A prefeitura de Urupês, no interior paulista, anunciou a distribuição gratuita do medicamento para obesidade conhecido comercialmente como Mounjaro na rede pública.
Após repercussão, a gestão municipal esclareceu que o produto oferecido não é o original da indústria farmacêutica, mas uma versão manipulada da substância tirzepatida.
O anúncio inicial utilizava o nome comercial do medicamento, mas foi alterado depois de críticas da farmacêutica Eli Lilly, detentora da patente. Nos comunicados mais recentes, a prefeitura passou a citar apenas o princípio ativo.
Segundo a administração municipal, a tirzepatida começou a ser distribuída na rede pública na última terça-feira (3). A iniciativa transforma a cidade na primeira do estado a oferecer o tratamento por meio do Sistema Único de Saúde.
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Questionamentos sobre segurança
Especialistas demonstraram preocupação com a distribuição em larga escala de versões manipuladas do medicamento.
De acordo com o endocrinologista Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a entidade se opõe ao uso de tirzepatida manipulada em programas públicos por possíveis riscos à segurança dos pacientes.
Isso ocorre porque medicamentos manipulados não passam pelo mesmo processo rigoroso de avaliação que produtos industrializados aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
Segundo Dornelas, a tirzepatida é uma molécula complexa e sensível a fatores ambientais, o que exige controles rigorosos durante a fabricação. “Ainda que a farmácia diga que o medicamento é seguro, sempre há risco de impurezas na fórmula”, explica.
Farmacêutica pede suspensão
Em nota, a Eli Lilly informou que solicitou ao prefeito de Urupês a interrupção imediata da distribuição do medicamento. A empresa afirma que o produto distribuído pelo município não foi revisado nem aprovado pela Anvisa.
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Para a farmacêutica, o programa também estaria fora do escopo permitido para manipulação de medicamentos no país.
O que diz a prefeitura
Procurada pela reportagem, a prefeitura afirmou que o medicamento é produzido por empresa farmacêutica autorizada pela Anvisa e possui certificados de regularidade técnica, além de laudos de fabricação e análises físico-químicas e microbiológicas.
Segundo a gestão municipal, cada dose é manipulada individualmente, mediante prescrição médica específica e acompanhamento de um endocrinologista. A prefeitura também afirma que não haverá estoque do medicamento.
Quem pode receber o medicamento
O programa municipal estabelece critérios para acesso ao tratamento. Entre eles estão:
- Estar em situação de vulnerabilidade social;
- Ter 40 anos ou mais;
- Possuir Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m² com pelo menos duas comorbidades;
- Ou IMC igual ou superior a 35 kg/m² com ao menos uma comorbidade.
Debate sobre medicamentos manipulados
A manipulação de tirzepatida não é considerada ilegal no Brasil, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária determina que medicamentos manipulados não devem substituir produtos industrializados já aprovados no mercado.
Segundo Nelson Mussolini, do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos, medicamentos originais passam por anos de estudos clínicos, auditorias e inspeções internacionais antes de chegar ao mercado.
Já farmácias de manipulação têm maior liberdade para importar matérias-primas, o que pode reduzir garantias de pureza e segurança.
O alerta não é exclusivo do Brasil. A Food and Drug Administration também aponta riscos na manipulação inadequada desse tipo de medicamento, que pode resultar em contaminação, dosagem incorreta do princípio ativo e, em casos extremos, danos graves à saúde dos pacientes.
