Amazônia viveu dia com mais queimadas em agosto em duas décadas

Em 23 de agosto de 2002, foram registrados 3.548 focos de calor

De acordo com o documento, a Amazônia tem o risco de se transformar de floresta tropical em uma savana com o aumento da devastação

De acordo com o documento, a Amazônia tem o risco de se transformar de floresta tropical em uma savana com o aumento da devastação | Vinícius Mendonça/Ibama

Os 3.358 focos de queimada registrados na Amazônia no último dia 22 representam o maior valor para o mês de agosto desde 2002, apontam dados do programa Queimadas, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

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Em 23 de agosto de 2002, foram registrados 3.548 focos de calor. No dia 25 daquele mês, outras 3.300 queimadas foram capturadas pelo satélite do Inpe.

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Nenhum outro dia de agosto dos últimos 20 anos ultrapassou os 3.000 focos de calor. Os meses de agosto e setembro costumam ser os com maiores números de queimadas na Amazônia.

A análise da reportagem compara somente os valores correspondentes a agosto e parte de 2002. Foi nesse ano que entraram em operação novos e mais sensíveis sensores do Inpe para queimadas.

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O número de focos no último dia 22 é elevadíssimo, considerando as últimas duas décadas. Além dos três dias em que um dado tão expressivo foi registrado, outros poucos, em 2003, 2004 e 2005, aproximaram-se dos 3.000 focos em 24 horas.

Vale destacar que 2004 e 2005 foram anos recordistas de queimadas. O início do século 21 foi marcado por enormes desmatamentos na Amazônia. Considerando que desmate e queimadas são ações interligadas, é de se esperar que, em momentos de grande derrubada, haja também grandes focos de fogo.

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Em linhas gerais, após derrubar a mata, os desmatadores deixam a matéria orgânica no solo e, no período seco da Amazônia, ateiam fogo nesse material para “limpar” a área.

A maior floresta tropical do mundo vive um momento de intensa e crescente derrubada, situação acentuada com o início do governo Jair Bolsonaro (PL). No mesmo dia em que mais de 3.300 focos foram registrados, o atual presidente, em campanha, concedeu entrevista ao Jornal Nacional, da Rede

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Globo, na qual afirmou: “Acontece [fogo]. Grande parte disso aí…alguma parte disso aí é criminoso, sei disso. Outra parte não é criminoso. É o ribeirinho que toca fogo ali na sua pequena….”

Costumeiramente, nos períodos secos do país (a partir de junho), o uso de fogo fica proibido, exatamente para evitar incêndios sem controle.

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Em outros momentos de sua gestão, Bolsonaro minimizou as queimadas e desmatamentos no país, entrando em rota de colisão com o ex-diretor do Inpe e agora candidato a deputado federal, Ricardo Galvão. O presidente e candidato à reeleição, em outros momentos, culpou indígenas pelas queimadas.

Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, em 2020, Bolsonaro disse: “Os incêndios acontecem nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”. A afirmação não encontra respaldo na realidade.

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O número de queimadas registrado na última terça (22) chega a superar o que ficou conhecido como “dia do fogo”, no qual produtores rurais combinaram para um mesmo período queimas de pasto e áreas em processo de desmate. Nos dias 10, 11, 12, 13 e 14 de agosto de 2019 foram registrados, respectivamente, 1.173, 2.366, 1.314, 2.302 e 2.153 focos de queimadas.

Há quatro cidades do Amazonas (Apuí, Novo Aripuanã, Lábrea e Manicoré) e quatro do Pará (Novo Progresso, Altamira, São Félix do Xingu, Itaituba) na lista de municípios com mais queimadas na última terça.

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O dia 22 poderia ser só um ponto fora da curva, mas, desde a semana passada, têm sido registrados dias com elevados números de queimadas para o mês. No dia 17, foram mais 2.233 focos. Na quarta (24), foram 2.475.

Os dados dos últimos sete dias (18 a 24 de agosto) também mostram uma situação acima do normal para o mês: 13.459 queimadas nesse espaço de tempo. É o maior número de focos de incêndio, para uma única semana de agosto, dos últimos 12 anos -superando, inclusive, o período ao redor do “dia do fogo”.

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Na última década, um espaço de tempo de sete dias só teve números acima de 10 mil focos em 2019 e 2014. Em 2010, também houve o registro de um período de uma única semana com pouco mais de 14 mil focos.

O QUE EXPLICA TANTO FOGO?

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A pesquisadora Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), afirma que o tempo atual na Amazônia pode ser uma explicação para a concentração de queimadas.

Segundo ela, a estação chuvosa foi um pouco além do costumeiro e, consequentemente, o período de queima de áreas desmatadas teve início tardio.

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Ou seja, menos tempo e, consequentemente, necessidade de maior concentração de queimadas para “limpar” áreas derrubadas.

De fato, a média de focos diários de queimadas das primeiras duas semanas do atual mês de agosto é inferior às médias dos últimos três anos (desde o início do governo Bolsonaro).

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Porém, diz a especialista, se houve desmate, haverá fogo. Não queimar uma área derrubada significa perder dinheiro, basicamente.

“A não ser que as pessoas abandonam o ‘investimento’ que é derrubar uma área. Derrubar e não queimar é um prejuízo”, afirma Alencar.

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A situação do fogo para o mês como um todo, porém, só ficará clara nos próximos dias. Os valores totais para agosto, até o momento, não estão distantes do padrão visto sob Bolsonaro.