a necessidade de mostrar que são melhores, mais perigosos”, afirma Galiano Júnior.

Ainda de acordo com o diretor do Deinter-6, a utilização das redes sociais por parte dos assaltantes ocorre, geralmente, quando algum líder é preso pela polícia. “Após as prisões de seus superiores, o restante dos criminosos tem que mostrar serviço para o novo ‘chefe’ ou para tentar tomar o poder para si mesmo”.

Galiano Júnior frisa que as redes sociais auxiliam o trabalho da polícia. “Assim conseguimos cruzar nossos dados de inteligência e realizar as prisões necessárias, como no caso de Guarujá. Vai servir para completar um trabalho que já vem sendo realizado pelo Setor de Inteligência da Polícia Civil”.

delegado Aldo Galiano Júnior, diretor do Deinter-6, afirma que uso das redes sociais por parte dos assaltantes ocorre, geralmente, quando algum líder é preso (Foto: Matheus Tagé/DL)

Na avaliação do diretor, a divulgação dos criminosos ainda auxilia as potenciais vítimas. “Dessa forma, eles acabam mostrando onde as pessoas devem tomar cuidado e evitar passar. Ou seja, mostram para as pessoas os locais onde eles costumam agir”.

'O caminho do assalto'

O Diário do Litoral publicou, em 4 de maio de 2011, reportagem exclusiva que mostrou a imagem de assaltantes agindo em plena luz do dia nas imediações do Túnel da Vila Zilda. A fotografia, feita por um turista da Capital que ocupava um carro blindado, mostra um dos assaltantes com arma apontada para o veículo dele, um Hyundai Santa Fé. A imagem, que foi disponibilizada pelo turista à Polícia Civil, possibilitou a identificação e captura da quadrilha envolvida.

Apesar das ações desenvolvidas pelas polícias Civil e Militar para o combate às quadrilhas que agem no local, o número de criminosos continua elevado.

Segundo revela o investigador-chefe da Delegacia Sede de Guarujá, Paulo Carvalhal, uma segunda quadrilha que está agindo naquela região, com mais de 10 assaltantes, já está em processo de identificação.

Conforme observa Carvalhal, ao longo dos últimos anos diversas quadrilhas foram desarticuladas naquela área. "É um trabalho ininterrupto de investigação".

O Setor de Comunicação Social da Polícia Militar informou, por meio de nota, que realiza, nas imediações do túnel, policiamento ostensivo e preventivo, contando com estacionamento de viaturas policiais ao longo da Avenida Lídio Martins Correa, rondas permanentes e ações de bloqueio.

O DL publicou, em 4 de maio de 2011, reportagem exclusiva que mostrou a imagem de assaltantes agindo em plena luz do dia (Foto: Reprodução)

Famosos

Pessoas famosas engrossam a estatística de assaltos naquela região. Em agosto de 2010, a ex-jogadora de basquete Hortência foi rendida por sete menores que interceptaram o veículo Mercedes Benz da atleta. Foram subtraídos um relógio, um rádio, câmera fotográfica e bolsa com documentos e cartões.

Em junho de 2008, mesmo reconhecido, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, foi alvo dos criminosos. O Rei do Futebol teve o carro, uma Zafira sem blindagem, cercado por dez jovens armados. Os ladrões levaram uma corrente de ouro, o celular e um relógio.

Ex-vereadores — Ituo Sato e Marinaldo Nenke —também estão na lista de vítimas assaltadas naquela região. Os delitos ocorreram no ano passado. Na madrugada de 16 de fevereiro deste ano uma equipe de segurança do vice-prefeito de São Bernardo do Campo e cantor, Frank Aguiar, foi alvo de disparos realizados por um assaltante. Após o tiroteio, o ladrão fugiu sem nada levar.

ANÁLISE

Mariana Thibes, socióloga da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de redes sociais

As redes sociais no Brasil se tornaram populares principalmente no final dos anos 2000, quando começaram a ser utilizadas também pela classe C e outras camadas sociais mais baixas. Nessa época houve uma segmentação social das redes sociais: o Facebook era utilizado pelas classes altas e o Orkut pelas classes populares. Hoje, já não há mais essa divisão e tanto o Facebook, quanto o Instagram e outras redes passaram a ser usados por todos e com objetivos muito parecidos.

Todos sabem que as redes sociais hoje se tornaram um espaço privilegiado para a exposição das pessoas, para a exibição de sinais de sucesso e felicidade. Nesse sentido, creio que os bandidos estavam em busca de algo muito parecido com as outras pessoas. Se as conquistas hoje não têm a mesma graça se não forem exibidas nas redes sociais, acho que o mesmo se passa com quem pratica atividades ilícitas. A disputa de poder, para eles, não tem o mesmo sentido se os sinais de sucesso não puderem ser exibidos para os rivais e para os demais participantes da rede. E nada mais adequado para a exibição dos feitos do que uma rede social. Com isso, eles adquirem prestígio no universo do crime, despertam a inveja dos rivais e talvez até a atenção das mulheres.

Creio que o que motivou os bandidos a exibirem seus crimes numa rede social, local que oferece o maior tipo de visibilidade hoje em dia, não diz respeito à ingenuidade, ignorância, ou desejo de desafiar o perigo, mas deixa evidente como esse tipo de gratificação obtida pela exibição online é poderosa, tanto que todos parecem estar cedendo à ela. Hoje, a manutenção de uma boa imagem nas redes sociais pode garantir acesso a coisas muito importantes, como um emprego, boas conexões, informações, amigos, parceiros amorosos, etc. Logo, exibir- se numa rede social deixou de ser apenas um ato de vaidade, para se tornar um meio de obter o reconhecimento dos outros (ser curtido, ser lembrado, ter seus posts comentados, compartilhados, etc.) e, sobretudo, bens muito concretos, como os que mencionamos antes. E tudo isso vale também para quem está no mundo do crime.

Se nós no orgulhamos de mostrar nossos feitos culinários, nossas viagens e nossos carros no Instagram e no Facebook, por que os criminosos também não haveriam de querer exibir seus feitos? Com tantas coisas importantes em jogo, fica difícil resistir à tentação, mesmo com o risco de ser apanhado pela polícia.