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Microplásticos estão contaminando os peixes e praias do Litoral de SP; saiba por quê

O artigo foi publicado na última sexta-feira (7)

Igor de Paiva

Publicado em 10/06/2024 às 08:00

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O comportamento de se alimentar de partículas plásticas é conhecido como / Pexels

Precisamos cuidar das nossas praias. Essa é a resposta que um estudo divulgou após encontrar uma grande quantidade de  microplástico em peixes e praias de Ubatuba, litoral norte de São Paulo. De acordo com os pesquisadores, o dado registrado garante uma contaminação de alta prevalência.

Nas três praias analisadas, todas tinham contaminantes acima do considerado normal (300 partículas por metro cúbico, ou m3).
Já os peixes, cerca de 38% (46 dos 120 indivíduos coletados) tinham contaminantes. Isso evidencia como as populações ribeirinhas e os banhistas que visitam essas praias estão expostos às substâncias.

O achado foi publicado nesta sexta-feira (7) no periódico científico Neotropical Ichthyology, e é fruto da pesquisa de iniciação científica de Esteban Nogueira, sob orientação de George Mattox, ictiólogo do laboratório de ictiologia, campus de Sorocaba, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos).

Conta, ainda, com pesquisadores dos departamentos de Ciências Ambientais e de Geografia, Turismo e Humanidades, também da Ufscar, e do setor de Zoologia do Instituto de Biociências da Unesp (Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita") de Botucatu.

O estudo analisou amostras de água e de areia das três localidades Barra Seca, Perequê-"Brava" e Perequê-"Calma" (as duas parte de Perequê-Açu), no verão e inverno de 2021.
Em cada um dos locais e em cada período foram coletados 20 peixes da espécie peixe-rei (Atherinella brasiliensis), uma espécie comum e conhecida por ficar na zona de quebra-maré das praias.

"O peixe-rei é bastante comum em toda a zona de arrebentação das praias de Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião, e ele se alimenta de tudo um pouco. Por isso, o Esteban pensou em usar ele como objeto de estudo, pois seria mais fácil mapear a quantidade de microplástico encontrado em vários indivíduos de uma só espécie", diz Mattox.

As amostras foram analisadas em laboratório para avaliar a presença das partículas plásticas (definidas como de tamanho igual ou menor de 1 mm) nos sedimentos, na água e nos animais. Também foram divididas quanto à cor: azuis (fibras de redes e outros materiais), vermelhos e brancos (polímeros plásticos) e transparentes.

Nas praias de Barra Seca (490 partículas por m3), a maior quantidade de microplástico foi detectada no verão. Já em Perquê-Açú, na porção da praia conhecida como brava, foi detectado um total de 300 partículas por m3 também no verão. A praia de Perequê-"Calma" registrou uma maior concentração de partículas no inverno.

Segundo Mattox, a hipótese inicial da pesquisa era que o verão seria o período do ano com maior concentração de microplásticos em todas as praias amostradas, por ter maior concentração de turistas, mas como o estudo foi conduzido durante o período de quarentena imposto pela pandemia da Covid, isso pode ter influenciado as amostras.

Em geral, os microplásticos azuis foram os mais encontrados no trato gastrointestinal dos animais por serem facilmente confundidos na coluna d’água com alimento, e cerca de 98% eram fibras —indicando que a presença desse material, usado principalmente nas redes, afeta o próprio pescado.

O comportamento de se alimentar de partículas plásticas é conhecido como "armadilha evolutiva", explica Mattox, pois, frente à escassez de alimentos, o peixe-rei ingere substâncias potencialmente tóxicas a ele.

"Ele acha que está comendo a comida dele quando, na verdade, está ingerindo outra coisa que não é nutritiva e, pelo contrário, é prejudicial. É como as tartarugas marinhas se alimentando de sacolas plásticas achando que são águas-vivas", diz o pesquisador.

Não é possível, contudo, saber com precisão a origem de todos os plásticos encontrados, porque muitos podem ser levados à praia pelos rios, e análises químicas mais específicas são necessárias para determinar a composição dos polímeros.

Um dado importante levantado pelo estudo, porém, é que o aumento da temperatura da água, um fenômeno cada vez mais intenso e frequente devido à crise climática, acelera a absorção de toxinas nos microplásticos.

"Dependendo da temperatura, algumas toxinas acabam aderindo a esse plástico e tornando ele mais tóxico do que ele já é, algo ainda mais relevante do ponto de vista de risco à saúde da ingestão desses animais", pondera.

Além do plástico, as praias do litoral norte paulista, assim como grande parte da costa brasileira, já sofrem com outras pressões ambientais, como o avanço do nível do mar e a sobrepesca. Inclusive, a região foi largamente afetada nos últimos anos por eventos climáticos, como as chuvas intensas que provocaram inundações e deslizamentos de terra em parte de Ubatuba e São Sebastião.

"Esses fenômenos ambientais estão todos intrinsecamente ligados. Os animais, devido à sobrepesca, não conseguem encontrar alimento em seu local de habitação e vão buscar em outros lugares, e às vezes acabam não achando os alimentos mais saudáveis. É aparentemente o caso do peixe-rei", completa.

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