SEDUC

'É preciso acabar com a hipocrisia social urgente'

Técnica aponta problemas no sistema público de Santos para combater o problema da exploração sexual de crianças.

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11 AGO 2019Por Carlos Ratton09h12
Erika atuou por meses em equipamento da Prefeitura e acredita que é preciso mudar tudo para enfrentar o problema da exploração.Foto: NAIR BUENO/DIÁRIO DO LITORAL

A jornalista, bacharel em Serviço Social e mestranda em Movimentos Sociais e Políticas Sociais da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) Erika Bismarchi, conviveu com dezenas de adolescentes que enfrentaram a exploração sexual em Santos. Atendeu a menina que tentou suicídio no Tô Ligado, unidade da Prefeitura de Santos, e acabou falecendo no Hospital dos Estivadores. Neste Papo de Domingo, ela não tem dúvidas da falta de políticas públicas para combater o problema.

Diário do Litoral - O que você tem a dizer sobre esse caso?

Erika Bismarchi - O suicídio, infelizmente, para elas é a solução. O caso da N. é chocante e um reflexo da negligência do poder público com relação ao tema. Ela estava abrigada e foi devolvida a uma mãe totalmente desestruturada e sem oportunidades. O Estado não tem políticas sociais para amparar famílias assim. Ela já havia tentado o suicídio outras vezes por conta da vulnerabilidade social. Ela vivia pedindo socorro. Foi internada depois de morar em um casarão invadido por usuários de crack. Costumava dizer que tinha um namorado, de 40 anos, que a mantinha. Não sei se ele a explorava ou não. Ela e a mãe nunca conseguiram sair da vulnerabilidade.

Diário - Tem outros casos de vulnerabilidade?

Erika - Sim, como o de uma outra que estava sob risco de morte e precisava ser transferida para outra cidade como medida de proteção. Ela ficou três meses aguardando a transferência num abrigo, que também estava ameaçado de invasão por conta dela. O resultado é que ela foi para a rua e engravidou de um traficante.

Diário - O que falta ao poder público?

Érika - Comunicação interna dos órgãos. Eles deveriam trabalhar em conjunto, buscando solucionar caso a caso, mas são ineficazes. Talvez, por conta da burocratização do trabalho ou da própria falta de esperança do profissional, essas redes, que deveriam ser orgânicas, ligadas e integradas, são esgarçadas, e, em alguns casos, rompidas. É uma loucura. Muitas vezes, o conselheiro tutelar não tem contato com a escola, que por sua vez, não conversa com o abrigo. O abrigo recusa a permanência de uma jovem por ela ser "perigosa". Quando não estão abrigadas, perdem a vaga na escola e procuram um trabalho para, minimamente, sobreviverem. Muitas não conseguem por não possuírem documentos.

Diário - Há muitos obstáculos?

Érika - Elas são apenas mais um número para o sistema, uma pilha de questionários e formulários preenchidos. Tem quem apanhe, às 8 horas da manhã, porque não quer transar com um homem velho e pervertido. Têm as que transam por dinheiro, por droga, por ilusão. Tem aquelas que buscam incansavelmente um lugarzinho ao sol, mas esse sistema cruel e perverso coloca tanto obstáculo no caminho que se torna melhor e mais fácil, roubar, traficar, transar, se drogar, até que um dia o peso da sua curta e dura vida de 13 anos seja tanto, mais tanto, que esmague todas as possibilidades, fazendo com que não haja mais horizonte e, assim, acabe abreviando a sua vida.

Diário - Santos é uma cidade propícia à exploração?

Érika - Na década de 90, o Projeto Meninas de Santos atendia 160 meninas fixas e 300 não fixas. Depois veio o Sentinela, que apontava 39 meninas. Em 2005, depois da implantação do Sistema Único de Assistência Social (Suas), ele foi extinto e, desde então, a cidade volta a enfrentar a dificuldade para diagnosticar e erradicar o problema. É impossível ter terminado. É preciso busca ativa e investigar as redes sociais. Contratar profissionais para estudar e atacar o problema com técnica. Mas eles precisam de salário, tempo e investigação, que exige cuidado e segurança. Existe uma falha na rede muito grande.

Diário - É preciso entender o psicológico dessas crianças, não?

Érika - Elas estão nessa situação muitas vezes sem ao menos saber que estão sendo exploradas. Estão por um esmalte, de uma tintura de cabelo, de uma blusinha nova que elas viram em uma lojinha do centro, por um celular, uma carreira de cocaína. Todas têm suas necessidades! Estão sendo estupradas por um amigo do seu avô, de seu pai, da sua mãe. Recebem proposta para transar por R$ 20,00. Se é difícil cuidar de um adolescente estruturado, imagina uma criança inserida num contexto em que as únicas portas que se abrem são a da exploração e do tráfico.

Diário - Falta consciência da sociedade?

Érika - O santista não quer enxergar. Nunca quis. Muitas meninas que saem do abrigo dormem na orla por pura proteção. Elas não têm para onde ir. Não são moradoras de rua e nem têm a malícia das ruas. É uma realidade cruel. Não têm onde dormir, não têm comida, não têm escola, nada. Elas vivem em contagem regressiva no abrigo. A saída é política pública, acabar com a hipocrisia social. O ideal é a saúde, a educação e a assistência trabalharem em conjunto. É preciso respeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Caso contrário, vai continuar tudo errado.