Bolsonaristas culpam covid-19 e guerra por crise no país, mas números já eram ruins antes disso

Dados relativos à renda média do brasileiro também mostram esse empobrecimento. O rendimento médio caiu de R$ 2.823 no início de 2019 para R$ 2.613 no trimestre de março a maio deste ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)

Tomaz Silva/Agência Brasil

O Brasil ficou mais pobre durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), e não apenas por causa da Covid ou da Guerra da Ucrânia. Quando assumiu, em um cenário de economia ainda fragilizada pela recessão dos anos Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB), o presidente fez escolhas.

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Reduziu investimentos públicos, avançou pouco na agenda de reformas e travou o Bolsa Família, deixando a fila do programa crescer. Com a crise social se agravando a três meses da eleição, presidente e aliados encampam uma PEC para distribuir R$ 41,2 bilhões em auxílios. Para tirar da frente a Lei Eleitoral, que só permite algo assim em ambiente de exceção, o pacote inclui que Bolsonaro assine um decreto para colocar o Brasil em um estado de emergência que não existe.

O PIB (Produto Interno Bruto) per capita, indicador que mostra a produção da riqueza dividida pelo número de habitantes, fechou o ano passado em US$ 7.500 (R$ 41 mil). São cerca de US$ 5.726 (R$ 31 mil) menos que o pico, registrado em 2011. O valor atual equivale ao patamar de 2007. Em 2018, último ano do governo Temer, o indicador estava em US$ 9.151,40 (R$ 49 mil).

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Dados relativos à renda média do brasileiro também mostram esse empobrecimento. O rendimento médio caiu de R$ 2.823 no início de 2019 para R$ 2.613 no trimestre de março a maio deste ano, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Mesmo antes da pandemia, esse valor já vinha caindo: no trimestre de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, o rendimento médio do brasileiro estava em R$ 2.816.

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Em 2019, o programa Bolsa Família sofreu a maior queda da história, recuando de 14 milhões para 13 milhões de famílias. A fila de espera superou 1,5 milhão.

“Houve negligência em relação à situação social do país ainda antes da Covid”, afirma economista Débora Freire, professora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

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“Crises econômicas acontecem, trazem impactos negativos, mas faz muita diferença a forma como se lidam com elas. O governo agora usa esses eventos como desculpa, mas a verdade é que era seu dever fazer políticas públicas mais eficientes”, afirma ela.

“Eu atribuo os problemas de hoje ao modelo de política econômica, que não prevê estímulos para a recuperação e deixou de lado a áreas social. Antes da Covid, o Bolsa Família tinha filas enormes. Famílias que empobreceram na crise, já elegíveis para o programa, não estavam sendo atendidas. Isso não poderia ter acontecido, porque uma vez que uma família cai na extrema pobreza ela pode levar gerações para se recuperar.”

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O economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV-Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), acredita que a gênese do empobrecimento está na incapacidade dos governos de ajustar as contas públicas, o que elevaria a confiança das empresas privadas para elevarem os investimentos, a geração de empregos e o aumento da renda.

Ou seja, fazer a roda do crescimento ganhar impulso virtuoso.

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“A minha visão é que o processo de empobrecimento gradual que vivemos decorre de um problema fiscal ainda não solucionado, e caminhamos para mais uma década perdida ainda sem um desfecho para esse problema”, afirma ele.

“Entre 2015 e 2016, a gente teve uma crise nas contas públicas, provocada pelo aumento de gastos do governo Dilma Rousseff (PT), que buscava a reeleição, ali saímos do superávit para déficit primário.”

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No segundo mandato da petista, o país enfrentou oficialmente uma recessão, segundo o Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos).

Os desembolsos da Assistência Social, sem contar o BPC (Benefício de Prestação Continuada), mas incluindo Bolsa Família e o sucessor Auxílio Brasil, estagnaram na casa de R$ 43 bilhões de 2015 até 2019, às vésperas da pandemia.

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Deram um salto apenas depois da liberação do Auxílio Emergencial, que era para ser de R$ 200, mas chegou a R$ 600 após uma queda de braço entre governo e Congresso, que insistiu no aumento do valor.

Esses dados constam de um levantamento realizado pelos pesquisadores Carlos Bastos e Julia Braga do Grupo de Economia do Setor Público da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A dupla está finalizando um estudo sobre os efeitos do teto de gastos, desde a sua criação, sobre a aplicação do Orçamento. A conclusão é que ele funciona.

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“O teto foi muito bem-sucedido em segurar os aumentos, mas fica claro também que as despesas com menos apoio político ou interesse do comando da vez são mais sacrificadas”, afirma Bastos. “Como a gente previu, os gastos sociais foram espremidos.”

Os recursos destinados a iniciativas que servem de apoio à ampliação do bem-estar social, em áreas como trabalho, saneamento, habitação, lazer e cultura, despencaram. Caíram de R$ 111,6 bilhões em 2015, um ano antes da criação do teto, para R$ 73,4 bilhões no ano passado, queda de 34% em valores ajustados pela inflação.

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A PEC das eleições, por sua vez, vai na contramão da solução, diz Barbosa, da FGV. “Não há dúvida que está focada em aspectos eleitorais, porque não há programa de combate a pobreza estrutural em fazer transferências e dando incentivos por três meses.”

A economista Sandra Brandão, que mantém levantamentos sobre gastos sociais desde o tempo em que atuava como chefe de gabinete de informações da ex-presidente Dilma Rousseff, destaca a forte retração dos recursos em uma outra área, a rede de apoio aos benefícios assistenciais.

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Caiu praticamente à metade na gestão Bolsonaro, e recebeu R$ 2 bilhões no ano passado.

A rede Suas (Sistema Nacional de Informação do Sistema Único de Assistência Social), que cuidava das políticas de apoio aos beneficiários dos programas, como o Cadastro Único no antigo Bolsa Família, foi praticamente desmontada e transferida para um sistema operacional virtual da Caixa.

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“É claro que o governo precisa ser digital, mas muita gente não tem acesso à internet ou dificuldade para lidar com ela”, diz Brandão. “Não tenho dúvidas de que as filas com pessoas tentando se cadastrar para receber o benefício, agora chamado Auxílio Brasil, tem relação com o desmonte do cadastro, piorando a situação da população mais vulnerável.”

Uma dessas pessoas é Beatriz Cristina dos Santos Silva, 22, é mãe solo de Maitê, de cinco meses. Nunca teve emprego com carteira assinada, mas conta que chegou a ganhar em média R$ 3.600 como gerente comercial.

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Desde maio, três vezes por semana, ela enfrenta uma viagem de duas horas de Mairiporã (SP), onde mora, carregando a cesta de doces e a filha no colo, para vender brigadeiros e brownies próximo a um shopping na zona leste da capital paulista. Esse é seu único sustento.

Tentou ser cuidadora em um hospital, mas a filha ficou doente sob os cuidados de outra pessoa. “Percebi que estava muito cedo para deixá-la, então comecei a ver vídeos na internet e aprendi a fazer os doces com uma confeiteira”, diz.

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Ela conquistou clientes, mas conta que as vendas caíram nas últimas quatro semanas. “Foram péssimas. Saio de casa com 10 a 12 caixinhas. Nem sempre vendo tudo, mas, normalmente, o lucro líquido em um bom mês é de R$ 1.400, e de R$ 1.000 em um ruim.”

Sua preocupação agora é conseguir um novo lugar para morar. “O aluguel está em dia, mas de repente fui informada de que teria que desocupar a casa. Me senti muito mal”, afirma.

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Ela conta que o único benefício social que recebeu até hoje foram três parcelas de R$ 600 do Auxílio Emergencial. “Tentei atualizar o CadÚnico para pegar o Auxílio Brasil, mas estão pedindo um documento que não tenho.” Como não é contribuinte do INSS, também não recebeu o auxílio-maternidade.

Procurado para comentar sobre a dificuldade de Silva para atualizar o CadÚnico, o Ministério da Cidadania não se manifestou até a conclusão desta matéria.

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64% DOS BRASILEIROS DECLARAM SOFRER RESTRIÇÕES ORÇAMENTÁRIAS APÓS A PANDEMIA; MÉDIA GLOBAL É 46%

O empobrecimento do brasileiro nos últimos anos aparece em diferentes dados, mas um indicador de consumo traz uma nova faceta dessa situação, a piora no sentimento de perda no poder de compra em escala internacional.

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Levantamento realizada em 100 países pela Nielsen Media Research, uma empresa global de pesquisa de mercado consumidor, mostra que 64% dos brasileiros declaram ter passado a viver restrições orçamentárias após a pandemia. O número está bem acima da amostra geral, em que 46% disseram ter passado a sofrer limitações financeiras.

“Há uma combinação de dois fatores que podem explicar isso”, diz o espanhol Roberto Butragueno, diretor de varejo de Nielsen. “O Brasil foi um dos países que mais sofreu os efeitos da pandemia, quando se olha o contágio e o número de mortos, e também onde os preços de produtos básicos mais aumentaram.”

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A Nielsen tem acesso a pontos de venda, como supermercados e farmácias, em escala global, e cruzou os dados. A cesta básica de consumo subiu 30% no Brasil entre 2019 e 2021. “É uma variação bem mais alta do IPCA, o índice oficial de inflação, e não há nada assim na Europa ou nos Estados Unidos”, diz.

No México, por exemplo, variação ficou na casa de 20%, nos Estados Unidos, 10%.

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A pesquisa também retrata como os brasileiros tentam contornar essa realidade mais dura alterando hábitos. No quesito carne, por exemplo, há aumenta na busca por cortes congelados, que custam 25% menos em média que a versão in natura. Um dos produtos mais procurados na proteína bovina passou a ser o fígado, cujo quilo custa 50% menos em relação ao preço médio da categoria.

Há um efeito desânimo. Um terço diz que não tem vontade de sair para gastar. Quase metade, 46%, reduziu as refeições na rua, e 21% concentraram as compras em alimentos.

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Eduardo Yamashita, diretor de Operações da Gouvêa Ecosystem, outra consultoria especializada em consumo e varejo, não visualiza mudança radical nesse cenário no segundo semestre. A razão é simples, falta dinheiro persiste, mesmo com a melhora no mercado de trabalho.

No trimestre até maio deste ano, a taxa de desemprego recuou para 9,8%, o menor nível para o intervalo desde 2015, mas a renda cai 7,2% no ano.

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“Durante o auge da Covid, tivemos uma forte injeção de recursos públicos na economia, com a impressão de dinheiro em muitos países, o que levou a um expressivo aumento da massa salarial —ou seja, cresceu a quantidade de dinheiro disponível durante boa parte de 2020, e um pouco menos em 2021”,afirma.

“Quando o auxílio emergencial foi cortado no Brasil, a quantidade de dinheiro estava voltando ao pré-pandemia, mas aí veio a inflação.”

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Configurou-se em 2022, define Yamashita, um clássico cenário de crise, com chances de arrefecimento em 2023, se a inflação ceder. E o pacote de benefícios aprovados no Congresso com apoio do governo não altera o seu cenário.

“Os auxílios que estão vindo são tímidos em comparação aos oferecidos no ápice da pandemia, a quantidade de pessoas que vai receber é menor, porque há restrições, o volume de dinheiro é inferior, e a inflação é bem maior”, diz Yamashita. “Obviamente vai se positivo e ajudar, mas não vamos ter o efeito que vimos antes, como alta nas vendas de eletroeletrônicos, boom de reformas e aumento até no consumo de proteínas.”

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A associação de queda da renda, alta de inflação e, consequentemente dos juros, para segurar os preços, vai freando a economia e ampliando o efeito empobrecimento. Veja o caso do empresário Pedro Bressane. Ele fechou uma de suas pizzarias em abril deste ano depois de tentar mantê-la com o lucro das outras duas unidades.

Segundo ele, a demanda por pizza explodiu em 2020, mas os clientes sumiram no final do ano passado. Para Bressane, a queda na renda das famílias e do aumento nos preços dos alimentos foram decisivos.

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“Estava em uma região boa de Osasco, classe média alta. Contratei influencers, investi R$ 4.000 em anúncios no Instagram, mas as vendas pararam, e os insumos só subiram”, diz Bressane.

“Eu pagava cerca de R$ 35 na caixa de tomate. Quando fechei, estava R$ 200 a caixa”, afirma. Na tentativa de manter a loja, o empresário fez ajustes em gastos pessoais e vendeu um carro. Já o hábito diário de jantar fora com a esposa se tornou quase mensal.

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Ele contratou quatro corretores de imóveis para passar o ponto, mas, em cinco meses, não apareceu nenhum interessado. “Para não entrar em dívida, fechei.”

Colaboraram Havolene Valinhos e Ana Paula Branco