A família é fundamental na reabilitação das crianças

O CRPI é uma ONG voltada à reabilitação física e atende, em sua maioria, crianças com paralisia cerebral

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10 ABR 201416h06

A melhor canção vem de um coro de risos de crianças. Numa sala cheia, elas brincam e riem, porque o contentamento está em cada instante vivido, enquanto aguardam a vez da consulta no ambulatório, alheias às suas próprias limitações. Limitações? O que é isso para quem ainda dá os primeiros passos na vida e aprende desde cedo a ser feliz.

O compositor Gonzaguinha, anos atrás, já havia transformado em música a alegria espontânea de uma criança. Ele compôs: "eu fico com a pureza da resposta das crianças, é a vida, é bonita, e é bonita". A busca dessa "resposta" é a missão do Centro de Recuperação de Paralisia Infantil e Cerebral do Guarujá (CRPI), por meio da reabilitação física. Cada passinho alcançado por uma criança assistida pelo CRPI é uma resposta positiva de qualidade de vida.

"Muitos acham que a criança especial é triste, pelo contrário, ela é muito alegre", diz a assistente social Liliane Spicacci Rigonati.

Segundo Liliane, a instituição atende gratuitamente cerca de 250 crianças por mês, a maioria acometida de paralisia cerebral. O atendimento é focado na reabilitação motora dos pacientes que são acompanhados por uma equipe interdisciplinar de profissionais especializados na área neurológica. Para ela que atua há 29 anos no CRPI o seu trabalho é recompensador: "a gente aprende com eles a cada dia. Eu sou grata por esse aprendizado".

"O CRPI tem uma missão institucional que é a inclusão social da pessoa com deficiência dando ênfase à família. Não existe reabilitação sem envolvimento familiar. Trabalhamos com o despertar dessas famílias, se elas sabem dos direitos de seus filhos, elas fazem com que isso aconteça lá fora, na questão da acessibilidade, direito de ir e vir, direitos ao lazer e à educação", explica Liliane. A assistente social esclarece que a área de preponderância do CRPI é a saúde, mas a instituição também realiza atividades voltadas à educação e à assistência social.  

Crédito: Luiz Torres/DL

Saúde
“Na reabilitação, o CRPI atende crianças de 0 a 18 anos. No ambulatório, atendemos a todos, inclusive ex-pacientes adultos, porque todos têm direito, até pacientes com deficiência física de outra cidade. Dependendo dos casos, fazemos o encaminhamento. Eles só não vão ser atendidos aqui. A gente não fecha as portas”, ressalta Liliane. Liliane explica como funciona cada um dos projetos: saúde, educação e assistência social.  

"O projeto da saúde está dividido na estimulação precoce dos bebês (0 a 3 anos e 11 meses) e das crianças com lesão neurológica, que é a paralisia cerebral (leve, moderada e grave)".
O CRPI acompanha 250 crianças mensalmente, mas o ambulatório médico realiza cerca de 400 atendimentos por mês de pacientes assistidos e não pela instituição. "Na nossa equipe temos um neuropediatra, um ortopedista, dois pediatras e uma dentista.

O ambulatório funciona como uma unidade de saúde do Guarujá especializada, integrada às redes da Prefeitura. Todos os encaminhamentos são feitos via sistema, com regulação da Prefeitura”, explica.

Segundo Liliane, seis fisioterapeutas, três terapeutas ocupacionais, quatro fonoaudiólogas, duas assistentes sociais e uma psicóloga atuam na reabilitação de pacientes. “Cada um dentro da sua área complementa o atendimento da criança. É um trabalho integrado. A gente vê a criança como um todo, a questão social, emocional, motora, independência e qualidade de vida".

Mas, Liliane ressalta que o envolvimento da família é fundamental na reabilitação da criança. “Não adianta a família vir aqui uma vez por semana e não dar continuidade nenhuma na moradia. Não existe reabilitação sem frequência, sem estimulação precoce. Quando mais cedo começar melhor para o paciente”, enfatiza.

O atendimento no CRPI é de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas.

Odolontologia
Na área odontológica, o atendimento é preventivo e de tratamento.

Educação
A Escola de Educação Infantil Especial e Fundamental Steffi Leonore Ashi do CRPI, que recebeu o nome da fundadora da instituição, atende atualmente 42 alunos, mas já manteve 120 crianças. Liliane explica: “a diminuição é uma vitória, a gente prioriza todos que podem estudar na rede regular. Nós seguimos a nossa missão que é a inclusão social”.

“Nós temos um projeto voltado para os 250 pacientes que estão na Escola para Todos. Uma equipe vai à escola para fazer essas adaptações para que se efetive essa inclusão.
Aqui, os alunos não são agrupados nas salas de aula por idade, mas pela semelhança das deficiências. O nosso olhar é sempre de valorização da pessoa com deficiência. Existem as limitações, mas a gente ressalta sempre as aptidões. Elas estão aqui para desenvolverem essas aptidões, sempre com o envolvimento da família”.

O CRPI prioriza o atendimento a crianças que moram em Guarujá, mas também recebe moradores de outras cidades, desde que não faltem. A escola funciona das 8 às 12h e das 13 às 17h. Tem o Ensino Fundamental (primeiro ao quinto ano), o Especial, e o Infantil.

De acordo com Liliane, as crianças também são acompanhadas por monitoras que dão alimentação e trocam as fraldas, fazem três refeições diárias — dois lanches e um almoço — e têm direito ao transporte escolar, gratuitamente.

“O ônibus é para as crianças da escola, não da reabilitação. As crianças da reabilitação têm o passe livre”, explica Liliane.

Às terças-feiras, às 8 horas, as crianças têm aulas de balé, com a bailarina Eliana Marques, que é voluntária há 20 anos. “É um trabalho com expressão e música, é muito legal”, diz Liliane.

Assistência Social
“Fizemos um projeto focado no fortalecimento de vínculos. A criança, muitas vezes, está inserida numa família com muitas dificuldades, problemas de alcoolismo, dependência química, violência doméstica, desemprego, subemprego, moradia precária. Então, nós trabalhamos com tudo. Esse projeto é focado nas mães jovens, de 16 a 21 anos. Ser mãe jovem já é difícil, e de uma criança especial é muito mais complicado, porque ela esquece a balada, sai da escola, o namorado vai embora, muitas vezes, e a auto-estima dela vai lá embaixo”, explica Liliane.

“É um trabalho de formiguinhas com muitos avanços e muitos retrocessos. Ainda existe muita necessidade de um envolvimento maior dessas famílias, mas a gente não desiste. O serviço social e a psicologia trabalham diretamente com a família”, complementa.