Programa dá dicas de livros para todas as idades no YouTube

Orelha & Capa Dura. Objetivo do programa é trazer pequenas resenhas para incentivar e facilitar a escolha da leitura

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30 ABR 2017Por Vanessa Pimentel11h30
Objetivo do programa é trazer pequenas resenhas para incentivar e facilitar a escolha da leituraFoto: Matheus Tagé/DL

O número de leitores no País subiu 6% entre 2011 e 2015, o que representa 56% da população, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Ibope, no ano passado. Porém, 30% dos entrevistados nunca compraram um livro e 32% alegaram a falta de tempo como o principal motivo para a falta da leitura. Para a pesquisa, é leitor quem leu inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses.

André Marques Ferreira Rittes é jornalista, escritor, mestre em educação e colunista deste jornal, aos domingos. De acordo com ele, a vida profissional lhe toma quase 12 horas diárias. “De manhã trabalho de casa, à tarde vou para a produtora e à noite dou aulas”, justifica. Mesmo assim, Rittes termina junto com o quarto mês do ano a leitura do seu 19º livro.

O amor por eles fez nascer em janeiro um programa no YouTube chamado Orelha & Capa Dura, onde ele dá dicas de livros divididos por temas em não mais de quatro minutos. Na entrevista concedida ao Diário, André explica essa ideia e opina sobre o mercado literário do País.

Diário do Litoral - Você é otimista em relação a este aumento de leitores no Brasil?
André Rittes -
Se a gente pegar pelo simples fato de que aumentou seria otimista, mas é preciso analisar: aumentou em que sentido e em relação a qual período? Digo isso porque, há muito tempo, o brasileiro já teve uma média de leitura anual de seis livros e agora são quatro. O problema é que essa média ainda é muito baixa. Não tenho os dados de cabeça, mas a gente está na média de países que não se comparam com o nosso em termos de cultura, de idade e até em número de livrarias.

DL - Seus dias são longos. Como você consegue tempo para ler 19 livros em quatro meses?
André -
Acho que é uma questão de priorizar. Basicamente, leio antes de dormir, durante uma hora, e no banheiro também! Por conta do e-Reader (leitor de livros digitais em inglês - Kindle) passei a ler um pouco mais. Ainda leio muitos livros de papel, mas tenho dividido bastante, então acabei aumentando meu número de livros, que é na média de 40 por ano.

DL - E o que você acha de aliar a tecnologia à leitura?
André -
Eu demorei bastante para aderir, tinha um pouco de receio, mas aí pesquisei, conversei com pessoas que já tinham e acabei adquirindo um. Hoje, acho uma ferramenta fantástica porque tenho ali dentro leitura para quatro, cinco anos, sem ocupar espaço em casa. Mas, mesmo com o Kindle, continuo comprando livros. Hoje mesmo comprei seis.

DL - A pesquisa aponta que o interesse pela leitura aumenta na faculdade. Acredita que há um interesse tardio?
André -
Eu parto do princípio que não há interesse. É cultural, é um hábito que o brasileiro não desenvolveu. A questão de lidar com o livro, ter em casa, ver pessoas lendo, isso foi diminuindo com o tempo. O Brasil já foi um país onde as pessoas liam bastante. A gente discutia sobre livros e hoje não se vê isso.

DL- Acredita que as escolas teriam uma parcela de culpa nessa falta de costume com o livro?
André -
Eu acho que a escola é o lugar mais inapropriado para a leitura, porque lá a leitura é sempre impositiva e nunca uma pessoa vai ter prazer numa coisa que é imposta. É difícil você conseguir fazer essa ligação. É claro que você pode amar, por exemplo, a sua profissão e ter prazer enquanto está trabalhando, mas é um nível de prazer diferente de quando você come uma sobremesa que adora, e a leitura, em princípio, tem que ser prazerosa.

DL- Você acha que existe um modo de despertar o prazer da leitura desde a infância?
André -
Acho que quanto mais cedo apresentar o livro para uma criança, melhor. Tem livro de pano, de plástico, de papel que possa rasgar porque a criança precisa mexer no livro, precisa entender que ele é um objeto com o qual ela pode contar para o resto da vida. Mesmo assim é difícil porque talvez o livro seja uma das mídias mais difíceis que existam. Poucas pessoas conseguem passar por essa adaptação e fazer da leitura, um hábito. Meus filhos tiveram todo esse processo, mas mesmo assim, hoje eles leem pouco e olha que eles veem praticamente todo o dia o pai e a mãe com um livro na mão. O mais novo, com 13 anos, ainda lê uns quatro por ano, já o mais velho, que vai fazer 17, nada.

DL - Não seria essa fase da adolescência que é complicada?
André -
Não sei... Acho que essa geração que é complicada. Eles são muito digitais. Veja bem, não é que essa geração não lê, mas faz isso em várias plataformas, onde é tudo muito recortado e não sei se isso funciona. A prova que eu acho que não funciona é porque não sabem escrever. A gente já está recebendo hoje nos cursos de Humanas, pessoas que são alfabetizadas, mas tem dificuldades na escrita.

DL - Como surgiu a ideia de usar a internet para falar de livros?
André -
A gente precisa se atualizar para ampliar o nosso grupo e até mesmo as nossas experiências de comunicação. Eu acho que hoje a televisão é o Youtube. Quem não está lá, dificilmente tem visibilidade. É uma forma de cutucar, de despertar o interesse e eu já tive algumas experiências agradáveis em relação ao Orelha & Capa Dura. É o caso de uma amiga que não lia há quatro anos e acabou pegando um livro porque viu a indicação no programa. Isso é legal porque você vê que o caminho foi feito através do canal. Outro ponto que o programa aborda é que a informação a respeito dos livros é restrita. A gente já teve no Brasil uma revista chamada Leia que juntava todas as editoras e todo mês informava os lançamentos. Também existiam cadernos nos jornais com resenhas literárias e hoje não tem mais nada. Então se você quiser saber o que tem de novidade, ou entra numa rede de leitores como a Skoob, ou visita livrarias constantemente.

DL- Acredita que as gerações futuras vão ler mais?
André -
Acho difícil. O Brasil só vai melhorar em todos os sentidos quando houver um investimento maciço em educação e não só em números, mas quando todas as pessoas se conscientizarem que ela é para todos. O professor sozinho não vai fazer milagre, nem a escola. Educação tem que começar em casa. O Brasil tem um dos maiores educadores do planeta que é Paulo Freire e não usa nada que o cara estudou e falou a vida inteira. O mundo respeita Paulo Freire e tenta colocar em prática as coisas que ele falou, o Brasil não. O amor pela leitura, pelos livros tem que vir do bojo da educação. Quando as pessoas se conscientizarem que lendo elas vão pensar melhor, vão entender as coisas que estão em volta dela, com certeza lerão mais. O Orelha&Capa Dura segue firme nesse propósito porque enquanto há vida há esperança.