O que está por trás das falhas de comunicação que provocou a suspensão de voos para São Paulo

Uma queda de frequência no APP São Paulo interrompeu a comunicação com pilotos e gerou atrasos reflexos nos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Rio de Janeiro

Atualmente, 14 terminais operam sem radares no Brasil por critérios de fluxo do Decea, regra que voltou ao centro do debate após a pane nesta terça-feira/Divulgação

Os voos em direção a São Paulo foram temporariamente suspensos na manhã desta terça-feira (2) após uma queda de frequência no centro de aproximação do espaço aéreo. O apagão na comunicação afetou a chegada de aviões nos principais aeroportos paulistas, incluindo o de Guarulhos, o maior do país.

De acordo com relatos de passageiros, o comandante de uma das aeronaves informou que a comunicação entre a torre de controle de São Paulo e os aviões que já estavam em rota apresentou falhas graves.

O problema gerou um efeito cascata em outros estados. No Aeroporto de Brasília, pelo menos duas aeronaves com destino a São Paulo ficaram retidas na pista devido à pane de rádio. No Rio de Janeiro, outros dois voos sofreram atrasos significativos.

Embora a situação já tenha sido controlada e as operações normalizadas, fica a pergunta, sobre como desencadeia esses eventos de falhas.

O que causou a falha na frequência de rádio?

O estopim do problema foi o fato de o sistema de frequências de rádio do APP São Paulo (Controle de Aproximação) estar operando sem o suporte dos radares no momento da instabilidade.

Embora voar sem radares não seja impossível, a ausência dessa ferramenta reduz drasticamente a segurança e a capacidade tecnológica do setor, criando o cenário perfeito para a ocorrência desse erro operacional.

Como funciona o controle do espaço aéreo?

Para entender o caso, é preciso saber que o APP São Paulo funciona como uma espécie de elo intermediário entre duas etapas cruciais do controle aéreo.

De um lado estão as torres de controle locais, instaladas em cada aeroporto. Elas são responsáveis por monitorar tudo o que pode ser visto a olho nu nas pistas e pátios, coordenando exclusivamente os momentos exatos de partida, pouso e aterrissagem das aeronaves. Quando o avião ganha altitude e se afasta, ele passa a ser de responsabilidade do APP.

Controle do tráfego aéreo no Brasil

O controle dos 22 milhões de quilômetros quadrados do espaço aéreo brasileiro é realizado pelo Decea, órgão ligado à Força Aérea Brasileira, por meio dos controladores de tráfego aéreo. Ao contrário do que se imagina, esses profissionais não trabalham apenas nas torres dos aeroportos, responsáveis por monitorar pousos, decolagens e o movimento visível no solo.

Muitos deles atuam nas 40 terminais de controle de aproximação espalhadas pelo país, orientando os aviões em procedimentos de subida ou descida a uma altura entre 1,6 mil e 6 mil metros. Como não enxergam as aeronaves, os controladores dependem de radares ou, na ausência deles, dos relatos de posição feitos via rádio pelos próprios pilotos.

Atualmente, 14 dessas terminais operam sem radar por não atingirem a métrica de fluxo exigida pelo Decea, que varia entre 45 mil e 60 mil pousos e decolagens anuais. Essa regra baseada no volume de tráfego, no entanto, é criticada pelos profissionais da área, que a classificam como uma métrica falha e insegura.