A idade do tubarão foi calculada por meio de datação por radiocarbono aplicada ao cristalino dos olhos / Reprodução
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Em 1627, enquanto o mundo via o início da colonização das Américas e a ascensão de impérios no século XVII, um pequeno tubarão começava sua jornada nas profundezas geladas do Ártico. Hoje, quase 400 anos depois, esse mesmo animal foi identificado por cientistas, consolidando-se como o vertebrado mais longevo da Terra.
O tubarão da Groenlândia não é apenas um sobrevivente, mas também uma cápsula do tempo biológica que desafia tudo o que sabíamos sobre o envelhecimento e a resistência celular.
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A idade do tubarão foi calculada por meio de datação por radiocarbono aplicada ao cristalino dos olhos. Esse tecido ocular não se regenera ao longo da vida, o que permite estimar o tempo de existência a partir da quantidade de carbono presente na estrutura.
O estudo analisou 28 tubarões da Groenlândia capturados incidentalmente por pescadores e foi publicado na revista científica Science. O maior exemplar estudado, uma fêmea com mais de cinco metros de comprimento, apresentou idade estimada de aproximadamente 399 anos.
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O tubarão da Groenlândia (Somniosus microcephalus) vive em águas profundas e extremamente frias, o que influencia diretamente seu metabolismo.
A espécie possui um ritmo biológico muito lento. O animal nada a cerca de 34 centímetros por segundo, um comportamento que reduz o gasto energético e contribui para que seus processos fisiológicos ocorram de forma mais lenta.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que alguns indivíduos podem viver séculos.
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A espécie habita principalmente o Atlântico Norte e o alto Ártico, podendo viver em profundidades de até 2.200 metros. O ambiente remoto e de difícil acesso é uma das razões pelas quais ainda se sabe pouco sobre o animal.
Curiosamente, o primeiro registro em vídeo desse tubarão em seu habitat natural ocorreu apenas em 1995.
Embora o nome sugira uma presença restrita ao Ártico, pesquisadores já identificaram exemplares em outras regiões do oceano. Há registros da espécie no Caribe e até em áreas próximas à Antártida, o que indica que a distribuição pode ser mais ampla do que se imaginava.
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Pesquisas recentes sobre o genoma do tubarão da Groenlândia também trouxeram resultados curiosos.
Estudos indicam que mais de 70% do DNA da espécie é formado por elementos transponíveis, conhecidos como "genes saltarinos", capazes de se mover dentro do genoma.
Diferentemente do que ocorre em muitos outros vertebrados, esses elementos parecem contribuir para mecanismos mais eficientes de reparação do DNA, o que pode estar relacionado à longevidade excepcional da espécie.
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Apesar de viver por séculos, o tubarão da Groenlândia enfrenta riscos crescentes. A espécie é considerada vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).
Entre as principais ameaças estão:
Como o animal leva mais de um século para atingir maturidade reprodutiva, a recuperação da população é extremamente lenta.
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Para os pesquisadores, a existência de um tubarão que pode ter nascido no século XVII demonstra a importância de preservar os ecossistemas oceânicos profundos, que ainda guardam muitos segredos sobre a biodiversidade do planeta.