‘Insano, intenso é o racismo no Brasil’

Ketinho Oliveira aguardava o ônibus para Ribeirão Pires, que o levaria até sua cidade natal, Mauá. Por volta das 9h30, ele foi ao banheiro e, ao sair, começou a história que mudaria seu dia.

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18 MAR 2018Por Caroline Souza11h10
'As expressões de racismo que eu mais tive foram na cidade de Santos', disse Ketinho.'As expressões de racismo que eu mais tive foram na cidade de Santos', disse Ketinho.Foto: Rodrigo Montaldi/DL

Negro. Preto. A raça e a cor de pele de Cléverson Oliveira, mais conhecido como Ketinho, foram o motivo pelo qual ele foi agredido na rodoviária de Santos. No último dia 10, Ketinho Oliveira aguardava o ônibus para Ribeirão Pires, que o levaria até sua cidade natal, Mauá. Por volta das 9h30, ele foi ao banheiro e, ao sair, começou a história que mudaria seu dia.

A frase destacada faz parte de um poema que o estudante de Serviço Social – e poeta – declamou na última quarta-feira, em ato organizado para denunciar a violência sofrida. 

“Eu não sou o primeiro, eu sou só um sujeito disso.  (...) Eu não sei mais de nada, é tanto peixe fora d’água, que eu tenho medo de sair da minha casa. (...) Insano, intenso é o racismo no Brasil, o beijo que sua mãe te deu na testa, camarada, pode ter a marca de um fuzil“.

Diário - O que aconteceu na rodoviária?

Ketinho Oliveira - Quando saí do banheiro, coloquei minha bolsa no chão para pegar um documento e facilitar o embarque. Nessa hora, vi um vigilante passar e fazer um sinal com as mãos para eu sair, mas ­continuei ali. Ele se aproximou e falou “Sai fora!”. Perguntei se ele estava falando ­comigo e ele disse “É com você mesmo. Sai fora!”. Questionei por que e ele continuou: “Você é um pedinte. Sai fora!”. 

Em seguida, entra uma pessoa em situação de rua no banheiro, que tinha um arquétipo muito semelhante ao meu. Pedi para ele se desculpar, mas ele ­reafirmou “Você é um pedinte, você é como ele”.

Ao ver que eu resistia em sair, ele chama outro segurança. Este pede para eu apresentar a passagem. Mostro a passagem e meus documentos e peço para ele me mostrar quem disse que eu estava pedindo.

Nesse momento, comecei a apontar o dedo para ele, dizendo que ele não podia falar daquele jeito comigo. Ele diz que é Guarda Civil Municipal (GCM) e que eu estava fazendo desacato. Me senti ainda mais violado, porque ele quis se utilizar do poder de GCM comigo. Depois, falei “pouco me importa o que você é, estou no meu direito e você está sendo racista”. 

Diário - Quando a agressão começou?

Ketinho - Foi depois que disse isso que a agressão começou. O primeiro golpe [com cassetete] ia pegar na minha cabeça, mas coloquei a mão e acertou meu braço, outro pegou meu punho e o terceiro iria acertar minhas costas, mas eu corri.

Dei a volta no terminal e peguei minha bolsa. Mesmo com toda gritaria, ninguém fazia nada. Então comecei a gritar muito, dizendo que ele estava sendo racista e que mesmo que eu fosse pedinte, não poderia ser tratado desta forma.

Diário - O vigilante se afastou neste momento?

Ketinho - Ele ficou parado, fazendo cara de ‘paisagem’, como se não estivesse vendo nada. O outro se manteve perto e ficava me mandando parar.

Diário - O que você fez depois?

Ketinho - Encontrei uma amiga, fomos na administração, ela chamou a Polícia Militar, que me encaminhou para a delegacia, onde fiz boletim de ocorrência.

Diário - O que te falaram na administração?

Ketinho - Disseram que não poderiam fazer nada, porque a empresa era terceirizada. Falei que com racismo nunca ninguém podia fazer nada. Que eu sou só um sujeito, mas o estereótipo alvo é o povo negro. 

Diário - Você achou que sofreria agressão?

Ketinho - Eu achei que ele iria me empurrar, a postura dele me fez pensar isso. Na frente do banheiro tem uma mureta, estava com medo de ele me empurrar e eu cair dali. A minha preocupação era isso, mas assim que ele pegou o cassetete eu soube.

Diário - Qual foi a sua reação?

Ketinho - Eu corri e depois comecei a denunciá-lo. Quando passou, me questionei o porquê da reação dele. Só tem uma resposta: é uma expressão do racismo latente e ele atribuiu as características de uma outra pessoa a mim. Ele assume a responsabilidade quando ele faz a comparação ‘você  é  como ele’ e me agride. É uma ­prática comum eles fazerem isso ali, porque é um local que não tem câmera.

Diário - Quem te denunciou que essa prática é constante ali?

Ketinho - No dia do ato, diversas pessoas em situação de rua nos procuraram e deram esse depoimento. Eles são tratados de forma truculenta naquela região. 

Diário - Você já tinha sofrido outra agressão?

Ketinho - As expressões de racismo que eu mais tive foram na cidade de Santos. No dia que eu vim fazer a matrícula, uma mulher estava descendo a escada da Universidade, segurou a bolsa e gritou para segurarem também. A segunda vez, fui fazer uma pergunta e a mulher agarrou a bolsa, começou a gritar e saiu correndo.

Meu pai é Gerente de Promoção de Direitos Humanos - Coordenador de Igualdade Racial, em Mauá, então eu vim de uma militância do povo preto. Mas a gente nunca imagina que isso aconteça de forma tão truculenta com a gente. 

Por mais que as pessoas construam no subconsciente que uma pessoa em situação de rua é suja, fedida, tem barba, enfim, nenhum desses arquétipos estavam determinados em mim naquele momento e é por isso que eu continuo pautando que foi pela minha cor.

A ideologia do racismo faz o mito da democracia racial, de falar que todos nós somos iguais, que temos os mesmos espaços, direitos e deveres. Quando eu falo que é uma ideologia é porque a sociedade vai fazer com que o próprio trabalhador não se reconheça como negro, vai fazer o que o próprio trabalhador fez comigo, que foi a agressão para dizer que o racismo vem do negro. É um jogo. E isso mostra o genocídio do povo preto em geral. 

Diário - Mudou alguma coisa na sua visão do racismo?

Ketinho - Eu já tinha essa consciência, só não imaginava que ia acontecer comigo. Ele não tirou minha vida, mas me senti como uma madeira: uma vez o prego batido, o buraco permanece. A marca vai sair, mas o dia, a hora, o espaço e o momento vão ser para sempre.

Diário - Como você acha que vai ser frequentar a rodoviária?

Ketinho - Vou procurar outros meios para viajar. Carona, ou pegar o ônibus em outra cidade. Eu utilizava [a rodoviária] uma vez na semana e agora pretendo utilizar uma vez por mês.