Islândia incluirá risco de mudança abrupta no clima em seu planejamento econômico até 2028 / Major S. King/Wikimedia Commons
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O clima da Europa pode esfriar significativamente mesmo com o aquecimento do planeta. Essa possibilidade está ligada a um sistema pouco visível para quem vive em terra firme.
Trata-se da Circulação Meridional do Atlântico, a AMOC, responsável por redistribuir calor pelos oceanos.
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Ela funciona como uma engrenagem térmica. Leva águas quentes dos trópicos ao Atlântico Norte e devolve águas frias para latitudes mais baixas.
Esse movimento contínuo ocorre há cerca de 10 mil anos e ajuda a manter temperaturas mais equilibradas em diversas regiões.
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No Atlântico Norte, a água que chega aquecida perde calor para a atmosfera. Ao esfriar, torna-se mais densa e afunda, reiniciando o ciclo em profundidade. Esse processo regula temperaturas, influencia chuvas e sustenta ecossistemas marinhos.
Sem esse transporte de calor, cidades na mesma latitude teriam realidades muito distintas. A própria Islândia poderia registrar condições semelhantes às de áreas quase inabitadas do norte do Canadá.
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O governo da Islândia decidiu tratar um eventual colapso da AMOC como questão de segurança nacional. O que antes parecia distante passou a ser incluído no planejamento estratégico.
Especialistas indicam que, se houver enfraquecimento acentuado, a média de temperatura global continuará subindo.
Ainda assim, partes da Europa podem enfrentar uma queda brusca. No território islandês, projeções apontam invernos próximos de -45°C e formação de gelo marinho ao redor da ilha, algo que não ocorre desde o início da ocupação humana.
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Em 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas considerou muito improvável um colapso antes de 2100. Depois disso, novas pesquisas passaram a estimar probabilidades.
Um estudo publicado em 2024 avaliou diferentes trajetórias de emissões de gases de efeito estufa em vários modelos climáticos.
Mesmo com cortes alinhados ao Acordo de Paris, os resultados indicaram cerca de 25% de chance de interrupção da circulação ao longo dos séculos.
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Segundo a revista Veja, o oceanógrafo Stefan Rahmstorf afirma que o risco foi subestimado por anos e menciona a possibilidade de um ponto de não retorno nas próximas décadas.
A discussão ainda está aberta. Parte da comunidade científica argumenta que mecanismos naturais podem oferecer maior estabilidade ao sistema.
Apesar disso, medições reunidas por instituições como a NOAA e o Met Office britânico mostram enfraquecimento da AMOC desde meados do século 20.
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O aumento da temperatura na Terra interfere diretamente no funcionamento da corrente. O derretimento da Groenlândia despeja grandes volumes de água doce no Atlântico Norte, reduzindo a salinidade e dificultando o afundamento das águas.
Além disso, oceanos mais quentes trocam menos calor com a atmosfera. Isso compromete a formação das águas frias e densas que mantêm o ciclo ativo.
Mudanças nesse equilíbrio podem alterar chuvas na Amazônia, afetar ventos na África Ocidental e no Sul da Ásia e impactar a agricultura mundial, segundo análises do Instituto de Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e da Strategic Climate Risks Initiative.
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Para a Islândia, a discussão é fundamental. O país tem cerca de 400 mil habitantes e depende da pesca e de previsibilidade climática para sustentar sua economia.
Se o resfriamento projetado se confirmar, portos podem enfrentar formação de gelo, a produção agrícola ficaria limitada e a infraestrutura precisaria se adaptar a condições mais severas.
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Por isso, o governo informou que incorporará o risco da AMOC ao planejamento nacional até 2028.
Parte dos especialistas avalia que, como a AMOC pode atingir um ponto de não retorno, esperar confirmação absoluta significaria reagir quando a circulação já estivesse comprometida e as temperaturas regionais em queda.
Por Vitoria Estrela