Brasil vai às urnas nas eleições mais polarizadas da história

Primeiro turno do pleito ocorre hoje sob polarização jamais vista na trajetória republicana nacional

Lula e Bolsonaro dividiram as paixões e rancores dos brasileiros neste primeiro turno

Lula e Bolsonaro dividiram as paixões e rancores dos brasileiros neste primeiro turno | Nair Bueno/Diário do Litoral

O Brasil já teve eleições extremamente polarizadas. Porém, a escolha para presidente neste 2 de outubro parece não ter paralelo na trajetória republicana nacional, com discussões acaloradas – e não raras vezes violentas – pelas redes sociais e pelas praças públicas. De um lado, está a centro-esquerda de coalização de Luiz Inácio Lula da Silva (PT); do outro, o conservadorismo com discurso nacionalista de Jair Bolsonaro. Os outros postulantes ao cargo nunca chegaram a pontuar dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto.

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O atual presidente Jair Bolsonaro parece buscar a reeleição em um ambiente menos favorável do que viveu em 2018, quando chegou à frente sob uma onda de antipolítica e antiesquerda, mesmo estando em um partido então nanico, o PSL.

Hoje, o mandatário está desgastado por sua condução política durante a pandemia, pelo afastamento de antigos aliados e por apostar constantemente num discurso de enfrentamento. Contudo, ainda mantém uma base de apoio gigante, fiel e apaixonada, que garante a ele em todas as pesquisas pelo menos 30% das intenções de voto.

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Jair BolsonaroBolsonaro é saudado pelos apoiadores/Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Já Lula se vale de sua popularidade aprofundada durante seus dois mandatos como presidente, entre 2003 e 2010. Joga contra si as sucessivas denúncias de corrupção contra o PT durante suas gestões, a crise econômica e social iniciada durante o governo de sua sucessora, Dilma Rousseff  (PT), e por ter sido preso entre abril de 2018 e novembro de 2019, sob decisão do então juiz Sergio Moro pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os processos foram anulados.

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Nenhum desses poréns, entretanto, foi suficiente para tirar a força de ambos nas pesquisas eleitorais.

“Um é ex-presidente e o outro é presidente. É natural que tenham um destaque significativo. Na história da reeleição dos presidentes nenhum não foi reeleito – e isso pode acontecer agora”, explica o professor Aldo Fornazieri, cientista político e coordenador da pós-graduação em Estratégia e Liderança Política da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), em entrevista ao Diário.

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Segundo o especialista, Bolsonaro representa uma ponta ideológica de extrema direita com forte discurso moralista, e se elegeu com o mote da anticorrupção. “Mas esse discurso perdeu força na medida em que seu governo foi atingido por denúncias. Na reta final, ainda houve a questão dos imóveis da sua família”, explica, para mostrar por que o mandatário se enfraqueceu em busca da reeleição.

Para o professor, as denúncias contra Bolsonaro fizeram as acusações contra Lula perderem a força na visão do eleitor, além do fato de o petista ter tido os processos contra si anulados por instâncias da Justiça.

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“Lula saiu muito bem avaliado da Presidência da República, então há ainda uma memória boa do seu governo. Porém, teve todo o problema da corrupção. O que beneficiou Lula? O fato dos processos terem sido anulados. Assim, esse jogo do embate da corrupção fica zero a zero entre os dois [na avaliação dos eleitores]”.

Lula durante ato políticoLula durante ato político/Facebook/Reprodução

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O professor da FESPSP também analisa que os outros dois candidatos mais bem avaliados pelas pesquisas eleitorais – Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) – não decolaram por motivos diferentes. “Ciro Gomes escolheu uma estratégia errada”, sentencia, sobre o candidato que resolveu bater mais em Lula do que em Bolsonaro para tentar atrair também um público à direita. “Com isso, a aposta do Ciro de ter uma votação mais significativa foi frustrada”, completa.

No caso de Tebet, ele entende que a chamada terceira via demorou para entrar em cena, mas que o cenário pode ser bom para a emedebista em eleições seguintes. “Ela entrou no jogo sabendo que a eleição estava polarizada, mas se colocou bem, trouxe um frescor à campanha. A aposta dela é muito mais voltada para o futuro do que para esta eleição”.

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Contudo, diz o professor, nenhum dos dois pode ser considerado irrelevante nestas eleições. “A votação que eles tiverem pode favorecer a eleição no primeiro ou no segundo turno”, explica.

O primeiro turno das eleições 2022  ocorre neste domingo, 2 de outubro, em todo o País. Em São Paulo as zonas eleitorais estarão abertas das 8h às 17h. Cinco cargos estão em disputa: deputado federal, deputado estadual, senador, governador e presidente da República.

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Rumo ao Palácio dos Bandeirantes

As eleições ao Governo de São Paulo estão, de acordo com todos os institutos de pesquisa, entre Fernando Haddad (PT), Tarcísio de Freitas (Republicanos ) e o atual governador Rodrigo Garcia (PSDB). Nenhum outro candidato superou o 1% das intenções eleitorais de acordo com a última pesquisa Datafolha, divulgada na última quinta-feira (29). 

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A possibilidade de segundo turno mais provável é entre Haddad e Tarcísio, que marcaram 41% e 31%  no levantamento revelado nesta semana. Depois, bem atrás mas ainda com chances consideráveis, está Garcia, com 22% na pesquisa. 

Caso o tucano não consiga ser reeleito para o Palácio dos Bandeirantes, seria a primeira vez que o PSDB deixaria de ganhar uma disputa no Estado desde o início da década de 1990.

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Outros cargos

Além do presidente e dos 27 governadores, o Brasil também vai escolher neste pleito eleitoral 513 deputados federais, um novo senador por estado e, no caso de São Paulo, 94 deputados estaduais para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp).

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Vista externa do prédio da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp)Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp)/Alesp/Divulgação

As bancadas na Câmara dos Deputados são definidas proporcionalmente, conforme o número de eleitores de cada estado ou do Distrito Federal, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Neste sentido, cada deputado representa uma quantidade determinada de eleitores. 

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Por essa conta, o estado de São Paulo é o que mais terá número de representantes na Câmara dos Deputados: 70 dos 513 deputados serão paulistas, enquanto, por exemplo, os representantes do Acre somarão 8 parlamentares na Casa.

Os senadores, que têm mandato de oito anos, vão se unir aos outros dois que representam cada estado e que foram escolhidos nas eleições de 2018. Os atuais senadores por São Paulo são Mara Gabrilli (PSDB) e Giordano (MDB), que era suplente e tomou posse após a morte do titular, Major Olimpio (PSL, que se tornou União Brasil), em 2021.

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Cada unidade federativa também vai renovar as respectivas assembleias legislativas. No caso paulista, a Alesp terá a escolha de 94 novos deputados estaduais, que vão ajudar a definir o futuro do estado mais rico da nação pelos próximos quatro anos.

A polarização de 1989

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As eleições gerais de 1989, as primeiras para presidente desde a redemocratização do Brasil, também foram marcadas por alta polarização, acusações mútuas e uso desenfreado de fake news, ou de “lorota”, como se dizia à época, em bom português.

Os detratores  de Lula espalharam, por exemplo, que apoiadores do Partido dos Trabalhadores sequestraram o empresário Abílio Diniz – o que foi provado pouco depois do pleito que era mentira.

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Collor e Lula em debate em 1989, sob mediação do jornalista Boris CasoyDebate eleitoral em 1989/ Vidal Cavalcante/Folhapress. Cromo

Além disso, a edição do  último debate eleitoral do segundo turno pelo Jornal Nacional causou polêmica, por um pretenso favorecimento a Fernando Collor, que venceria as eleições. Artistas da própria emissora foram à porta da TV Globo fazer uma manifestação contra a edição do debate promovida pelo telejornal.

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A Globo assumiu a culpa no episódio, mas só mais de uma década depois. “Foi um gol contra da emissora”, admitiu Armando Nogueira, diretor de jornalismo do canal de TV à época.