O avanço de tendências de bem-estar e terapias alternativas nas redes sociais trouxe à tona uma prática que tem preocupado autoridades médicas e pesquisadores em todo o mundo. Conhecido como ritual do kambô, ou “vacina do sapo”, o procedimento utiliza uma secreção extraída da pele da rã amazônica Phyllomedusa bicolor.
Embora defensores da medicina tradicional e de terapias alternativas promovam a substância como um poderoso agente de purificação capaz de combater a ansiedade, aliviar dores crônicas e renovar os níveis de energia do corpo, especialistas alertam que não existem evidências científicas que comprovem esses benefícios.
Ao mesmo tempo, relatos de complicações graves e mortes associadas ao uso do kambô têm aumentado a preocupação das autoridades de saúde.
Pelo menos seis pessoas morreram em diferentes países em casos associados à prática realizada sem controle rigoroso. Isso ocorreu segundo relatos divulgados pela imprensa internacional.
Um dos casos mais conhecidos envolve o britânico Kristian Trend, de 40 anos, que morreu após se submeter ao ritual. Desde então, familiares da vítima passaram a defender medidas mais rígidas para restringir a circulação da substância.

O que é o kambô e por que ele é chamado de “vacina do sapo”
O kambô é uma secreção retirada da pele da rã amazônica Phyllomedusa bicolor, utilizada há gerações por alguns povos indígenas da Amazônia em rituais de purificação física e espiritual. Tradicionalmente, a prática está associada à busca por força, resistência e ao afastamento da chamada “panema”. O termo costuma se referir a estados marcados por desânimo, azar ou baixa disposição.
Nos contextos indígenas, o ritual possui significado cultural e espiritual próprio. Nos últimos anos, porém, clínicas, terapeutas e praticantes passaram a divulgar e comercializar a substância nos centros urbanos como uma alternativa para promover bem-estar. Seus defensores também a indicam para o tratamento de diferentes problemas de saúde.
A medicina não reconhece o kambô como terapia eficaz para o tratamento de doenças específicas, apesar de sua popularização. Especialistas ressaltam que a substância contém compostos biologicamente ativos que podem provocar reações intensas no organismo e, por isso, seu uso exige cautela.
Como funciona a aplicação
A aplicação segue um procedimento específico. O processo começa com pequenas queimaduras superficiais na pele, normalmente nos braços ou nas pernas, seguidas da aplicação da secreção da rã, que é rapidamente absorvida pelo organismo.
Minutos após a aplicação, é comum o surgimento de sintomas como sudorese intensa, aceleração dos batimentos cardíacos, inchaço facial, náuseas e vômitos. Os praticantes costumam interpretar esses efeitos como um processo de “purga” ou limpeza do organismo.
Do ponto de vista científico, a secreção contém peptídeos bioativos e alcaloides capazes de atuar sobre o sistema nervoso e gastrointestinal. Entre os compostos identificados estão a dermorfina e a deltorfina, substâncias conhecidas por seus efeitos biológicos no organismo humano.
Embora existam relatos de usuários que afirmam sentir melhora no bem-estar após o ritual, não há evidências científicas robustas que comprovem a eficácia do kambô para tratar doenças físicas ou transtornos mentais.
Pesquisadores destacam que os estudos disponíveis ainda são limitados e insuficientes para validar alegações frequentemente divulgadas nas redes sociais. Entre essas alegações estão o combate à ansiedade, fortalecimento da imunidade, tratamento de doenças crônicas ou desintoxicação do organismo.
Para a comunidade científica, os efeitos observados logo após a aplicação estão relacionados principalmente à ação das substâncias presentes na secreção e à resposta do organismo ao envenenamento. Eles acreditam que esses efeitos não se devem necessariamente a um benefício terapêutico comprovado.
O biólogo e naturalista Richard Rasmussen explica em suas redes sociais como funciona o ritual. Acompanhe:
Casos internacionais acendem alerta
O aumento da popularidade do kambô fora dos contextos tradicionais tem levado autoridades sanitárias a acompanhar com atenção os relatos de complicações graves.
O caso de Kristian Trend, no Reino Unido, tornou-se um símbolo desse debate. Após sua morte, familiares iniciaram uma campanha para que o governo britânico adote medidas mais rígidas para restringir o acesso à substância.
Especialistas em toxicologia alertam que a facilidade de compra do kambô pela internet e a oferta de aplicações por pessoas sem formação na área da saúde aumentam significativamente os riscos para os participantes.
Especialistas alertam que a prática pode representar perigo significativo para determinados grupos. Pessoas com doenças cardíacas, histórico de acidente vascular cerebral (AVC), aneurismas, problemas renais ou hepáticos e usuários de medicamentos imunossupressores estão entre os grupos considerados de maior risco.
Além disso, complicações como taquicardia severa, desidratação, convulsões, insuficiência de órgãos e choque anafilático já foram relatadas em casos associados ao uso da substância. Em situações extremas, os efeitos podem ser fatais.
Médicos ressaltam que a reação provocada pelo kambô não deve ser interpretada como uma simples desintoxicação, mas como uma resposta fisiológica intensa que pode exigir atendimento de emergência.
O cenário de proibição e os limites da fiscalização
O tratamento legal dado ao kambô varia de país para país. Em alguns locais, a comercialização e a divulgação da substância enfrentam restrições severas devido aos riscos à saúde.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não reconhece o kambô como medicamento nem como tratamento autorizado para doenças. A utilização da substância permanece vinculada aos contextos tradicionais de povos indígenas, enquanto sua exploração comercial é alvo de restrições.
O principal desafio das autoridades está na fiscalização do comércio digital. A venda pela internet e a divulgação em grupos fechados de redes sociais dificultam o controle sobre quem compra, aplica ou participa dos rituais.
O avanço da prática para além dos territórios indígenas abriu um debate complexo entre o respeito aos conhecimentos tradicionais e a necessidade de proteger a saúde pública.
Enquanto comunidades indígenas defendem o valor cultural e ancestral do kambô em seus contextos originais, especialistas em saúde alertam para os riscos da banalização da substância. Eles também alertam para o uso sem acompanhamento adequado.
Diante da crescente popularização nas redes sociais, médicos e pesquisadores reforçam que qualquer alegação terapêutica relacionada ao kambô deve ser analisada com cautela. Eles também afirmam que a substância não deve substituir tratamentos médicos convencionais. O aumento de casos graves e mortes no exterior tem reforçado os alertas sobre os riscos de uma prática que, apesar de ancestral, continua cercada de controvérsias científicas e sanitárias.
