Papo de Domingo: 'Acho que emprego tem que ser preservado de todas as formas’

Economista fala sobre taxa de desemprego no País e comenta sobre a questão do emprego na Baixada Santista

Comentar
Compartilhar
05 FEV 2017Por Diário do Litoral10h30
O professor de economia José Pascoal Vaz aborda a questão do emprego na região e comenta sobre a expectativa em meio a um período de reformasO professor de economia José Pascoal Vaz aborda a questão do emprego na região e comenta sobre a expectativa em meio a um período de reformasFoto: Divulgação

Na última semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que o Brasil fechou o último trimestre de 2016 com a taxa de desemprego em 12%. Esse é o maior índice da série histórica do indicador, iniciada em 2012.

Em números, são 12,3 milhões de pessoas desocupadas, um aumento de 36% se comparado ao mesmo período em 2015. Além disso, o rendimento médio caiu 2,3%: de R$ 2.076 em 2015 para R$ 2.029 em 2016.

Na Baixada Santista, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), somente na Baixada Santista foram 19.573 postos de trabalho formais perdidos no ano passado. 

Nesta edição do Papo de Domingo, o professor de economia José Pascoal Vaz aborda a questão do emprego na região e comenta sobre a expectativa em meio a um período de reformas por parte do Governo Temer.

Diário do Litoral - Como o senhor enxerga a questão do emprego?

José Pascoal Vaz - Acho que emprego tem que ser preservado de todas as formas. Por isso, eu tenho batido muito na questão do Condesb, da Agem, das câmaras municipais e dos executivos da Baixada porque eu não vejo o pessoal se mobilizar, ficar horrorizado com isso. Quando a pessoa tem posses e perde o emprego, sempre tem a família para socorrer, você tem cartas de indicação. É diferente de quando um pobre perde um emprego. Os governos têm que se preocupar muito com isso. Não vejo essa mobilização por parte do Condesb, por parte dessas entidades.

DL – A região também sofreu com o aumento do desemprego...

Pascoal - Quando você pega as demissões, em relação as admissões – porque mesmo em crise tem um setor ou outro que está admitindo, essa diferença deu 19% a mais em demissões. Ou seja, as demissões eram 19% maiores que as admissões. Quando você pega Cubatão, deu 70%. O que aconteceu em Cubatão é muito grave porque acabou irradiando para o resto da região. Embora Cubatão não seja o maior contingente de pessoas, 70% contra 19% é um negócio extremamente significativo. Foram 4.500 pessoas na Usiminas, teve empresas de cimento que usavam a escória do auto-forno da Usiminas que também fecharam, além de outras empresas do ramo industrial que também fecharam. Isso aí começa a refletir no comércio e nos serviços em geral porque o cara que perde o emprego corta tudo o que pode, e quem permanece empregado também corta tudo o que pode porque tem medo de perder o emprego. Isso causa uma bola de neve negativa extremamente grave. Por isso que a Baixada teve esse percentual a mais que o estado e o Brasil.

DL - Na região, historicamente, dois setores impulsionavam o emprego: a indústria, em Cubatão, e o Porto de Santos. Qual destes setores mais preocupa? 

Pascoal – Os dois. A atividade do Porto, no ano passado, foi 7% menor que em 2015. É algo extremamente significativo. Os dois são importantes. Em Cubatão, eu lembro da Marcia Rosa quando fiz uma reunião lá com o pessoal, e ela estava desesperada. Estava a Usiminas e outras empresas fechando. A arrecadação dela estava indo para o brejo. Não tinha dinheiro para o hospital, não tinha dinheiro para as coisas mais importantes. Ela andou correndo atrás de empresas para ver se elas antecipavam impostos, mas não teve muito sucesso. Agora, o novo prefeito conseguiu. Não sei se tem alguma diferença ideológica, só sei que ele conseguiu. Eu sei que a Marcia Rosa se mostrou extremamente preocupada com o futuro de Cubatão, o que ela ía fazer com as emergências. Porque você deixa de pagar o médico um mês, o cara trabalha. Com dois meses, ele trabalha. Mas com três ou quarto meses... e a coisa fica grave. Aquele hospital de Cubatão já foi modelo mesmo para a Baixada Santista. É um negócio muito grave parar com a saúde.

DL - O Porto comemorou 125 anos na última sexta-feira. Economicamente, o Porto ainda é uma vocação de Santos?
Pascoal – O Porto vai continuar sendo importante. O problema é que os resultados do Porto acabam indo para fora da cidade. As empresas que trabalham no Porto são de capital de fora da cidade. Pequena parte do capital do Porto fica na cidade. Então os resultados vão para fora. Esse é um aspecto importante. Por outro lado, a cidade tem muita despesa com o Porto. As vias são estragadas, os congestionamentos. O que é importante no Porto? O emprego. Mas o emprego, com o container, a vantagem diminuiu muito. A vocação do Porto de Santos é trabalhar com container. Não é mais com granel, com cara carregando saco. Que também era um trabalho terrível.

DL - Existe uma solução regional para a questão do emprego? 

Pascoal –No começo se falou demais, se exagerou nas coisas, mas o pré-sal continua sendo importante para a cidade. Parece que há um movimento, embora de forma não tão grandiosa, de retomar esse desenvolvimento com base no pré-sal. Esse é um aspecto. Outro aspecto é que a cidade tem muitas universidades. São uns 30 mil alunos das mais diferentes disciplinas. Você forma pessoas em inúmeras especialidades. O que é importantíssimo para a região. Você pode fazer, realmente, uma região que desenvolva tecnologia, que consiga agregar valor àquilo que produz. Uma outra coisa que poderia ser muito importante é que Santos é uma cidade que gera muita poupança. Santos tem uma renda per capita muito elevada, uma das mais elevadas do País. A renda per capita de Santos é o dobro da renda per capita do País. Só tem cinco cidades com PIB per capita maior que Santos. O IDH de Santos também. Só tem cinco cidades com IDH melhor. O problema é a distribuição disso, como a renda e IDH são distribuídos. Como a cidade é muito desigual e tem uma renda média elevada, ela tem muita poupança. Os mais ricos consomem muito, mas sobra muito. Essa poupança, poderíamos de alguma forma, estimular que parte dela ficasse num fundo aqui em Santos. Hoje, o cara coloca a poupança num sistema financeiro que distribui para fora da cidade, até no exterior. Esse fundo seria administrado por quatro ou cinco pessoas do poder público, teria que ter um conselho que fosse também com a população. Um balcão de projetos para oferecer bons projetos à população. O fundo entraria com uma participação. Seria uma maneira de você alavancar a cidade e a região.

DL - Com o cenário atual, a previsão para este ano é de aumento ou queda neste índice?

Pascoal – O que a gente começa a ver é uma reação positiva. Essas coisas demoram para acontecer, mas todos os indicadores de confiança mostram que está melhorando. Mas existe essa história do controle de gastos, que sou contra da maneira que foi feito. Não tem cabimento essa PEC 55. Mas, para o mercado financeiro, os caras estão se lixando. Eles querem o controle e essa PEC foi feita para pagar juros. A PEC só fala em controle de gastos, exceto juros. Gastos com saúde, educação, isso tudo será controlado, mas juros não. A PEC é feita exclusivamente para gastos primários. É um outro grande absurdo você ter o País comandando pelo sistema financeiro, que não produz absolutamente nada. O sistema financeiro não tem uma função produtiva. Os caras ganham os tubos com os juros mais caros do mundo. Ano passado nós pagamos R$ 540 bilhões em juros. O que dá 9% do PIB. É muita grana. É uma coisa inacreditável o que o sistema financeiro faz com o Brasil. Tem trabalhos do Roberto Troster, que foi por muitos anos economista-chefe da Febraban, que dizem que o brasileiro gasta 20% do PIB em juros. Além dos 9%, quando você compra geladeira, fogão, você está pagando juros. Se você pegar tudo isso dá 20% do PIB de juros.

DL - Como a política do Governo Temer tem influenciado?

Pascoal – A grande influência no desemprego foi antes. Foi o movimento para eles ganharem o poder. Ali foi a grande jogada. Dane-se o mundo. Precisa derrubar para – a expressão do Jucá foi essa, estancar a sangria. O Congresso ficou aprovando tudo o que o Temer apresentou. Aprovou a PEC 55, que é um absurdo, e sem nenhuma modificação. Eu acho que a PEC, daqui há cinco anos, vai começar a dar resultados profundamente negativos porque ela transfere dinheiro do estado para a inciativa privada. Essa é a jogada dos neoliberais, e é muito ruim. O Wellington Dias, governador do Piauí, fez uma PEC lá. Só que enquanto a PEC do Temer diminui as despesas de 26% para 12% do PIB, a do Dias reduz de 26% para 24% do PIB. Com uma vantagem, a do Temer é para 20 anos, podendo ser revista em dez. A do Dias é para dez anos, podendo ser revista em cinco. É diferente.

DL – Existem outras propostas feitas pelo Governo que devem causar reflexos na economia como a Previdência... 

Pascoal – Precisa estudar a Previdência para valer. A Previdência é um negócio que, a longo prazo, se você não cuidar pode ser um negócio muito ruim para o País. Agora, não é porque o negócio precisa ser mexido, que você vai mexer de qualquer jeito. O pessoal argumenta que precisa controlar a Previdência, mas não discute o que está sendo feito. Discute o que precisa ser feito. Duas coisas: precisa ser feito na intensidade que estão falando? Eu acho que não. Mas precisa ser discutido nacionalmente. E os remédios, quais são? O que estão eles estão fazendo? Idade mínima de 65 anos. Se você pegar a distribuição de expectativa de vida por faixa de renda, você verá que os mais pobres tem uma expectativa de vida por volta de 65 anos. Os mais ricos em 85 anos. Quando você impõe o limite de 65, você vai ter muita gente que nem vai se aposentar. Que irá contribuir para os mais ricos aposentarem. E isso não é levado em conta. Esse pessoal que está no governo não tem esse tipo de abordagem. Não questionam o tipo de medida.

DL – Outro foco é a reforma tributária...

Pascoal - O discurso é que a carga tributária no Brasil é muito elevada. Mas você observa os dados e verifica que não é bem assim. A dívida social no Brasil é enorme. O mais pobre não tem saúde, educação, salário, nada. Você precisa diminuir a desigualdade. E como fazer isso? É tributar, mas tinha que tributar os mais ricos para poder dar dinheiro ao Estado e ele dar saúde, educação, essas coisas todas. O que foi feito? Você pega só bens e serviços, quem ganha até dois salários mínimos paga 46% de carga tributária. Quando você pega quem ganha mais de 25 salários mínimos, a carga tributária é de 18%. Quando você cobra imposto de um cara muito rico, não afeta a vida do cara. Ele só deixa de ficar mais rico. Quando você taxa o pobre, o cara come menos, compra menos remédio. Tem que diminuir a tributação, que hoje é altíssima, em cima dos mais pobres, aumentar em cima dos mais ricos, ter imposto sobre herança, imposto sobre fortunas. Nada disso é falado. Todas as medidas do governo Temer são contra os mais pobres.

DL – É possível ter esperança na retomada da economia?

Pascoal - O que a gente escuta falar é existem alguns indicadores de confiança que estariam se recuperando. O grande problema de uma crise econômica é a questão da expectativa, da confiança. Tem um teórico inglês, que pelos anos de 1920 e 1930, ele desenvolveu uma pesquisa com base na psicologia coletiva social em que ele dizia o seguinte: se você acreditar que algo é real, mesmo que não seja, as consequências dos seus atos serão reais. É a profecia autorrealizável. É o seguinte: eu digo que a coisa vai piorar. Eu convenço você e você convence outros dois e vai numa reação em cadeia, e a coisa acaba piorando. Foi o que aconteceu nessa crise. Se você analisar o Brasil de 2013 e 2014, estava uma situação muito boa, não tinha motivo para dizer que o País estava mal. Começou antes do segundo mandato da Dilma. O pessoal começou a dizer que a coisa estava ruim. Quando veio a eleição, que eles perceberam que podiam ganhar, eles começaram. Tanto que o Aloysio Nunes, que era o vice do Aécio, falou que não queria o impeachment da Dilma, mas que ela sangrasse até o fim. Isso, para um senador da República, falar um negócio desse é dane-se o povo. É terrível. Aí juntou com o Petrolão, que realmente foi uma vergonha. Essa coisa toda de crise foi uma crise fabricada. Foi a tal da profecia autorrealizável. Agora, falaram tanto que o País estava quebrado que os empresários pararam de investir. Depois, uma taxa de juros monumental, o cara pode aplicar ganhando muito dinheiro. O consumidor, o desempregado, coitado, tá ferrado. O empregado tem medo de perder o emprego. É o teorema de Thomas. A gente está nessa situação. Agora, para reverter... Você tem 12 milhões de desempregados. Você tem capital físico, tem mão de obra, e capital financeiro que está aplicado. Falta combinar, vamos combinar o jogo. Mas para fazer isso precisa ter uma tremenda credibilidade porque falaram tanto que está quebrado.