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O monopólio do gelo: A ilha deserta que é a única 'dona' das Olimpíadas de Inverno

O esporte mais antigo e conhecido das Olimpíadas de inverno depende de um material que só pode ser encontrado em uma origem específica

Agência Diário

Publicado em 16/02/2026 às 12:01

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O curling costuma ser um dos esportes que "abrem" a atenção do público em Jogos de Inverno / Wikimedia Commons

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O esporte mais antigo e conhecido das Olimpíadas de inverno depende de uma origem específica: uma pequena ilha na Escócia, chamada Ailsa Craig. É deste lugar que saem os granitos mais cobiçados para a prática do Curling.

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Praticado em pistas de gelo, o curling é um esporte coletivo em que duas equipes alternam lançamentos de pedras em direção a um alvo circular. Vence quem somar mais pontos ao final das rodadas, de acordo com a posição das pedras no “alvo” (a casa).

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A estratégia pesa tanto quanto o braço: às vezes, o objetivo não é pontuar alto, e sim bloquear o adversário, abrir caminho, proteger uma área ou forçar um erro.

A imponente Ailsa Craig surge no horizonte como um gigante de granito no meio do mar da Escócia / Pixabay
A imponente Ailsa Craig surge no horizonte como um gigante de granito no meio do mar da Escócia / Pixabay
Conhecida como
Conhecida como "Paddy's Milestone", a ilha é um marco natural visível a quilômetros de distância / Pixabay
Isolada e praticamente intocada, a ilha abriga importantes colônias de aves marinhas / Pixabay
Isolada e praticamente intocada, a ilha abriga importantes colônias de aves marinhas / Pixabay
O granito raro extraído de Ailsa Craig é usado na fabricação das tradicionais pedras de curling / Pixabay
O granito raro extraído de Ailsa Craig é usado na fabricação das tradicionais pedras de curling / Pixabay
O granito da Ailsa Craig possui densidade uniforme e baixíssima absorção de água, características ideais para suportar o gelo intenso das partidas de curling / Pixabay
O granito da Ailsa Craig possui densidade uniforme e baixíssima absorção de água, características ideais para suportar o gelo intenso das partidas de curling / Pixabay
A combinação única de durabilidade e precisão do granito da ilha garante que as pedras deslizem com estabilidade e resistência ao longo dos anos / Pixabay
A combinação única de durabilidade e precisão do granito da ilha garante que as pedras deslizem com estabilidade e resistência ao longo dos anos / Pixabay

Por que o curling é chamado de “xadrez no gelo”?

Conhecido como “xadrez no gelo”, o apelido não é exagero. Cada pedra lançada muda o tabuleiro, e uma decisão tomada no início pode determinar o final da partida.

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É comum ver equipes jogando “defensivo”, empilhando pedras em posições que complicam o próximo lance, ou arriscando uma batida para expulsar a pedra rival e dominar o centro do alvo.

Esse jogo de leitura e precisão tem raízes antigas. Registros citados por órgãos oficiais do Reino Unido apontam que o curling tem história escrita que remonta a 1541, com a prática consolidada na Escócia, onde lagos congelados viraram as primeiras “quadras” do esporte.

Ailsa Craig, a ilha que virou matéria-prima olímpica

A ilha de Ailsa Craig entra como uma base importante para a prática desta modalidade olímpica. É lá que são fabricadas as famosas pedras de curling. Essas ‘pedras’ são formadas por rochas reais, polidas e ajustadas para deslizar de forma previsível no gelo.

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Localizada na foz do Firth of Clyde, a cerca de 16 quilômetros da costa do sudoeste escocês, o lugar é um maciço de granito que se impõe no horizonte como um “pão de açúcar” solitário.

Ela é pequena, com área terrestre próxima de 1 km² e hoje não tem moradores. Ainda assim, o lugar ganhou relevância global por um motivo improvável: o tipo de microgranito encontrado ali se tornou referência para produzir pedras de alta performance, especialmente no circuito competitivo e olímpico.

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O segredo está em dois tipos de granito

Quem já viu uma pedra de curling de perto talvez não imagine que ela seja, na prática, uma combinação de materiais. A tradição escocesa transformou Ailsa Craig em sinônimo de duas variedades: o “common green” e o “blue hone”.

Em linhas gerais, um costuma compor o corpo da pedra, enquanto o outro forma a superfície de contato que corre no gelo, onde o atrito precisa ser controlado com precisão.

A fabricante escocesa Kays Scotland, uma das referências históricas do setor, descreve que utiliza essas duas variedades de granito de Ailsa Craig para atingir o padrão exigido em competições, combinando características diferentes para chegar ao desempenho esperado.

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Medidas, peso e por que cada jogo usa 16 pedras

A pedra oficial de curling não é “qualquer pedra”. As regras internacionais definem limites claros: a circunferência máxima é de 914 milímetros e o peso, já com alça e parafuso, fica entre 17,24 kg e 19,96 kg.

Essa padronização é o que faz o esporte ser comparável entre países, arenas e Jogos.

Em uma partida, cada equipe joga com um conjunto de oito pedras. Somando as duas cores em jogo, são 16 pedras em uso por jogo, o que ajuda a explicar por que o equipamento não é barato e por que a logística de fabricação e manutenção é tão importante.

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Uma produção limitada que envolve tradição e preservação

A extração em Ailsa Craig não funciona como uma pedreira comum. A ilha é uma área reconhecida por sua importância ambiental, com colônias expressivas de aves marinhas.

Documentos oficiais de conservação na Escócia descrevem a região como um local de grande relevância para o atobá (Northern gannet) e para um conjunto de espécies que se reproduzem nos penhascos do arquipélago.

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É nesse cenário que entra a indústria: empresas especializadas trabalham com regras rígidas e janelas de exploração, justamente para equilibrar demanda e preservação.

Segundo a Associated Press, a Kays produz algo na faixa de 1.800 a 2.000 pedras por ano, e o mercado segue aquecido, com forte procura internacional.

Quanto custa uma pedra de curling

O preço varia conforme o padrão, a manutenção e o tipo de granito, mas não se trata de um item “popular”.

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Segundo valores citados pela imprensa, uma pedra pode custar centenas de euros, chegando a algo em torno de 840 euros por unidade. As estimativas foram divulgadas em reportagens sobre o tema.

Coloque isso em perspectiva: como um jogo usa 16 pedras, só o conjunto básico representa um investimento alto, antes mesmo de entrar na conta a manutenção técnica, o polimento e o ajuste da superfície de corrida, que também influenciam o desempenho no gelo.

Por que essa história faz sentido nas Olimpíadas

O curling costuma ser um dos esportes que “abrem” a atenção do público em Jogos de Inverno, porque entrega disputa tática, placares que mudam rápido e partidas que parecem mais simples do que realmente são.

E, no fundo, há um detalhe curioso: boa parte do espetáculo depende de um ponto específico do mapa, uma ilha isolada que virou sinônimo de qualidade.

Na prática, a Ailsa Craig mostra como um esporte pode ser global e, ao mesmo tempo, ter uma origem quase artesanal. Do gelo das arenas ao granito de uma ilha desabitada, o curling carrega uma cadeia inteira de história, geologia e tradição em cada deslize.

*Por Raphael Miras

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