Política
Em entrevista exclusiva ao Diário, prefeito projeta ciclo de entregas, defende protagonismo logístico e aposta na reconstrução da autoestima do município
Prefeito de Cubatão, César Nascimento, fala sobre o legado que pretende deixar para a cidade / Júlia Macêdo/DL
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Cubatão completa 77 anos de emancipação político-administrativa, nesta quinta-feira (9), em um momento de transição e reposicionamento.
Após décadas marcada pela força industrial e pelos desafios ambientais, a cidade tenta consolidar uma nova fase, com foco em planejamento, qualidade de vida e protagonismo regional.
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Em entrevista exclusiva ao Diário do Litoral, o prefeito César Nascimento comenta a programação de aniversário, faz um balanço de sua gestão e projeta o futuro do município.
Entre os principais pontos, ele destaca a expectativa de um “ano de entregas”, defende maior participação de Cubatão na cadeia logística do Porto de Santos e reforça a importância histórica da cidade para o desenvolvimento do país — ideia sintetizada na frase que dá título a esta entrevista.
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Diário do Litoral: É um grande dia para a cidade. O que foi preparado para celebrar?
César Nascimento - É um mês especial para nós, cubatenses. O mês se iniciou no dia 1º com o ato cívico, mas teremos eventos culturais, esportivos e educacionais ao longo de abril. Será um mês de grandes eventos para a nossa população.
Em especial no dia 9, com a Simone Mendes; depois, nos dias 10, 11 e 12, terão shows de bandas da nossa cidade para que possamos comemorar junto com a nossa população tão sofrida, nossos trabalhadores e trabalhadoras que fazem acontecer.
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Segundo o prefeito, festas como o aniversário de 77 anos só são possíveis graças aos avanços da cidade (Júlia Macêdo/DL)DL: Você diria que este é um momento simbólico da sua gestão para rever tudo o que tem sido apresentado e o que vem pela frente?
César - Nós sabemos que temos muito a fazer. Nosso projeto de cidade está no meio ainda, falta muito, mas é um momento especial para mim. É o segundo ano de governo em que estamos entrando agora. O ano em que, de fato, faremos a gestão do nosso orçamento e da nossa peça orçamentária.
Logicamente, isso culmina com algumas ações e alguns entraves do Governo Federal, mas é um ano significativo porque é um ano de entrega. Quando falamos de um governo de continuidade, o prefeito Ademário fez bastante, com muitas obras em andamento, e hoje temos o privilégio de estar entregando.
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Este ano entregaremos duas novas escolas, duas novas delegacias e uma companhia de polícia. Será um ano de muitas entregas, um ano muito especial para todo cubatense.
DL: A prefeitura tem trabalhado muito para mostrar que Cubatão não é o "patinho feio" da Baixada Santista. Como isso já mudou na prática e no cotidiano da população? Você acha que as ações do seu governo trouxeram essa identidade e autoestima?
César - Este é o grande desafio do futuro, porque você muda a forma de fazer política com um projeto de cidade, não com um projeto de poder. Trazer de volta a sensação de pertencimento e esse amor à cidade é um trabalho de longa data, porque você muda as pessoas culturalmente.
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Durante décadas, nossa cidade foi vista como cidade-dormitório ou apenas cidade industrial — diziam que lá só tinha indústria, que não tinha pessoas, mas tem pessoas.
Estamos trabalhando há cerca de oito anos nesse projeto de cidade. De que forma? Trazendo grandes shows, valorizando cartões-postais e mostrando as riquezas naturais que Cubatão possui.
Eu costumo dizer que Cubatão não é uma cidade industrial; Cubatão é uma cidade que tem indústria, mas também tem um povo trabalhador, riquezas nos nossos manguezais maravilhosos e uma beleza natural exuberante.
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Nosso grande papel hoje é mostrar que, nesses 77 anos, temos que passar um papel importante para os nossos jovens sobre o desenvolvimento que Cubatão trouxe ao país. O progresso do Brasil passou por dentro de Cubatão.
DL: O senhor mencionou em outras entrevistas que a programação cultural só é possível graças aos avanços que a cidade fez nos últimos anos. O que precisou ser feito para arrumar a casa e hoje ser possível proporcionar shows desse tamanho?
César - Primeiro, enxugar a máquina pública. O governo passado, do prefeito Ademário, fez isso muito bem. Ele arrumou as finanças do município e hoje mantemos esse planejamento.
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Antes, não conseguíamos dividir o orçamento para que cada pasta fizesse a gestão do seu recurso; era totalmente desorganizado, tudo ia para um lado só. Hoje temos planejamento e cada pasta tem seu recurso para trabalhar o ano todo, sem esquecer os pilares fundamentais de qualquer cidade: educação, saúde e cultura.
Com esse planejamento, temos condições de prospectar o futuro. No ano passado, iniciamos uma ata de manutenção da cidade (calçadas e ruas) com um contrato pequeno. Este ano daremos mais robustez a esse contrato, investindo em torno de R$ 50 milhões para a manutenção das calçadas e ruas da nossa cidade.
DL: Cubatão é estratégica para o Porto de Santos. Economicamente falando, como o senhor pretende fazer a cidade crescer nos próximos anos pensando como esse ponto de apoio ao Porto?
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César - Discutimos muito isso. Cubatão precisa ser olhada sob outro ponto de vista. Nossa cidade já apoia muito o Porto; hoje, os pátios reguladores de Cubatão regulam 12 mil caminhões por dia.
Não queremos que a riqueza apenas passe por aqui e o ônus fique para a cidade. Estamos conversando com o Governo do Estado e com a Autoridade Portuária. Temos o Canal de Piaçaguera, que dá acesso aos terminais da VLI e da Usiminas.
Ali, temos quase oito milhões de metros quadrados de área que podem ser usados economicamente para o Porto. O que dizemos ao Pomini é: não nos vejam apenas como área de serviço, mas como um lugar estratégico para a solução portuária.
O gargalo do Porto de Santos tem no Canal de Piaçaguera uma área enorme com potencial econômico. Estamos atraindo novos investimentos e tentando reinventar a cidade, inclusive na construção civil.
Cubatão tem poucos prédios acima de dez andares e agora estamos começando a verticalizar. Estamos dando incentivo fiscal para novos empreendimentos; já temos projetos de torres na Vila Nova e, logo mais, duas no Casqueiro, para manter a classe média na cidade com toda a infraestrutura necessária.
Cubatão está entre as 51 cidades brasileiras na lista global de 'Cidades Árvore do Mundo 2025' (Divulgação/PMC)DL: O prefeito fala muito sobre o quanto a Terceira Via da Imigrantes e o pátio logístico na Ilha do Tatu irão impactar a vida do cubatense. Chegou a apresentar o Corredor "Porto-Indústria" como solução. Como estão as tratativas com o Governo Federal e o Estado para estes projetos?
César - Mais uma vez me coloco totalmente contrário a qualquer tipo de pátio de contêineres na Ilha do Tatu. Primeiro, porque falamos de um espaço com uma beleza natural imensa e vida nos manguezais. Segundo, porque está cravado no meio de dois grandes bairros, a Ilha Caraguatá e o Casqueiro.
Seria impossível os caminhões acessarem esse pátio sem passar por dentro do Casqueiro. Geograficamente, os cubatenses já ficam "presos" muitas vezes, sem conseguir chegar a consultas médicas em Santos ou ao polo industrial por causa do trânsito.
O que levamos ao Governo é esse clamor do cidadão. A terceira pista da Imigrantes já está saturada. Se transformarmos plantas industriais em pátios logísticos, Cubatão vai parar. Por isso sugerimos o corredor Porto-Indústria, ligando esses pátios diretamente ao Porto. Só assim teremos mobilidade, mais turistas na Baixada e o direito de ir e vir do cidadão respeitado.
DL: Essas ações também esbarram na questão ambiental. A cidade foi eleita novamente como "Cidade Verde". Fale um pouco sobre esse trabalho de recuperação do meio ambiente na cidade.
César - Esse reconhecimento foi feito a várias mãos; não é mérito apenas do nosso governo, mas de gestões anteriores e, principalmente, do cidadão cubatense que acreditou. Nada acontece sem o tripé: sociedade civil organizada, poder público e empresários. Todas as indústrias que vêm para a cidade hoje precisam ter essa preocupação ambiental.
Não podemos retroceder. Em contrapartida, trabalhamos forte na base com a educação ambiental das crianças. Temos bairros afastados onde a coleta é diária, mas o acesso é difícil; por isso, faremos uma parceria entre o Fundo Social de Solidariedade e a Secretaria de Meio Ambiente para criar núcleos de troca de reciclados por alimentos e outros produtos.
DL: Há algo que o incomoda na cidade? Algo que precise de atenção máxima da Prefeitura?
César - Sim, a zeladoria. Eu moro na Vila Nova e me indigna passar e ver a situação, porque a zeladoria é tudo. A cidade passou muito tempo sem essa preocupação. Iniciamos reparos em vários núcleos, mas não se faz tudo de uma vez. Este ano investiremos R$ 50 milhões para iniciar o reparo de calçadas e ruas.
Sei que a população reclama muito disso e eu convivo com essa angústia diariamente. Não adianta fazer grandes entregas se a pessoa abre o portão e pisa em um buraco.
Temos entraves burocráticos também; por exemplo, estamos licitando um contrato para plantar três mil árvores por ano, pois muitas árvores atuais não são adequadas para a área urbana, estouram calçadas e invadem o esgoto. Mas para substituir uma árvore exótica, precisamos de laudos e autorizações ambientais, o que torna o processo moroso.
DL: O senhor consegue vislumbrar Cubatão quando ela celebrar 80 anos?
César - Acredito que não teremos mais áreas de risco em Cubatão, nem pessoas morando em palafitas. Teremos pessoas morando com dignidade, sem crianças brincando no esgoto. Esse é o meu objetivo de trabalho.
DL: Qual legado o senhor gostaria de deixar para a população de Cubatão?
César - Meu maior sonho é deixar a sensação de que todos amem a nossa cidade como eu amo. Você não destrói aquilo que você ama. O maior legado é o cubatense sentir que mora na melhor cidade da Baixada Santista e em uma cidade que é cravada na história do país.
Esta entrevista também está disponível em nosso canal do YouTube. Confira na íntegra: