Roger Waters e Noam Chomsky alertam para risco de golpe no Brasil

Documento afirma que Bolsonaro cria condições para desacreditar as eleições e prepara seus apoiadores até para golpe em caso de derrota

Bolsonaro

Bolsonaro | Divulgação

Personalidades como o músico Roger Waters, o ator Danny Glover, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e o filósofo Noam Chomsky estão entre os mais de cem signatários de um manifesto que reivindica a criação de “um poderoso movimento de solidariedade internacional” em defesa da democracia no Brasil.

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O documento afirma que o presidente Jair Bolsonaro (PL) cria condições para desacreditar o processo eleitoral e prepara seus apoiadores para a violência política e até para uma insurreição em caso de derrota no pleito deste ano.

“Nenhum golpe de Estado jamais foi tão anunciado”, alerta o manifesto. “A democracia no Brasil hoje precisa do apoio e da vigilância do mundo. Que a Constituição e o sufrágio popular sejam respeitados é nossa responsabilidade comum”, diz ainda.

Articulado pelo Washington Brazil Office (WBO), think tank brasileiro e apartidário sediado na capital dos Estados Unidos, o texto será lido em um evento na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo no dia 22 deste mês.

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Na ocasião, haverá uma cerimônia em memória aos 45 anos do episódio que ficou conhecido como a invasão da PUC. A ofensiva, ocorrida em 1977 sob a ditadura militar (1964-1985), resultou na prisão de centenas de estudantes.

Intitulado “A solidariedade internacional não é uma palavra vazia”, o documento ainda pede que as Forças Armadas não interfiram no processo eleitoral e que as ameaças e violências contra candidatos e seus apoiadores sejam condenadas. Na PUC, sua leitura será feita pelo historiador americano e presidente do conselho de diretores do WBO, James Green.

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“A solidez da democracia brasileira e o respeito ao Estado de Direito, aos direitos humanos, ao meio ambiente, aos direitos dos povos indígenas e de outros grupos marginalizados são questões que dizem respeito a todos e, como tal, são objeto de nossa legítima atenção e solidariedade”, afirma o texto. “Não podemos permanecer meros espectadores.”

A presidente da entidade argentina Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, o filósofo Michael Lowy e o ex-vice-presidente da Espanha Pablo Iglesias também endossam a iniciativa, que receberá novas adesões.
Além do WBO, participaram de sua idealização a US Network for Democracy in Brazil, a Common Action Forum, a Rede Europeia pela Democracia no Brasil e o Coletivo Passarinho.

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Leia a íntegra do manifesto:

“A solidariedade internacional não é uma palavra vazia

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Convocação por eleições livres e respeito pelos resultados das urnas no Brasil

Em poucas semanas, o Brasil terá sua nona eleição presidencial desde o fim da ditadura militar e, pela primeira vez desde 1988, há um grande risco de que o sufrágio popular não seja ouvido e respeitado.

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Há vários anos, o presidente Jair Bolsonaro planeja contestar sua eventual derrota ao desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Ele acusa os juízes dos tribunais superiores de serem corruptos e partidários, prevê que os votos serão adulterados, suspeita que a mídia esteja a serviço do campo adversário. Inspirado na estratégia de Donald Trump, o presidente brasileiro mobiliza seus apoiadores apresentando-se como vítima, perseguido por um establishment vendido à esquerda, e como único salvador e redentor da nação. Ele demoniza seus adversários e os designa como inimigos. Ao fazê-lo, prepara seus militantes, muitos deles armados, para a violência política e até para a insurreição.

Essa deriva não surpreende em um personagem abertamente nostálgico à ditadura militar e cheio de desprezo pelas instituições republicanas, pelo pluralismo político e pelo Estado de Direito. Mas hoje é como Chefe do Executivo e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas que ele pronuncia essas diatribes extremistas, enquanto quatro anos no poder radicalizaram sua base militante. Nenhum golpe de estado jamais foi tão anunciado.

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A democracia no Brasil hoje precisa do apoio e da vigilância do mundo. Que a constituição e o sufrágio popular sejam respeitados é nossa responsabilidade comum.

O destino de um país de dimensões continentais, com uma população superior a 212 milhões de habitantes, um património ambiental de importância crucial para o futuro do planeta e um papel preponderante na economia e governação mundial, é uma questão cujas consequências vão muito além as fronteiras do Brasil.

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A solidez da democracia brasileira e o respeito ao Estado de Direito, aos direitos humanos, ao meio ambiente, aos direitos dos povos indígenas e de outros grupos marginalizados são questões que dizem respeito a todos e, como tal, são objeto de nossa legítima atenção e solidariedade. A democracia deste imenso país é nosso bem comum e não podemos permanecer meros espectadores.

Chegou a hora de gestar um poderoso movimento de solidariedade internacional em defesa do processo democrático no Brasil.

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É por isso que nós, intelectuais, políticos, artistas, ativistas, cidadãos e cidadãs, chamamos a exigir:
Que as eleições presidenciais no Brasil ocorram nos termos da Constituição;

Que todas as ameaças e violências contra os candidatos e seus apoiadores sejam condenadas e combatidas;
Que as instituições republicanas sejam mantidas em suas atribuições e suas decisões respeitadas;

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Que as forças armadas não interfiram no processo eleitoral, na apuração dos resultados ou na transmissão do poder.

A democracia é um bem precioso e frágil, do qual todos somos fiadores. Neste ano em que o Brasil comemora o bicentenário de sua independência, seu desafio histórico continua sendo o de defender um país democrático, plural e inclusivo. A democracia brasileira também é nossa e a solidariedade internacional não deve ser uma palavra vazia.”