Brasil
Portos de Santos e de São Sebastião concentram risco de ações na Justiça; impasse no modelo e atrasos ampliam incerteza no setor
Tecon Santos 10 é megaterminal de contêineres planejado para o Porto de Santos / Divulgação/APS
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Os principais projetos portuários de São Paulo passaram a concentrar o maior risco jurídico da agenda de concessões do governo federal — e já colocam em dúvida o cronograma de leilões previsto até 2026. A informação foi divulgado no jornal Folha de S. Paulo.
Uma lista de 12 ativos com alta probabilidade de judicialização foi elaborada pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) a pedido da Advocacia-Geral da União (AGU).
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No centro desse cenário está o Tecon Santos 10, megaterminal de contêineres planejado para o Porto de Santos, apontado por órgãos técnicos como o empreendimento mais sensível entre os que podem parar na Justiça.
Com previsão de operar em uma área de 622 mil metros quadrados na região do Saboó, o Tecon Santos 10 é considerado estratégico para ampliar a capacidade logística do maior porto da América Latina. Apesar disso, o empreendimento acumula incertezas.
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Em dezembro do ano passado, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) previa que o leilão aconteceria na primeira quinzena de março.
Atualmente, sem data definida para leilão, o projeto já passou por sucessivas revisões de cronograma — e, no mercado, cresce a percepção de que dificilmente sairá do papel em 2026. Atualmente, ele segue em análise no Tribunal de Contas da União (TCU).
Megaterminal do Porto de Santos deve ser instalado na área do Saboó (Reprodução/PPI)O principal ponto de tensão está no modelo de licitação. O Ministério de Portos e Aeroportos e a Antaq defendem uma disputa em duas etapas, que restringiria, na fase inicial, a participação de armadores e operadores já instalados em Santos. A justificativa é evitar concentração de mercado e estimular a entrada de novos players.
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A proposta, no entanto, enfrenta resistência dentro do próprio governo. A Casa Civil e o Tribunal de Contas da União (TCU) defendem um modelo com participação irrestrita desde o início. Para esses órgãos, limitar concorrentes pode reduzir a competitividade e abrir margem para contestações jurídicas — exatamente o risco que a AGU tenta mitigar.
O impasse regulatório ocorre em meio à pressão de grandes grupos internacionais interessados no ativo, o que eleva a disputa política e técnica em torno do projeto. Sem consenso, o edital segue indefinido, ampliando a insegurança para investidores.
O ambiente de incerteza já se reflete em outros leilões recentes. Em fevereiro, três terminais portuários foram ofertados com baixa concorrência, evidenciando a cautela do mercado diante de regras ainda instáveis. No caso do MCP01, no Porto de Santana (AP), houve apenas um lance simbólico, de R$ 2, após o certame quase ser suspenso por decisão judicial às vésperas da disputa. A liminar foi revertida, mas o episódio reforçou o risco de judicialização.
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Outro sinal de fragilidade foi a retirada do terminal TMP Recife da mesma rodada de leilões, após a própria autoridade portuária solicitar revisão de dados técnicos — movimento que expôs falhas na estruturação dos projetos.
Arrendamento SSB01, no Porto de São Sebastião, também aparece no radar da AGU como potencial alvo de disputas judiciais (Divulgação/GovernoSP)Em São Paulo, além de Santos, o arrendamento SSB01, no Porto de São Sebastião, também aparece no radar da AGU como potencial alvo de disputas judiciais. Embora menos complexo que o Tecon Santos 10, o projeto integra o mesmo pacote de concessões e está sujeito às mesmas incertezas regulatórias.
Com o arrendamento de um novo terminal previsto para este ano, o complexo portuário deve receber R$ 2,5 bilhões em aportes privados e ampliar em quase quatro vezes o volume atual de cargas.
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O cenário se agrava com atrasos em outras frentes logísticas. O governo já revisou o cronograma de concessões hidroviárias após resistência de comunidades indígenas na região amazônica, empurrando projetos previstos para 2024 para até 2027. O efeito combinado é um atraso generalizado na agenda de infraestrutura.
Com Santos e São Sebastião no centro das atenções, São Paulo se consolida como o principal foco de risco jurídico da carteira portuária federal. A combinação de divergências internas, pressão de mercado e precedentes judiciais recentes coloca em xeque não apenas prazos, mas a própria modelagem dos projetos — em um momento em que o governo busca destravar investimentos e ampliar a capacidade logística nacional.