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Papo de Domingo: ‘O que mata não é o vírus, é o preconceito’

Autor do livro 'Morte e Vida PositHIVa', o escritor Luiz Alberto Simões Volpe, de 57 anos, vive com HIV há 30 anos.

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09 DEZ 2018Por Bárbara Farias09h32
Autor do livro “Morte e Vida PositHIVa”, o escritor Luiz Alberto Simões vive há 30 anos com o HIV.Foto: Nair Bueno/DL

Em pleno século 21, nenhuma doença tem estigma tão forte quanto a aids. Quem contraiu o vírus HIV enfrenta o dilema de viver com isso, o preconceito e a discriminação. 

Autor do livro “Morte e Vida PositHIVa”, o escritor Luiz Alberto Simões Volpe, o Beto Volpe, de 57 anos, há 30 anos com o vírus HIV, afirma que “pior do que o vírus é o preconceito”. 

Na semana do Dia Mundial de Luta contra a Aids, celebrado em 1º de dezembro, Volpe conta que três décadas após a descoberta da doença, o preconceito e a discriminação contra pessoas com HIV/Aids ainda são acirrados.

Volpe teme também a possibilidade de uma revisão das estratégias de prevenção, orientação e distribuição de medicamentos a pacientes com HIV no Governo de Jair Bolsonaro e manda recado aos jovens, considerando o alto índice de casos, que é preciso se prevenir contra o HIV. 

Atualmente, com o tratamento chamado ‘coquetel’ cujos medicamentos são distribuídos pelo Ministério da Saúde, um paciente mantém a carga viral controlada e em nível indetectável no sangue, o que reduz a quase zero o risco de transmissão. 

Diário do Litoral - Registros dos municípios da Baixada Santista mostram alta incidência de pessoas que contraíram HIV, principalmente os homens, na faixa etária de 20 a 39 anos. Como você avalia esse quadro?
Beto Volpe – Eu pergunto aos jovens se já tiveram que tomar remédio por oito dias para garganta ou outra doença. Foi fácil? Não. Imagina tomar um remédio para o resto da vida. A gente sabe que o SUS enfrenta problemas tanto de assistência farmacêutica quanto na questão de exames, de médicos. Há uma série de dificuldades, além do fato de que o preconceito está voltando a crescer. As pessoas estão se sentindo no direito de não admitir que a pessoa seja daquele jeito. 

Diário do Litoral – Você disse que possível revisão das políticas de prevenção e atenção aos pacientes com HIV no Governo de Jair Bolsonaro lhe preocupa. Fale mais sobre isso.
Volpe - O maior receio que as pessoas com HIV têm hoje é com relação à incógnita que é o próximo governo. Em 2010, o Bolsonaro declarou, em entrevista ao CQC, que o Estado não tem obrigação de custear o tratamento de quem contrai o vírus na “vida mundana”. A gente tem que lembrar também que o Congresso Nacional, hoje, é formado, em sua maioria, pelo pessoal que em 1988 era contra colocar o dever do Estado na saúde pública. Um pouco antes de criar o SUS, na Constituinte, foi um sufoco colocar que a saúde era um dever do Estado. A gente tem um receio muito grande que a integralidade do SUS seja revista, de fornecer tudo.

Diário do Litoral – Outra questão que você destacou é sobre a estratégia de prevenção ao HIV do Ministério da Saúde... 
Volpe - A prevenção da epidemia. A gente está vendo que o futuro ministro da Saúde (Luiz Henrique Mandetta) diz que lugar de falar de camisinha é em casa. Pergunte para 200 mil jovens quantos conversaram com os pais sobre camisinha. Nós estamos esperando uma geração sem formação nenhuma, como consequência não se pode esperar outro resultado qual o aumento da epidemia, que já está gritante. 

Diário do Litoral – As políticas de conscientização e prevenção são eficazes para coibir os casos de HIV? 
Volpe – Sem dúvida. O grande sucesso do programa mundial de aids é graças a políticas de conscientização para o público em geral, inserções na mídia de maneira constante. Onde você vai falar com os jovens? É na escola. Você conversar de uma forma direta e com a linguagem adequada para aquele público é a melhor estratégia que você tem para combater o HIV. Infelizmente, ultimamente, a Organização Mundial de Saúde, seguida pela maior parte dos governos, inclusive o brasileiro, esqueceram essas estratégias sociais e partiram só para a medicamentosa: profilaxia pré-exposição (PrEP), profilaxia pós-exposição (PEP), testes, tudo envolvendo ciência, mas a aids, muito mais que um vírus, lida com comportamentos humanos. Se você não levar isso em consideração, qualquer estratégia de prevenção vai ser furada.

Diário do Litoral - Qual a sua mensagem?
Volpe – É terrível falar sobre discriminação em pleno século 21. A gente esperava um mundo de paz, mas estamos vendo o fim da empatia, as pessoas não veem o lado do outro, só o seu. Respeitem a pessoa com HIV. O que mata as pessoas com HIV hoje não é o vírus, é o preconceito.

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