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Em Portugal, Aljezur sente reflexos da infame 'poeira do deserto'

Sempre que isso ocorre, as autoridades de saúde, como a DGS, aconselham as pessoas mais vulneráveis a ficarem em casa

Carlos Ratton

Publicado em 16/06/2024 às 07:30

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Casas são todas na cor branca, uma característica comum de muitas vilas para abrandar calor, que quando está forte chega a 35ºC / Geike Verniers/Unsplash

Além da beleza de flores de infinitas cores e formas brotando de todos os lugares, como mato, e de praias cinematográficas próximas, a Reportagem do Diário do Litoral, que está há alguns dias em Portugal, percebeu pouco movimento no município português de Aljezur, pertencente ao Distrito de Faro. 

As casas - todas na cor branca – uma característica comum de muitas vilas (chamadas de freguesias) para abrandar calor, que quando está forte chega no máximo a 35 graus - pareciam estar desocupadas, embora abriguem uma população de cerca de seis mil pessoas.   

Isso porque, nos últimos dias, ocorreu maior incidência da conhecida ‘poeira do deserto’, uma nuvem invisível de poeira, vinda do deserto do Saara, norte de África, que geralmente atinge boa parte do País, inclusive a capital (Lisboa), e outros países europeus. 

Sempre que isso ocorre, as autoridades de saúde, como a Direção Geral da Saúde (DGS), aconselham as pessoas mais vulneráveis a ficarem em casa devido à qualidade do ar. A ideia é evitar a exposição sempre que possível. 

A DGS aconselha a população em geral a evitar esforços prolongados, a atividade física ao ar livre e ainda evitar a exposição a fatores de risco, tais como o fumo do tabaco e o contato com produtos que possam provocar irritação.

Segundo informações, as partículas podem, em níveis mais elevados, comprometer a saúde das pessoas, principalmente crianças, idosos, doentes com problemas respiratórios crónicos, como asma e cardiovascular. 

A educadora Geórgia Correa está em Aljezur há pouco mais de um ano e diz que a poeira do deserto é uma situação peculiar. “Em abril último eu estava saindo de uma crise asmática e, mesmo tendo sido avisada a não sair de casa, percebi uma espécie de neblina e, junto aos móveis externos à casa, formou-se uma crosta de areia bem fina. Tivemos que usar máscaras e voltei a ter uma crise de asma. Minha prima também brasileira, que veio me visitar nos últimos dias, também sentiu-se mal. Então, quem tem problema respiratório, sofre um pouco de tempos em tempos”.   

Aljezur tem cerca de 324 quilômetros e é subdividido em quatro freguesias. O município é limitado a norte pelo município de Odemira, a leste por Monchique, a sueste por Lagos, a sudoeste por Vila do Bispo e a oeste tem uma extensa costa com o oceano Atlântico. 

O limite noroeste, com o município de Odemira, é marcado pela Ribeira de Seixe. O litoral do município faz parte do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A poeira

Conforme artigos já publicados, tempestades que carregam partículas finas do norte da África até as capitais europeias estão cada vez mais comuns e acontecem há anos. Elas ocorrem quando ventos em maior altitude atravessam o deserto do Saara durante o tempo seco.

Algumas partículas são maiores e mais pesadas, sendo as primeiras a serem pegas pelos altos ventos, mas não atravessam o Mar Mediterrâneo rumo à Europa. As que atravessam são as ultrafinas e essas viajam longas distâncias por conta dos ventos fortes que cobrem longas distâncias.

Na maioria dos casos, são os sistemas meteorológicos de baixa pressão que transportam a poeira do Saara através do Mediterrâneo até a Europa. 

As partículas de poeira que chegam até a Europa e conseguem permanecer tanto tempo no ar porque são muito menores do que os grãos de areia. Ou seja, o que chega até a Europa é uma tempestade de poeira, e não de areia. 

A vantagem

A especialista Yurima Celdrán, da Meteored Espanha, escreveu um artigo que explica que, todos os anos, mais de cem milhões de toneladas de poeiras minerais são transportadas do deserto do Saara, considerado o mais quente do mundo, através do nosso vasto Oceano Atlântico até à América Central.

Conforme revela, o fenômeno conhecido como calima, por sua vez, contribui significativamente para a fertilização dos oceanos, transportando nutrientes preciosos que enriquecem as águas e favorecem a vida marinha, e desempenha também um papel crucial na formação de furacões.

Em junho e julho, as partículas de poeira do Saara criam condições que aumentam o cisalhamento do vento, um fator crucial que pode enfraquecer ou mesmo inibir o desenvolvimento de tempestades tropicais.

Yurima explica ainda que além de influenciar o cisalhamento do vento, a poeira atua como um escudo solar, retendo o calor que, aqueceria o oceano. Este efeito ajuda a manter as temperaturas do mar mais baixas durante os meses de verão, reduzindo as condições propícias ao desenvolvimento de ciclones tropicais.

Em 2023, a quantidade de poeira do Saara foi a mais baixa. “Se a poeira voltar aos níveis normais em 2024, poderemos assistir a uma redução da intensidade das tempestades. Por enquanto, espera-se uma temporada de furacões muito ativa no Atlântico.

Por fim, explica que o pico das poeiras ocorre em junho e julho, mas no ano passado, com algumas exceções, as areias africanas ficaram em casa. “O resultado foi um aumento mais rápido da temperatura da superfície do mar no Atlântico, uma vez que não havia poeira para bloquear a luz solar e arrefecer o oceano.

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