‘Tinha escravos e não era pobre’: historiador revela a verdadeira face de Tiradentes

O perfil histórico do personagem mineiro ainda levanta dúvidas e questionamentos recorrentes

Uma das perguntas mais frequentes é: ele tinha escravos? De acordo com o professor, a resposta é sim/Wikicommons

Nesta terça-feira (21), todo o território brasileiro celebra o Dia de Tiradentes. Como o próprio nome indica, a data homenageia Joaquim José da Silva Xavier, um dos principais nomes da Inconfidência Mineira e símbolo da luta pela independência do Brasil.

No entanto, o perfil histórico do personagem mineiro ainda levanta dúvidas e questionamentos recorrentes. Para esclarecer o tema, o Diário do Litoral ouviu o historiador Cesar Agenor.

Uma das perguntas mais frequentes é: ele tinha escravos? De acordo com o professor, a resposta é sim. “Ele tinha escravos, sim. Não era alguém com um grande plantel de escravizados, mas também não era pobre ou humilde”, explicou.

Somado a isso, o trabalho do historiador Luciano Figueiredo, disponível no site Impressões Rebeldes, segue na mesma linha. Em seus estudos, ele aponta que, na fazenda onde Tiradentes vivia com a família, havia cerca de 35 pessoas escravizadas, trabalhando inclusive na extração de ouro.

Outro ponto interessante é que, em sua casa, havia diversos utensílios de prata, estanho e cobre. Além disso, também possuía ferramentas de ferro para mineração e animais de criação.

Inconfidência Mineira

Em resumo, a Inconfidência Mineira foi uma tentativa de revolta em 1789, em Minas Gerais, contra os altos impostos de Portugal. Inspirado por ideias de liberdade, o movimento pretendia separar a região de Minas Gerais e parte do Espírito Santo — que garantiria uma saída para o mar — do domínio português, mas acabou sendo descoberto antes de ser colocado em prática.

Cesar Agenor comenta que a ideia de um movimento nacional de separação foi construída posteriormente. “Era preciso criar símbolos republicanos, então escolheram Joaquim José da Silva Xavier. Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto eram bastante impopulares.”

Feriado e morte

Mas por que a data se tornou feriado? Segundo Cesar, durante a Primeira República, surgiu a necessidade de criar um herói nacional. Joaquim José da Silva Xavier já aparecia em poemas e pinturas que destacavam sua participação na história do Brasil.

De acordo com o historiador, a escolha teve um caráter mais simbólico do que propriamente factual: “E, quando você analisa os fatos, Tiradentes é um homem do século XVIII, cheio de suas incongruências e contradições.”

A morte de Joaquim José da Silva Xavier ocorreu em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, após sua condenação por participação na Inconfidência Mineira. A Coroa portuguesa o condenou à execução por enforcamento. Após a morte, seu corpo foi esquartejado e partes foram expostas em locais públicos de Minas Gerais.

Cesar também explica que Tiradentes tinha uma patente mais baixa em relação a outros integrantes do movimento, que possuíam mais poder e influência. “Por que foi punido Tiradentes? Porque ele tinha menos ‘costas quentes’. Havia pessoas ali com mais proteção, inclusive membros importantes do clero”, finalizou.