Com a chegada das primeiras grandes chuvas do El Niño ao Brasil nos próximos dias, entenda o que é mito e o que é verdade sobre o fenômeno

Entre previsões de um "super El Niño" e alertas de cientistas, entenda o que já se sabe sobre o evento e o que ainda é especulação

Forte chuva castiga SP em uma tarde de outono e causa transtornos

Forte chuva castiga SP em uma tarde de outono e causa transtornos - Paulo Pinto / Agência Brasil

O El Niño de 2026 já é dado como certo pela NOAA, a agência climática dos Estados Unidos, e a sua grande primeira chuva já tem data para chegar ao Brasil. Declarado oficialmente em 11 de junho, o fenômeno tem 96% de chance de se manter ativo até o início de 2027. Mas, entre as manchetes sobre um “super El Niño”, uma dúvida persiste: o que é evidência científica e o que é exagero? A resposta importa porque os impactos variam conforme a intensidade do evento e a preparação de cada região depende disso.

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O que é o El Niño

O El Niño é um fenômeno natural que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes que o normal. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e muda os padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo. No Brasil, os efeitos são conhecidos e previsíveis: chuvas acima da média no Sul, seca no Norte e Nordeste, e ondas de calor mais frequentes no Sudeste e Centro-Oeste.

O termo “super El Niño”, no entanto, não é uma categoria científica oficial. Ele é usado informalmente por meteorologistas para descrever eventos extremamente intensos, quando a anomalia de temperatura ultrapassa +2°C na região Niño 3.4. Nos últimos 150 anos, isso aconteceu apenas quatro vezes: 1877, 1982, 1997 e 2015. O dado atual, de acordo com a NOAA, é de +1,7°C, patamar de El Niño forte, mas ainda abaixo do limiar para um “super”.

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Conforme mostrou o Diário do Litoral em maio, os dados de satélite do Copernicus Marine Service já indicavam anomalias expressivas no nível do mar na faixa Niño 3.4, a região mais observada pelos meteorologistas para medir a força do fenômeno. O calor acumulado abaixo da superfície do Pacífico levou especialistas a comparar o cenário com o de 1997, um dos El Niños mais intensos já registrados.

O que as previsões dizem para 2026

A NOAA estima 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho, e 96% de que o fenômeno se mantenha ativo até o verão de 2027. A intensidade máxima, porém, ainda é incerta. Modelos europeus projetam aquecimento acima de 3°C em algumas simulações, enquanto outros centros indicam um evento mais moderado.

Segundo nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e CENSIPAM, divulgada em abril de 2026, as condições oceânicas já evoluem para a fase positiva do ENOS, com anomalias subsuperficiais superiores a 4°C em trechos da costa oeste da América do Sul. O período crítico deve ocorrer entre setembro e dezembro, quando o fenômeno costuma ganhar força e influenciar mais diretamente o clima no Brasil.

Mito 1: “O El Niño é causado pelo aquecimento global”

Não. O El Niño é um fenômeno natural que existe há milhares de anos. O aquecimento global não o causa, mas pode amplificar seus efeitos. Como explica ao G1 a professora Maria Assunção Dias, do IAG-USP, oceanos e atmosfera já estão mais aquecidos pelas mudanças climáticas, o que significa que ondas de calor podem ser mais intensas, secas mais prolongadas e chuvas extremas mais severas, mesmo que a força do El Niño seja equivalente à de décadas atrás.

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Mito 2: “O Brasil inteiro vai sofrer com seca”

Não é bem assim. O El Niño produz efeitos opostos no país. Enquanto o Sul enfrenta chuvas muito acima da média, com risco de enchentes e deslizamentos, o Norte e o Nordeste tendem a registrar redução das chuvas e temperaturas mais altas. O Sudeste e o Centro-Oeste ficam no meio do caminho: ondas de calor mais frequentes combinadas com irregularidade nas precipitações. Não existe um cenário único para todo o território nacional.

Em fevereiro, o Diário do Litoral já alertava que a aproximação do El Niño mudaria a forma como as “águas de março” cairiam em São Paulo e no litoral. A matéria destacou que, mesmo antes da consolidação do fenômeno, o aquecimento precoce do Pacífico já poderia causar frentes frias mais lentas, bloqueios atmosféricos e mar agitado na costa paulista.

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Mito 3: “O pior já passou com o El Niño de 2023/2024”

O El Niño de 2023/2024 foi classificado como forte, mas não como “super”. Mesmo assim, o Brasil enfrentou a maior seca recente em extensão, com 4.748 municípios, mais de 80% do país, registrando algum grau de estiagem. Na Amazônia e no Pantanal, incêndios de grandes proporções devastaram áreas recordes. O Rio Grande do Sul viveu enchentes históricas. O ciclo de 2026 pode ser ainda mais intenso, e o intervalo mais curto entre eventos extremos acende o alerta entre cientistas.

O que já é realidade

A primeira chuva volumosa do El Niño de 2026 já tem data para chegar ao Sul do Brasil. Segundo a MetSul Meteorologia, os acumulados podem variar entre 100 mm e 200 mm em poucos dias no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com risco de temporais isolados, granizo e ventos fortes. O bloqueio atmosférico associado a uma massa de ar quente deve manter a instabilidade por dias seguidos sobre a região.

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Conforme noticiou o Diário do Litoral em 27 de junho, a configuração atmosférica deste evento é típica de fases quentes do Pacífico, com a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 já em +1,7°C. A MetSul Meteorologia reitera que a chuva vai aumentar muito no Sul do Brasil no segundo semestre, com tempestades frequentes, cheias de rios e enchentes, e o período mais crítico entre setembro e dezembro.

No Sudeste, a atenção se volta para as rodovias que ligam a capital ao litoral paulista, como Anchieta-Imigrantes, Tamoios e Mogi-Bertioga, onde temporais localizados podem ser intensos. No Norte e Nordeste, a preocupação é com o agravamento da estiagem e o risco de incêndios florestais, especialmente no Pantanal e em áreas de transição entre a Amazônia e o Cerrado.

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O que ainda é incerteza

A intensidade final do El Niño de 2026 só será conhecida nos próximos meses. O período entre março e maio é conhecido pelos meteorologistas como “barreira de previsibilidade”: os modelos climáticos tendem a ter desempenho inferior nessa época do ano. Além disso, para que um El Niño muito forte se confirme, não basta o oceano aquecer. A atmosfera também precisa responder a esse aquecimento, e esse acoplamento ainda está sendo monitorado.

Como se preparar

Com base em análises do CEMADEN, os padrões esperados seguem o comportamento histórico dos grandes El Niños. No Sul, a recomendação é de atenção máxima a enchentes e deslizamentos entre setembro e dezembro. No Norte e Nordeste, o foco deve ser o armazenamento de água e o combate preventivo a queimadas. No Sudeste e Centro-Oeste, a preparação para ondas de calor e baixa umidade do ar é prioridade.

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Segundo a plataforma AdaptaBrasil, dois em cada três municípios brasileiros têm baixa ou muito baixa capacidade adaptativa às mudanças climáticas. A diferença entre uma crise gerenciável e uma tragédia, como mostram os eventos de 2023/2024, está na preparação.

Fontes: pesquisadas: NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), INPE, INMET, Funceme, CENSIPAM, CEMADEN, MetSul Meteorologia, Greenpeace Brasil, Copernicus Marine Service, IAG-USP e Diário do Litoral.