O plano absurdo de explodir o deserto do Saara com bombas nucleares para criar um lago artificial

Projeto de Friedrich Bassler previa 213 explosões nucleares na Depressão de Qattara para formar um lago artificial

Explosão nuclear simulada na Depressão de Qattara, no deserto egípcio - Imagem gerada com o auxílio de IA/Diário do Litoral

O engenheiro hidráulico alemão Friedrich Bassler liderou entre 1964 e 1973 um dos projetos mais ousados do século XX. Ele planejava inundar a Depressão de Qattara, no Saara egípcio, usando água do Mediterrâneo para criar um lago artificial do tamanho de El Salvador. A obra prometia gerar 5.800 megawatts de energia. Isso dobraria a capacidade da maior hidrelétrica do Egito.

O problema era o método escolhido. Bassler propôs detonar 213 bombas nucleares no deserto para abrir um canal de 55 quilômetros. Cada explosão teria 1,5 megaton de potência. Isso representa cem vezes mais força que a bomba jogada sobre Hiroshima em 1945.

A ideia não surgiu do nada. O geógrafo alemão Albrecht Penck já sugeria algo parecido em 1912. O britânico John Ball detalhou o conceito em 1927. Nos anos 1950, a CIA levou a proposta até a mesa do presidente Dwight Eisenhower. Ele recusou. Décadas depois, Bassler tentou retomar o sonho com ares de engenharia moderna.

Por que o deserto parecia ideal

A Depressão de Qattara fica a 133 metros abaixo do nível do mar. Ela está a apenas 55 quilômetros da costa do Mediterrâneo. Essa proximidade tornava o projeto tecnicamente possível. Um canal curto bastaria para levar a água salgada até o interior do deserto. O clima extremo da região lembra cenários que já foram noticiados por aqui, como a aproximação do Brasil com condições típicas do Saara.

Além disso, a água não precisaria de bombeamento. A gravidade faria o trabalho sozinho. O líquido escorreria naturalmente rumo ao interior árido. A região quente e seca do Saara faria a água evaporar sem parar. Isso manteria o fluxo contínuo e movimentaria turbinas geradoras de eletricidade.

O conceito ficou conhecido como “hidro-solar”. O calor do sol do deserto provocaria a evaporação e manteria o ciclo girando indefinidamente.

Como a bomba nuclear entrou na história

Bassler estudou testes americanos e soviéticos antes de bolar seu plano. Os Estados Unidos executaram 27 detonações no programa Plowshare. Os soviéticos realizaram 239 explosões no mesmo conceito de “usos pacíficos” para a energia atômica.

Em 1965, uma explosão soviética criou o Lago Chagan, no Cazaquistão. Ele permanece radioativo até hoje. Bassler analisou o teste americano Storax Sedan, de 1962. Aquela detonação abriu a maior cratera artificial dos Estados Unidos. Ele concluiu que a técnica funcionaria no Egito, desde que cerca de 25 mil pessoas fossem retiradas da região.

Por que o Egito disse não

O governo egípcio recusou a proposta de forma categórica. Detonar bombas atômicas num país com milhões de habitantes no Vale do Nilo parecia risco inaceitável. A radioatividade era apenas o primeiro problema da lista.

O Rifte do Mar Vermelho fica a cerca de 450 quilômetros do local. Essa zona é tectonicamente instável. As ondas de choque das explosões poderiam provocar efeitos sísmicos imprevisíveis. Além disso, o norte do Egito ainda guarda munições não detonadas da Segunda Guerra Mundial. A remoção delas seria necessária antes de qualquer obra.

A combinação de riscos radioativos, sísmicos e logísticos enterrou o plano nuclear no Saara.

O projeto que voltou sem bombas

O interesse pela Depressão de Qattara nunca sumiu de vez. Em abril de 2023, o Egito anunciou um novo contrato para estudar a viabilidade do lago artificial. Desta vez, não há menção a explosões nucleares no projeto.

As novas propostas apostam em energia solar fotovoltaica flutuante, energia eólica e dessalinização de água. Alguns pesquisadores sugerem usar água doce do Nilo em vez da água salgada do Mediterrâneo. O que antes dependia de um arsenal atômico hoje é debatido como um possível polo de energia renovável no meio do deserto.

A ideia de encher o Saara de água soa menos absurda quando se lembra que o deserto já foi verde. Entre 14 mil e 5 mil anos atrás, a região tinha rios, lagos e animais como girafas e hipopótamos. Ciclos climáticos naturais indicam que o Saara voltará a ser verde daqui a alguns milhares de anos.

O projeto de Qattara, no fundo, propunha apenas antecipar com engenharia o que a natureza um dia faria sozinha. A diferença é que a pressa humana daquela época vinha embalada por 213 bombas nucleares. Uma solução que o tempo se encarregou de aposentar.

*Fontes pesquisadas: Qattara Depression Project; Departamento de Energia dos Estados Unidos; Futility Closet; ScienceDirect.