EUA colocam PCC e Comando Vermelho na lista de terroristas: o que muda a partir de junho?

Decisão do governo americano amplia sanções financeiras, reforça cooperação internacional e reacende debate sobre a legislação brasileira

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Medida do Governo Trump passa a valer a partir de 5 de junho e pode trazer consequências relevantes para o combate ao crime organizado (Divulgação/Casa Branca)

O governo dos Estados Unidos anunciou a inclusão do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) na lista de organizações terroristas estrangeiras. A medida passa a valer a partir de 5 de junho. Ela pode trazer consequências relevantes para o combate ao crime organizado, especialmente em relação ao rastreamento de recursos financeiros. Além disso, pode afetar a cooperação internacional.

A decisão segue um modelo já adotado pelo governo norte-americano contra cartéis latino-americanos e grupos criminosos transnacionais. Dessa forma, ela amplia o alcance das sanções econômicas. Também amplia as restrições impostas a pessoas ou empresas ligadas às organizações.

Nos Estados Unidos, a designação como organização terrorista estrangeira permite ao governo adotar uma série de medidas mais rígidas contra os grupos enquadrados.

Entre elas estão o congelamento de ativos financeiros sob jurisdição americana. Além disso, há a proibição de qualquer apoio material por cidadãos ou empresas dos EUA. Por fim, existe a ampliação do monitoramento de operações financeiras suspeitas.

Na prática, bancos, corretoras e instituições financeiras passam a enfrentar exigências ainda mais severas para identificar movimentações ligadas às facções.

Não é a primeira vez que que o governo americano tenta interferir em políticas brasileiras. O governo dos EUA soltou um relatório oficial reclamando do nosso Pix. O motivo? O sistema brasileiro é gratuito e eficiente demais, o que faz com que empresas americanas (como Visa e Mastercard) deixem de ganhar bilhões em taxas de cartões de crédito por aqui. Para eles, o Pix é uma “barreira comercial”.

Impacto pode ultrapassar as fronteiras brasileiras

Especialistas apontam que o principal efeito imediato da medida pode ocorrer no campo financeiro.

Com a classificação, autoridades norte-americanas ganham instrumentos mais amplos para rastrear recursos. Elas também podem bloquear contas e sancionar pessoas físicas ou jurídicas suspeitas de colaborar com as organizações.

Além disso, empresas internacionais que operam em áreas influenciadas por essas facções podem enfrentar maior fiscalização e riscos regulatórios ao realizar negócios.

O modelo já foi aplicado pelos Estados Unidos contra grupos como o Cartel Jalisco Nueva Generación e o Tren de Aragua.

Governo brasileiro contesta enquadramento

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém posição contrária à classificação.

A principal justificativa é que a legislação brasileira associa o terrorismo a atos violentos motivados por razões ideológicas, políticas, religiosas ou discriminatórias.

Segundo essa interpretação, PCC e CV seriam organizações criminosas voltadas principalmente ao lucro obtido por meio do tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras atividades ilícitas. Contudo, não têm motivação ideológica que caracterize terrorismo.

O entendimento já havia sido defendido pelo ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

Debate avança no Congresso Nacional

A decisão americana também reacendeu discussões no Congresso sobre possíveis mudanças na Lei Antiterrorismo brasileira.

Projetos em tramitação propõem ampliar o conceito de terrorismo para incluir facções criminosas e milícias. Eles visam grupos que exerçam controle territorial por meio da violência e da intimidação da população.

Caso uma mudança semelhante fosse aprovada no Brasil, especialistas apontam que poderiam surgir novas consequências jurídicas. Entre elas estão maior participação da Justiça Federal, endurecimento de penas e ampliação de instrumentos investigativos.

O tema ganhou repercussão política após o senador Flávio Bolsonaro afirmar que solicitou pessoalmente ao presidente Donald Trump a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas.

Já Lula declarou que não discutiu o assunto diretamente com Trump durante encontro realizado em Washington. Além disso, defendeu uma estratégia internacional conjunta para combater o crime organizado transnacional.

O que muda na prática?

Embora a decisão não altere automaticamente as leis brasileiras, ela tende a aumentar a pressão internacional sobre integrantes e financiadores das facções.

A classificação facilita o compartilhamento de informações entre agências de segurança. Ela também amplia o rastreamento de fluxos financeiros internacionais. Ademais, pode dificultar a movimentação de recursos em países que mantêm cooperação estreita com os Estados Unidos.

Por outro lado, o enquadramento continua gerando controvérsia jurídica. Isso ocorre porque não há consenso internacional sobre a aplicação do conceito de terrorismo a organizações criminosas voltadas exclusivamente ao lucro.