Novo título do Tesouro, RendA+ compensa no longo prazo, mas é pouco flexível; entenda

Entre os pontos favoráveis do título, estão a simplicidade de aquisição e o menor custo

Por outro lado, o produto foi considerado pouco flexível, já que não permite ao investidor definir beneficiários

Por outro lado, o produto foi considerado pouco flexível, já que não permite ao investidor definir beneficiários | Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A partir de 30 de janeiro, o Tesouro Nacional vai disponibilizar um título público voltado a investidores que querem poupar recursos extras para a aposentadoria. Na avaliação de especialistas consultados pela Folha, o novo produto possui vantagens e desvantagens, mas o balanço tende a ser mais positivo do que negativo.

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Entre os pontos favoráveis do título, batizado de RendA+, estão a simplicidade de aquisição e o menor custo em relação a investimentos de propósito semelhante -como os planos de previdência privada.

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Por outro lado, o produto foi considerado pouco flexível, já que não permite ao investidor definir beneficiários no caso de morte ou escolher como prefere receber a renda após a acumulação.

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Lançado no final de dezembro, o Tesouro RendA+ será atrelado à inflação mais uma taxa de juros real -atualmente na casa dos 6%, de acordo com o simulador.

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A ideia é que o investidor acumule valores ao longo dos anos para recebê-los no futuro como um benefício mensal.

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Interessados poderão agendar compras mensais de novos títulos -o que seria equivalente a novos aportes-, com possibilidade de pagamento via Pix. O valor mínimo para começar a investir será de aproximadamente R$ 30 e as aquisições estarão disponíveis a partir do dia 30 de janeiro na plataforma Tesouro Direto.

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Inicialmente, serão oferecidas oito opções de data de conversão, isto é, o momento em que o investidor começa a receber sua renda acumulada: 2030, 2035, 2040, 2045, 2050, 2055, 2060 e 2065.

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A principal diferença desta modalidade para outros títulos do Tesouro está na forma de resgate. Em vez de receber todo o valor acumulado de uma vez, o investidor passará a receber uma renda mensal em 240 parcelas -ou seja, ao longo de 20 anos.

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Esse é um ponto que incomodou especialistas. Para Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira) e da DSOP Educação Financeira, a definição do prazo de resgate é um “gesso desnecessário”.

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“Os 20 anos tiram um pouco a característica da previdência contínua. Acho isso muito ruim, porque desconsidera a possibilidade de uma vida mais longeva. Tinha que ser flexível”, diz.

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É o que também pensa Rodrigo Correa, estrategista de investimentos da corretora BRA BS. Segundo ele, planos de previdência privada -que seriam a modalidade mais semelhante ao RendA+- oferecem outros prazos para o investidor, inclusive a opção de renda vitalícia.

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“Aquele [dinheiro] extra que a pessoa começou a receber com 60 anos, por exemplo, vai terminar aos 80”, afirma, ressaltando que isso pode ser um problema diante do aumento da expectativa de vida dos brasileiros.

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Flávio Humberto Pretti, planejador financeiro pela Planejar (Associação Brasileira de Planejamento Financeiro), concorda com a crítica, e diz que dificilmente abriria mão de um produto com renda vitalícia na hora de assessorar um cliente.

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Simplicidade e custo são vantagens do RendA+ De acordo com o Tesouro, o público-alvo do novo título são trabalhadores com renda entre três e cinco salários mínimos, principalmente os autônomos. O potencial estimado é de 3 milhões de pessoas aplicando na nova modalidade.

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Uma das apostas do governo para popularizar o RendA+ é a simplificação do processo. Os interessados poderão investir sem necessidade de intermediários, basta fazer o cadastro simplificado no Portal do Investidor.

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A possibilidade de pagamento via Pix e o valor mínimo de R$ 30 também são considerados atrativos para a democratização do título.

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Tais facilidades agradaram Domingos, da Abefin. “A previdência [privada] tem muita burocracia”, diz. “O RendA+ é um produto que pode e deve se consolidar. Com a facilidade de acessar e fazer simulações, eu acredito que venha a suplantar uma necessidade que os brasileiros têm: de agilidade”, afirma.

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Mas o maior atrativo na avaliação dos especialistas é o custo. Como o objetivo do Tesouro é incentivar a poupança para a aposentadoria, as taxas cobradas serão mais vantajosas.

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Quem esperar para receber toda a renda no prazo estipulado não pagará a taxa de custódia cobrada pela B3, desde que o rendimento mensal seja de até seis salários mínimos (hoje R$ 7.272). A partir desse valor, a taxa é de 0,1% sobre o excedente.

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Quem decidir pela venda antecipada terá taxas decrescentes. De zero a dez anos de permanência, o percentual é de 0,5% sobre o valor de resgate. De 10 a 20 anos, a taxa cai a 0,2%. Acima de 20 anos até o limite do vencimento, o percentual fica em 0,1%.

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Marcia Dessen, planejadora financeira certificada (CFP, na sigla em inglês), considera isso uma vantagem clara em relação a produtos similares.

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Segundo ela, um plano de previdência, principalmente para pequenos valores, custa caro. Algumas seguradoras cobram entre 1% e 2% de taxa de administração por ano, o que tem um peso relevante ao longo das décadas.

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“Grandes investidores até conseguem adquirir com 0,6%, 0,7% de taxa. Já o RendA+ é 0,1% ou nada [para quem levar o investimento até o final]”, afirma.

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Contudo, o custo de saída antes da data de vencimento pode ser um empecilho, como ressalta Michael Viriato, sócio fundador da Casa do Investidor e colunista da Folha. Segundo ele, poucas pessoas conseguem fazer um investimento e ficar dez anos sem mexer nele.

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No caso da RendA+, um cliente que precise retirar o valor após cinco anos, por exemplo, precisará pagar uma taxa de custódia de 0,5%, além do Imposto de Renda.

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Se isso pode ser uma desvantagem, a rentabilidade é vista como um ponto positivo por Viriato, principalmente no atual momento de juros altos. “O produto trava a taxa de juros por um período grande. Vai ser o título mais longo que um investidor brasileiro poderá comprar.”

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De acordo com o Tesouro, o RendA+ vai render a taxa contratada tanto no período de acumulação quanto no de conversão (20 anos).

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Beneficiários e tributação são pontos de atenção no RendA+ O novo título estará sujeito a tributação semelhante aos demais investimentos em renda fixa. Para resgates em até 180 dias, a alíquota é de 22,5%. Entre 181 e 360 dias, de 20%. De 361 a 720 dias, a taxa cai a 17,5%. Após 720 dias, 15%.

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Rodrigo Correa, da BRA BS, avalia que esse é um ponto negativo em relação aos planos de previdência. Na tabela regressiva, o IR pode chegar a 10% –cinco pontos percentuais a menos que o mínimo oferecido no RendA+.

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Já Dessen não vê nisso uma desvantagem. Ela argumenta que a taxa de administração dos planos previdenciários incide sobre todo o montante aplicado, ou seja sobre o capital mais os rendimentos. Como a taxa do novo título do Tesouro é mais barata, a planejadora acredita que o produto compensa no final.

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“A contrapartida é que o investidor vai pagar 5% a mais de Imposto de Renda, que não incide sobre o total [acumulado], mas apenas sobre os rendimentos”, diz. “O custo de investir é menor”, acrescenta.

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Outra questão é a sucessão patrimonial. Nos planos de previdência, o investidor pode definir beneficiários no caso de morte, enquanto no RendA+ a dinâmica é a mesma dos demais títulos do Tesouro.

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A conta do titular fica bloqueada e impossibilitada de novas movimentações até a conclusão do inventário. Durante esse período, os títulos seguem rendendo normalmente. Uma vez concluído o inventário, os títulos poderão ser resgatados ou transferidos aos novos titulares.

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Para Reinaldo Domingos, da Abefin, isso pode ser um problema, pois acaba entrando numa partilha igualitária que talvez não fosse a opção desejada pelo investidor.

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Apesar da ressalva, ele diz que o RendA+ vale a pena. “É um baita produto de renda passiva, desde que o investidor não concentre todos os recursos nele.”