Em 1959, São Paulo viveu um dos episódios mais curiosos de sua história política: a cidade “elegeu” uma rinoceronte. Com cerca de 100 mil votos, Cacareco, uma fêmea de 230 kg, conquistou a atenção da população e se tornou a grande estrela das eleições municipais, deixando para trás todos os candidatos humanos.
O nascimento de Cacareco, em 1954, no zoológico do Rio de Janeiro, já tinha chamado atenção por se tratar do primeiro rinoceronte nascido no Brasil.
Alguns anos depois, quando o governador Jânio Quadros iniciou os planos para o Zoológico de São Paulo, a transferência do animal para a capital paulista se transformou em um evento que despertou a curiosidade do público. A rinoceronte rapidamente virou atração principal, cativando visitantes com sua presença imponente e tranquila.
A ideia de lançar Cacareco como candidata surgiu de maneira bem informal: durante uma conversa em um bar, o jornalista Itaboraí Martins, do jornal O Estado de São Paulo, sugeriu que a rinoceronte concorresse à vereança.
Era uma provocação bem-humorada, mas com um fundo sério: manifestar o descontentamento da população com a política local.
Embora os votos oficialmente tenham sido considerados nulos, estimativas de fiscais de urna indicaram que o nome de Cacareco apareceu em cerca de 95 a 100 mil cédulas.
Para efeito de comparação, o candidato humano mais votado, Manoel de Figueiredo Vaz, obteve apenas 10.214 votos.
O sucesso da rinoceronte foi tanto que, se fosse contabilizado oficialmente, Cacareco teria não só vencido, mas formado uma verdadeira bancada na Câmara Municipal.
Após o episódio, houve até uma tentativa do governo paulista de comprar o animal, mas o Zoológico do Rio de Janeiro recusou a proposta.
Cacareco retornou à sua cidade natal, onde viveu até 27 de novembro de 1962, deixando para trás uma história única de protesto, humor e crítica política.
