Falha em técnica de datação pode reescrever a história da arte rupestre, aponta pesquisador

Questionamento sobre método usado em cavernas da Indonésia e da Europa levanta dúvidas sobre a verdadeira idade de algumas das pinturas mais antigas já registradas

Tudo o que sabemos sobre a arte rupestre pode ter mudado para o futuro / Imagem gerada por IA

A descoberta de pinturas rupestres cada vez mais antigas transformou a compreensão científica sobre a origem da arte e da capacidade simbólica dos primeiros hominídeos. Porém, um pesquisador francês alerta que parte dessas conclusões pode estar baseada em datas superestimadas por uma técnica amplamente utilizada na arqueologia.

O debate foi reacendido após Georges Sauvet questionar a confiabilidade da datação por urânio-tório (U-Th), método empregado em cavernas ao redor do mundo para estimar a idade de pinturas que não contêm material orgânico suficiente para análises por radiocarbono. Segundo ele, a técnica pode estar produzindo resultados mais antigos do que a idade real das obras.

Como funciona a técnica questionada

A datação por urânio-tório analisa depósitos de calcita formados sobre as pinturas ao longo dos milênios. Durante esse processo, pequenas quantidades de urânio ficam aprisionadas no mineral e, com o passar do tempo, se transformam em tório. A proporção entre esses elementos permite estimar quando a camada foi formada.

O problema, segundo Sauvet e outros pesquisadores, é que o método pressupõe que a calcita permaneça intacta desde sua formação. A infiltração de água da chuva ou de lençóis subterrâneos, no entanto, pode alterar a composição química do material ao longo dos séculos, removendo parte do urânio e gerando idades artificialmente elevadas.

“Em teoria, o dr. Sauvet está certo. A datação por séries de urânio pode levar a datas superestimadas”, afirmou a professora Adelphine Bonneau, da Universidade de Sherbrooke, em declaração ao portal Live Science.

Casos que alimentam a controvérsia

Para sustentar suas críticas, Sauvet cita exemplos em que os resultados obtidos por urânio-tório entraram em conflito com outras técnicas de análise.

Um dos casos mais conhecidos ocorreu na Caverna de Nerja, na Espanha. Enquanto o método U-Th apontou uma idade de aproximadamente 119 mil anos para determinada pintura, testes de radiocarbono realizados no carvão associado à mesma imagem indicaram cerca de 19 mil anos.

Outra inconsistência foi identificada em Leang Balangajia, na Indonésia. Ali, uma camada externa de calcita apresentou idade superior à de uma camada situada logo abaixo dela, algo considerado improvável em condições normais de formação geológica.

Para os críticos, situações como essas sugerem que parte das amostras analisadas pode ter sofrido alterações ao longo do tempo, comprometendo a precisão dos resultados.

O impacto sobre a história dos Neandertais

A discussão vai além da simples precisão técnica. Caso algumas das datas mais antigas estejam incorretas, interpretações importantes sobre a evolução humana também podem precisar ser revistas.

Em 2018, um estudo liderado por Dirk Hoffmann atribuiu cerca de 65 mil anos a pinturas encontradas em cavernas espanholas. Como os humanos modernos ainda não ocupavam a região nesse período, a descoberta foi interpretada como uma possível evidência de produção artística por Neandertais.

Sauvet contesta essa conclusão e argumenta que não existem provas arqueológicas suficientes para associar essas obras à espécie extinta. Outros especialistas, entretanto, defendem que os Neandertais possuíam capacidade simbólica e artística comparável à dos primeiros Homo sapiens.

Novas tecnologias tentam resolver o problema

Pesquisadores que utilizam a técnica de urânio-tório reconhecem suas limitações, mas afirmam que os avanços tecnológicos reduziram significativamente os riscos de erro.

Maxime Aubert, arqueólogo responsável por algumas das descobertas mais importantes na Indonésia, argumenta que não é correto invalidar todo o método por causa de amostras específicas que apresentaram problemas. Segundo ele, sua equipe utiliza sistemas de ablação a laser capazes de identificar e descartar áreas da calcita alteradas por infiltrações de água.

Bonneau concorda que o risco de superestimação existe, mas ressalta que análises modernas conseguem detectar boa parte dessas alterações. Para ela, a confiabilidade dos resultados depende principalmente do rigor adotado pelos pesquisadores durante a coleta e interpretação das amostras.

Enquanto o debate segue aberto, a discussão evidencia um dos princípios fundamentais da ciência: até mesmo técnicas consideradas revolucionárias continuam sujeitas a revisões. E, no caso da arte rupestre, uma mudança nos métodos de datação pode alterar não apenas a idade das pinturas, mas também parte da história da própria humanidade.