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Onde antes havia apenas areia escaldante e pedras rachadas, começam a surgir plantações, sistemas de irrigação computadorizados e colheitas no meio do deserto
Apesar das críticas, o projeto já apresenta expansão concreta de terras cultiváveis, geração de dezenas de milhares de empregos e movimentação de setores como energia solar, logística e agronegócio / Reprodução/ Youtube Constructionintimebrasil
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As informações são do canal Construction Time, no YouTube.
Transformar uma paisagem árida e inóspita em uma extensão verdejante que se estende por centenas de quilômetros parece improvável. Onde antes havia apenas areia escaldante e pedras rachadas, começam a surgir plantações, sistemas de irrigação computadorizados e colheitas no meio do deserto.
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Enquanto o mundo enfrenta crises hídricas, insegurança alimentar e mudanças climáticas, o Egito aposta em um dos maiores projetos agrícolas e de engenharia de sua história: literalmente inundar o deserto para tentar assegurar o futuro do país.
Mas por que uma nação com recursos hídricos limitados decide assumir um plano tão ousado? Quem está por trás dessa transformação? E, sobretudo, o projeto é viável ou corre o risco de se tornar mais uma promessa fracassada?
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Confira também o projeto bilionário que 'plantou' uma das maiores capitais do mundo no meio do isolamento
O chamado New Delta Project — também conhecido como “Novo Delta” — está sendo implantado na região de El Dabaa, no noroeste do Egito, cerca de 100 quilômetros ao sul do Mar Mediterrâneo e a oeste do tradicional Delta do Nilo, responsável pela maior parte da produção agrícola do país.
Até recentemente, a área era considerada completamente inóspita: solo arenoso, altas temperaturas e praticamente nenhuma vegetação natural. Contudo, sob essa paisagem árida existe um fator estratégico: um lençol freático profundo e a proximidade com o rio Nilo, permitindo a construção de canais artificiais de irrigação.
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O tamanho do projeto é o que mais impressiona. O plano prevê irrigar entre 1,5 milhão e 2,2 milhões de fedãs — o equivalente a quase 1 milhão de hectares, cerca de quatro vezes o território da cidade de São Paulo. Ao todo, são mais de 9 mil km² de deserto em processo de conversão para área cultivável.
Canais revestidos de concreto com centenas de quilômetros
Sistemas de bombeamento automatizados capazes de elevar água a mais de 100 metros
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Rodovias e linhas de energia
Estações solares e subestações elétricas
Centros de pesquisa agrícola e biotecnologia
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A proposta de longo prazo é criar uma “cidade agrícola inteligente”, voltada à tecnologia, exportação e sustentabilidade.
Mais de 95% da população egípcia vive concentrada em apenas 4% do território nacional, ao longo do Vale do Nilo. Esse estreito corredor verde sustenta hoje mais de 110 milhões de habitantes — número que pode chegar a 175 milhões até 2050.
Nos últimos anos, o Egito passou a importar mais da metade dos alimentos que consome. A guerra entre Rússia e Ucrânia evidenciou essa vulnerabilidade: 80% do trigo importado vinha desses dois países.
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Paralelamente, o Delta tradicional do Nilo enfrenta problemas de salinização do solo, avanço do Mediterrâneo e redução do fluxo de água doce, agravada pelo enchimento da Grande Barragem da Renascença, construída pela Etiópia no Nilo Azul.
Diante desse cenário, o governo decidiu expandir a fronteira agrícola para o deserto.
O projeto é supervisionado diretamente pelas Forças Armadas egípcias, que controlam a maioria dos megaprojetos nacionais. Essa estrutura garante velocidade na execução, mas levanta críticas sobre transparência orçamentária.
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Para analistas, o Novo Delta também funciona como instrumento político do presidente Abdel Fattah el-Sisi, simbolizando força e estabilidade em um contexto de crise econômica.
O Egito já tentou transformar o deserto antes. Exemplos incluem:
Projeto Toshka, iniciado nos anos 1960 por Gamal Abdel Nasser e retomado por Hosni Mubarak, que nunca alcançou 10% da meta.
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Canal de El Salam, que prometia irrigar 600 mil hectares, mas ficou muito abaixo das expectativas.
Propostas radicais como a Depressão de Qattara, que nos anos 1970 chegou a cogitar o uso de explosivos nucleares para criar um canal artificial — ideia que nunca saiu do papel.
Essas experiências deixaram uma lição: recuperar o deserto é possível, mas raramente sustentável.
O coração do Novo Delta é o Canal de El Hamam, com extensão estimada entre 110 e 170 quilômetros, responsável por transportar 3,5 bilhões de metros cúbicos de água por ano a partir do braço Rosetta do Nilo.
Estações gigantes de tratamento de água residual, como Bahr El Baqar (5,6 milhões de m³ por dia)
A estação Al Hammam, inaugurada em 2023, com capacidade de 7,5 milhões de m³ diários, considerada a maior do mundo
Parte da água também vem do Aquífero Núbio, o maior reservatório fóssil subterrâneo do planeta — porém não renovável.
No campo, são utilizados sensores subterrâneos, irrigação por gotejamento, drones e agricultura de precisão.
O custo inicial estimado em US$ 10 bilhões já ultrapassou US$ 13 bilhões, segundo declarações oficiais. Não há clareza sobre o valor final.
Críticos apontam:
Risco de salinização do solo
Alto custo energético para bombear água a mais de 100 metros
Dependência da liberação de água pela Etiópia
Produção voltada principalmente à exportação, e não ao consumo interno
Comparações são feitas com iniciativas da Arábia Saudita, Israel e China. Contudo, esses países possuem reservas financeiras mais robustas e tecnologia consolidada.
Apesar das críticas, o projeto já apresenta expansão concreta de terras cultiváveis, geração de dezenas de milhares de empregos e movimentação de setores como energia solar, logística e agronegócio.
Estima-se que até 5 milhões de pessoas possam ser beneficiadas direta ou indiretamente.
Geopoliticamente, o Egito reforça sua posição estratégica no norte da África. Socialmente, porém, os impactos ainda não chegaram plenamente à população de baixa renda.
No coração do deserto começam a surgir campos verdes e canais espelhados. O Novo Delta representa mais que irrigação: simboliza a tentativa de redefinir o futuro do país.
Mas o sucesso depende de um fator externo decisivo: a água que desce da Etiópia pelo Nilo Azul. Se o fluxo for reduzido de forma significativa, o oásis pode voltar a ser areia.
Ainda assim, o Egito aposta na engenharia, na tecnologia e na necessidade de sobreviver. Mais do que inundar o deserto, o país tenta cultivar esperança em meio às adversidades.