Encontro discute a mortalidade infantil

O presidente da Sogesp, Francisco Lázaro, explica que o encontro focado na saúde da mulher é uma das estratégias para solucionar o problema

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09 ABR 2017Por Vanessa Pimentel12h00
O Diário do Litoral conversou com o presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), Francisco Lázaro Pereira de SouzaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A Baixada Santista possui a maior taxa de mortalidade infantil do Estado de São Paulo, segundo dados divulgados em outubro do ano passado pela Fundação Seade e Secretaria de Estado da Saúde. Com intuito de discutir o tema e buscar alternativas para amenizar o problema, é realizada, neste fim de semana em Santos, a IX Jornada de Ginecologia e Obstetrícia. O evento termina hoje com uma programação especial aberta ao público a partir das 9h, na Tenda da APM, localizada na Praia do Gonzaga (próximo ao Canal 3).

Para entender um pouco mais sobre as causas da mortalidade infantil, o Diário do Litoral conversou com o presidente da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (Sogesp), Francisco Lázaro Pereira de Souza.

DL - Quais alternativas estão sendo aplicadas para diminuir o índice de mortalidade infantil na Baixada Santista?

Francisco -
De nossa parte a SOGESP Regional Santos e Baixada Santista, em consonância com a SOGESP Central /São Paulo, promove eventos de qualificação profissional como a IX Jornada que aconteceu neste fim de semana aqui em Santos no Mendes Plaza Hotel, e que contou com aproximadamente 300 inscritos dentre profissionais e estudantes da área de saúde de toda a região, além de reuniões científicas mensais, com experientes formadores com o foco na saúde da mulher. Compreendemos que a contribuição neste sentido é um dos instrumentos a ser adotado para este fim.
Outras estratégias aguardadas que podem causar impacto positivo nestes índices seriam: divulgar informações sobre prevenção da mortalidade materna entre as mulheres em idade fértil, disponibilizar orientações de planejamento familiar com acesso a métodos contraceptivos e pré-concepcionais que sugira o momento mais adequado para a gravidez, redimensionar a oferta de prestadores para procedimentos diagnósticos e terapêuticos, qualificar o profissional para o atendimento ao aborto, pré-natal, parto e puerpério, ampliar programas de vigilância de gestantes de risco principalmente para hipertensão, hemorragia e infecção, valorizando os dados obtidos dos casos de morbidade materna e neonatal grave e incentivar a participação do acompanhante antes, durante e após o parto.
Em ampla perspectiva esse é um tema que deveria constar na agenda de toda a população.

DL - Como se caracterizam os dados da mortalidade materna e infantil?

Francisco -
Morte materna, segundo a 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), é a “morte de uma mulher durante a gestação ou até 42 dias após o término da gestação, independente da duração ou da localização da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas em relação a ela, porém não devida a causas acidentais ou incidentais”.
Morte Infantil é o número de óbitos de menores de um ano de idade, por mil nascidos vivos, em determinado espaço geográfico, no ano considerado e divide-se em período neonatal precoce (0-6 dias de vida), neonatal tardio (7-27 dias) e pós-neonatal (28 dias e mais).

DL - Quais são as principais causas das mortes?

Francisco -
As causas obstétricas mais frequentes das mortes maternas são as síndromes hipertensivas, com destaque para pré-eclâmpsia, seguidas por hemorragias durante a gravidez e após o parto, bem como infecção.

DL - Como as mães podem se prevenir?

Francisco -
As mulheres deveriam realizar uma orientação pré-concepcional, ou seja, planejar de fato a sua gravidez. Na prática seria realizar uma consulta médica com o intuito de conhecer a sua situação de saúde antes de engravidar, considerando que algumas doenças já existentes podem se agravar durante a gravidez e puerpério (período de 6 a 8 semanas pós-parto quando o corpo sofre uma série de alterações para retornar ao estado pré-gravidez), reconhecê-las e tratá-las antecipadamente eventualmente poderiam minimizar os seus riscos. A busca por informações é de suma importância, além da adesão ao pré-natal exercendo uma participação ativa. Estimular a participação do seu acompanhante pode aumentar as chances de sucesso. O cuidado com o seu próprio corpo não pode ser esquecido evitar o consumo de álcool, de drogas lícitas e ilícitas além do tabagismo sem dúvida é importante. Valoriza-se ainda o reconhecimento dos sinais e sintomas de alarme como dor de cabeça, dor no estômago, visão ”embaçada”, inchaço principalmente no rosto e mãos, aumento de peso excessivo e perdas vaginais como sangue e líquido, além de diminuição da movimentação fetal que devem fazer a mulher procurar atendimento médico com a maior brevidade possível para uma avaliação da situação. Os cuidados no puerpério devem ser amplamente estabelecidos porque é nesta fase que ocorrem frequentemente a maior quantidade de óbitos maternos.

DL - O que caracteriza um bom pré-natal?

Francisco -
A Organização Mundial da Saúde preconiza que ocorram pelo menos seis consultas de pré-natal, sabe-se, no entanto, que mais importante que a quantidade é a qualidade do seu atendimento, o espaço para a mulher ser ouvida e o acesso aos cuidados qualificados baseados em evidência científica são os pilares de uma boa atuação neste sentido.

DL - O que caracteriza violência obstétrica e como proceder caso a paciente se identifique como vítima de um caso como esse?

Francisco -
Caracteriza por maus tratos à mulher, antes, durante ou após o parto. Nestes casos a sugestão é procurar primeiro os responsáveis pelo Serviço onde a mulher deu a luz e se não se sentir contemplada com as providências adotas, procurar as instancias cabíveis para exercer o seu direito enquanto cidadã.