Bolsonaro sugere que morte de miliciano ligado a Flávio foi queima de arquivo do PT

O presidente não apresentou evidências sobre uma suposta execução sumária e, para levantar essa hipótese, fez referência à reportagem da revista Veja com fotos feitas após a autópsia do corpo

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16 FEV 2020Por Folhapress10h18
Foto: José Cruz/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) rebateu, em nota divulgada à imprensa na noite deste sábado (15), o governador da Bahia, Rui Costa (PT), e afirmou que a polícia do estado nordestino não buscou preservar a vida do ex-capitão Adriano Nóbrega.

"[A PM] não procurou preservar a vida de um foragido, e sim sua provável execução sumária", diz o texto, que também fala em queima de arquivo.

Mais cedo, no Rio de Janeiro, Bolsonaro fez uma primeira manifestação sobre a morte de Adriano, miliciano ligado ao seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido). Nóbrega foi morto no domingo (9) no município de Esplanada (BA), ao ser alvo de operação que envolveu as polícias baiana e fluminense.

Segundo o presidente, ele era um herói na época em que foi homenageado pelo hoje senador. O então deputado estadual Flávio concedeu ao ex-policial a Medalha Tiradentes, mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, em 2005.

Neste sábado, em uma rede social, o governador Rui Costa havia rebatido suspeitas levantadas sobre os agentes locais. Ele disse que o estado "luta contra e não vai tolerar nunca milícias nem bandidagem" e fez uma referência à Presidência da República.

"O Governo do Estado da Bahia não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem procurados pela Justiça", afirmou o petista.

Segundo Costa, a determinação no estado "é cumprir ordem judicial e prender criminosos com vida".

"Mas, se estes atiram contra pais e mães de família que representam a sociedade, os mesmos têm o direito de salvar suas próprias vidas, mesmo que os marginais mantenham laços de amizade com a Presidência", afirmou.

Bolsonaro, que tem um histórico de apoio a ações das polícias, criticou a operação que matou o ex-policial. O presidente não apresentou evidências sobre uma suposta execução sumária e, para levantar essa hipótese, fez referência à reportagem da revista Veja com fotos feitas após a autópsia do corpo.

"É um caso semelhante à queima de arquivo do ex-prefeito [de Santo André (SP)] Celso Daniel, onde seu partido, o PT, nunca se preocupou em elucidá-lo, muito pelo contrário", diz a nota.

Ao chegar ao Palácio da Alvorada na noite deste sábado, Bolsonaro ficou 38 minutos dentro do carro antes de cumprimentar apoiadores que o esperavam. Ele estava acompanhado do secretário da Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten.

Ao sair do automóvel, disse que não falaria com a imprensa e que a demora para atender os apoiadores ocorreu porque estava despachando a nota sobre o caso para a TV Globo. Minutos depois, o texto foi distribuído para a imprensa.

Na mensagem, Bolsonaro afirma que o "então tenente Adriano foi condecorado em 2005" e que "até a data de sua execução" nenhuma sentença condenatória havia transitado em julgado em desfavor do mesmo. 
Investigações apontam que Adriano Nóbrega, que estava foragido quando morto, atuava em diferentes atividades ilegais: milícia, jogo do bicho, máquinas caça-níqueis e homicídios profissionais.

A nota à imprensa ainda afirma que Rui Costa tem laços de amizade com bandidos condenados, citando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). "É irônico o governador petista falar de más companhias quando, nos últimos anos, os principais dirigentes nacionais do PT foram condenados e presos na Operação Lava Jato", diz o texto.

O presidente afirmou que os "brasileiros honestos" querem os nomes dos mandantes das mortes do ex-capitão e também do ex-prefeito Celso Daniel, da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

Adriano estava detido quando foi homenageado por Flávio Bolsonaro. Em janeiro de 2004, ele foi preso preventivamente, acusado pelo homicídio do guardador de carro Leandro dos Santos Silva, 24. 

O então policial chegou a ser condenado no Tribunal do Júri em outubro de 2005, mas conseguiu recurso para ter um novo julgamento, foi solto em 2006 e absolvido no ano seguinte.

O ex-policial foi citado na investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro que apura se houve "rachadinha" no gabinete de Flávio quando ele era deputado estadual. Segundo o MP-RJ, contas de Adriano foram usadas para transferir dinheiro a Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio e suspeito de comandar o esquema de devolução de salários. 

Queiroz e Adriano trabalharam juntos no 18º Batalhão da PM. Foi por meio de Queiroz que familiares de Adriano foram contratados como assessores no gabinete de Flávio: a mulher do ex-capitão, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, de 2007 até novembro de 2018, e a mãe dele, Raimunda Veras Magalhães, de abril de 2016 a novembro de 2018. 

Em 2005, enquanto estava preso preventivamente pelo homicídio de um guardador de carros, Adriano foi condecorado por Flávio com a Medalha Tiradentes. Flávio já havia homenageado o hoje ex-policial dois anos antes. O então deputado estadual apresentou uma moção de louvor em favor de Adriano. 

Adriano também foi defendido por Jair Bolsonaro, então deputado federal, em discurso na Câmara dos Deputados, em 2005, por ocasião da condenação por homicídio. O ex-capitão seria absolvido depois em novo julgamento.