Papo de Domingo: ‘Tendência é caminhar para incineração e pirólise’

Para ambientalista, a solução adotada para os resíduos sólidos na Baixada Santista já está decidida e caminha para a incineração. Entrevista encerra série especial ‘O Caminho do Lixo’

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25 JUN 2017Por Vanessa Pimentel11h00
Para Elio Lopes, os estudos do IPT não caminham da forma como deveriam porque não vislumbram nenhuma hipótese de tratamento biológicoPara Elio Lopes, os estudos do IPT não caminham da forma como deveriam porque não vislumbram nenhuma hipótese de tratamento biológicoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Para encerrar a série especial Meio Ambiente – O Caminho do Lixo, que trouxe matérias sobre a questão dos resíduos sólidos na Baixada Santista durante todo o mês de junho, o Diário do Litoral entrevistou o engenheiro ambiental Elio Lopes dos Santos.

Temas como a vida útil do Aterro Sítio das Neves e a possível solução que as prefeituras estudam, foram debatidos. Porém, para o ambientalista, os estudos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) não caminham da forma como deveriam porque não vislumbram nenhuma hipótese de tratamento biológico. “A tendência é caminhar para o incinerador e para a pirólise e ninguém está levando em consideração o que diz a Política Nacional de Resíduos Sólidos”, garante Elio. Confira a entrevista.

DL- A vida útil do Sítio das Neves está mesmo no fim?
Elio -
Eu vivo falando isso em todas as audiências públicas que tem na Câmara: estão esperando chegar num caminho crítico para depois ver o que precisa ser feito. Isso é político porque a hora que chega no caminho crítico, eles conseguem impor uma solução que nem sempre é aquela viável tecnicamente, economicamente e ambientalmente. Esse é o primeiro ponto a ser discutido quando se fala em Sítio das Neves. Por que deixaram chegar faltando um ano para saturar o aterro para começar a se fazer todo esse movimento?

DL - Há condições de aumentar a vida útil do Aterro?
Elio -
Há sim, é possível liberar mais uma célula. E por que não liberam mais uma célula? Porque alegam avançar em área de preservação. Eu respondo: mas aquilo era uma área de preservação. Sou ambientalista, mas se tiver que avançar em benefício de outro meio ambiente que é o urbano e que vai gerar um problema de segurança pública, por que não? Ocorre que, sempre houve uma política governamental querendo implantar o incinerador aqui na Baixada Santista. O Governo do Estado já tinha em mente a implantação de mais de 40 incineradores no Estado de São Paulo e a Sabesp é que vai gerenciar os resíduos sólidos quando isso acontecer. Tanto que a Sabesp gerencia um aterro em Águas da Prata, ou seja, ela já entrou nisso. E assino embaixo de tudo o que estou falando.

DL- Então, há um interesse em colocar incineradores na Região?
Elio –
Sim, o Estado não tem mais interesse nos aterros, por isso não dá mais licença para expansão. Todos querem a incineração, só que ela vai contra a Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Veja só, um incinerador para poder trabalhar precisa de muito resíduo, então se as cidades aplicarem a reciclagem, não precisam de um incinerador já que só iria sobrar o lixo orgânico que é úmido e, portanto, não serve para gerar calor. O problema é que não fizeram política nenhuma de resíduos sólidos, não priorizaram a coleta seletiva e agora estamos no limite. Se você pegar uma cidade como Santos, que é a Capital de todo esse processo, ela recicla no máximo 3%, se chegar. Então, eles querem enfiar tudo para dentro do incinerador ao invés de investir em reciclagem e seguir, inclusive, a questão da logística reversa. Para isso, seria necessário chamar os produtores de pet, latas de alumínio, plástico e fazer eles financiarem as cooperativas de reciclagem para que elas trabalhassem em benefício deles, mas hoje, quem está pagando isso é o povo para o beneficiamento dos grandes produtores de resíduos sólidos. Isso é justo? Por exemplo: pneus. Quem tem que pegar pneus, é a prefeitura? Não, é o produtor do pneu.

DL – Para você, qual seria a solução mais viável para o problema do lixo na Baixada Santista?
Elio -
Seria política de reciclagem associada ao tratamento biológico de digestão anaeróbia. Sai mais barato.

DL - Como ele funciona?
Elio -
Ele é amigo da reciclagem, porque há necessidade de separar tudo e daí só entra no biológico o material úmido. Vai entrar verdura, frutas, restos de comida, ou seja, resíduos sólidos urbanos. O tratamento biológico de digestão anaeróbia é um processo onde as bactérias independem de oxigênio para produzir o gás metano. Esse gás pode ser usado como combustível de ônibus, energia elétrica, então, seria a alternativa mais viável, mas para fazer isso, tem que ser feito gradativamente e ele poderia ser instalado no próprio Sítio das Neves. Em termos de custo, sairia em torno de R$500 milhões para implantar enquanto o incinerador sairia mais de um R$1 bilhão.

DL - A Baixada Santista tem condição de comprar um incinerador?
Elio -
Mas nunca.

DL - Então, as prefeituras não aplicariam um incinerador na Região por causa do custo?
Elio -
Eu acho que se fosse pela vontade, instalariam, mas pelo custo, não. A não ser que apareça algum empresário querendo bancar ou alguma verba. E o custo para bancar essa tecnologia também aumentaria para a sociedade.

DL - Você não é a favor do incinerador, então?
Elio -
Não, nunca fui, porque eu tenho conhecimento sobre isso.

DL - O incinerador polui?
Elio -
Polui, mas hoje em dia eles vêm com uma bateria de equipamentos de controle de poluição, mas não sei se pelo preço conseguiriam trazer isso para cá. Agora, como nós batemos muito em incinerador, os prefeitos vão vir com outra tecnologia que se chama Pirólise.

DL – O que é isso?
Elio -
É uma tecnologia onde a queima dos resíduos é feita com pouco oxigênio. A pirólise gera um gás de síntese que depois é queimado num processo menos poluente que um incinerador, mas que não deixa de emitir dioxina também. Tem equipamentos para controle de dioxina? Tem, mas vão gerar resíduos porque precisam de carvão ativo, granulado, enfim.

DL - O senhor supõe quais as diretrizes que o estudo do IPT irá apontar?
Elio -
Já está definido: Pirólise. Quer apostar comigo?

DL - Se isso acontecer, as cooperativas de reciclagem vão conseguir sobreviver?
Elio –
As prefeituras vão deixar alguma coisinha para elas para não ficar muito feio, mas não vai ter uma política como deveria. A política certa deveria ser pegar uma área e dispor para as cooperativas fazerem a separação entre recicláveis e não recicláveis. O que não serve, aí sim, iria para a pirólise. O problema é que o que gera energia é o plástico, o papelão, por isso, corre o risco da reciclagem diminuir. Eu não vejo o IPT caminhando de forma muito correta não, porque não estou vislumbrando nenhuma hipótese de tratamento biológico. A tendência é caminhar para o incinerador e para a pirólise e ninguém está levando em consideração o que diz a Política Nacional de Resíduos Sólidos e que os catadores são os maiores ecologistas que temos atualmente. Outro fator que envolve a reciclagem é o benefício social, porque traz emprego para pessoas que talvez não achassem oportunidade em outros ofícios.

DL - Você acha que a educação ambiental deveria ser obrigatória nas escolas?
Elio -
Sim, formal, na grade curricular desde o primário para que quando esse cidadão chegue a idade adulta e se forme em alguma profissão, possa ter responsabilidade e consciência ambiental. Do jeito que é hoje, as pessoas só passam a se preocupar com o meio ambiente quando estão na pós-graduação.

DL - Qual a sua opinião sobre a Lei Nacional da Política de Resíduos Sólidos?
Elio -
A lei é perfeita. O problema é que foi postergada novamente, ainda mais com essa crise.

DL - E quanto à sociedade, qual parcela de culpa ela tem em relação à situação atual do lixo na Região?
Elio -
Ela que se livrar do lixo, do problema. Você vai ver que a prefeitura vai ter dificuldade em implantar a nova lei do lixo em Santos. O cinto de segurança também era um problema, só que hoje você se sente inseguro se não estiver com o cinto, mas foi através da penalidade que as pessoas mudaram o hábito, criaram essa cultura. Está cheio de condomínios de alto padrão que não estão nem aí para o lixo. Quem tem que impor isso é o Estado, é o Município para que as pessoas sejam doutrinadas e se crie o hábito.