Escadaria acima, carregadores transportam as riquezas do monte serrat

Tonho, um senhor franzino de 62 anos, segue sendo a referência do trabalho fundamental aos moradores de um dos principais morros santistas

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13 NOV 2018Por Rafaella Martinez09h45
Tonho, um senhor franzino de 62 anos, segue sendo a referência do trabalho fundamental aos moradores de um dos principais morros santistasTonho, um senhor franzino de 62 anos, segue sendo a referência do trabalho fundamental aos moradores de um dos principais morros santistasFoto: Nair Bueno/Diário do Litoral

‘Se não aguenta, chama o Tonho do 80’. É assim que os moradores do Monte Serrat conhecem Antônio Alberto Fernandes. O senhor franzino de 62 anos segue sendo a referência do trabalho fundamental aos moradores de um dos principais morros santistas: transportar, escadaria acima, móveis, compras e até mesmo materiais de obras para as mais de 1.300 moradias.

Apesar de diminuir a rotina de trabalho por conta de uma cirurgia recente, Tonho ainda aguarda no sopé do morro o chamado de algum morador. “Sempre chamam em cima da hora. Se vocês tivessem chegado antes iriam me ver subindo com uma cama box”, conta, munido com seus objetos essenciais de trabalho: um paninho que coloca debaixo do boné para conseguir apoiar melhor os objetos na cabeça e o pequeno celular sem avançados recursos tecnológicos, mas que atende muito bem a necessidade.

Há mais de 30 anos a rotina de Tonho é essa: conhecer o morro como a palma de sua mão e usar a força para atender a demanda dos moradores. “Eu trabalhava em obras e quando fiquei desempregado comecei a fazer esses serviços. Com o tempo a demanda foi crescendo e virou meu ganha pão. Afinal, todo dia alguém precisa de ajuda para levar alguma coisa para o alto do morro”, conta.

De acordo com Tonho, o valor a ser cobrado depende do material e da distância para onde ele vai. Mas, em alguns casos, o produto tem preço ‘tabelado’: o carregamento de uma geladeira de 60 quilos custa R$60; um saco de cimento sai por R$12 e cada tijolo R$2. “Não adianta cobrar caro, pois o pessoal é humilde e não vai conseguir pagar”, afirma. 

Na mesma lida há quatro anos, o carregador Juca fala que trabalho sempre tem, mas o que falta é gente disposta a trabalhar. “É bem puxado e cansativo, mas é fundamental esse trabalho que a gente faz. Todo dia chega carregamento de material de construção e você tem duas opções: ou bota na moto e leva lá para cima, sabendo que vai estragar o motor, ou contrata algum carregador. O bonde só leva lá para o topo e é bem caro, não é funcional. Tem que ser no braço mesmo. Se a gente parar o morro para”, conta.

Um lugar, vários nomes

“Aqui no sopé custa R$80. Já ali perto da minha casa, no quarto ‘santinho’, é R$200”. A forma solta como Juca se refere a um lugar físico diz muito sobre a cultura local dos moradores do Monte Serrat.

Apesar dos nomes das ruas, existem diversas outras formas de saber o endereço de alguém. “Eu morava ali na faixa do 100º degrau, virando a primeira direita. Mas muita gente se localiza através dos bares mesmo. Fala: ah, eu moro depois do Bar da Ana, sabe?”, conta rindo outro morador do Monte Serrat.

História

Há duas formas de chegar ao topo do Monte Serrat: uma delas é subir de bondinho os 147 metros da encosta rumo ao topo, onde estão o antigo cassino e o Santuário de Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira de Santos, construído há mais de 400 anos. A outra, se dá a partir de uma escadaria com 402 degraus e 14 nichos reproduzindo cenas da Via Sacra, inaugurados entre 1939 e 1941. No topo do morro, existe uma vista de 360 graus da cidade de tirar o fôlego, onde é possível ver também parte dos municípios de São Vicente, Cubatão e Guarujá.

O Monte Serrat é parte importante da história santista, pois servia de abrigo à população quando a então vila era invadida por piratas. Em um desses ataques, em 1614, os invasores acabaram soterrados e o milagre, atribuído a Nossa Senhora, tornou-a padroeira da cidade em 1955.