Um incêndio de grandes proporções atingiu um dos locais espirituais mais simbólicos do Japão e destruiu o histórico salão Reikado, localizado no templo budista Daishō-in, na ilha de Miyajima, província de Hiroshima.
O local era casa da chamada “Chama Eterna” global, um fogo sagrado que, na prática budista japonesa, tem sido mantido aceso em um edifício por mais de 1.200 anos.
O incidente ocorreu nesta terça-feira (19) e mobilizou bombeiros e equipes de emergência ao local.
As chamas consumiram completamente o salão de madeira, situado próximo ao topo do Monte Misen, uma montanha considerada sagrada no país.
Embora o fogo tenha atingido áreas de vegetação ao redor, felizmente não houve feridos.
Apesar da destruição da estrutura, as autoridades confirmaram que as brasas da chama foram preservadas e estão em segurança.
Este episódio acabou reacendendo o interesse mundial sobre a famosa “Kiezu no Hi”, expressão local que significa algo como “fogo que nunca se apaga”.
A origem da chama sagrada
A chama sagrada está ligada ao templo Daishō-in, um importante centro do budismo Shingon fundado em 806 pelo monge Kūkai, também conhecido como Kōbō Daishi, considerado uma das figuras religiosas mais influentes da história japonesa.
Segundo a tradição, Kūkai acendeu o fogo no meio de um período de treinamento ascético no Monte Misen no século IX.
O fogo tem queimado continuamente essa data, há cerca de doze séculos.
Além do valor histórico, o local carrega um significado espiritual profundo para os fiéis.
A água aquecida por essa chama é considerada sagrada pelos praticantes budistas, existindo a crença popular de que ela possui propriedades de cura para diversas doenças.
Dentro da prática budista japonesa, as chamas representam proteção espiritual, purificação e oração.

O segredo da longevidade do fogo
Ao contrário das chamadas chamas eternas naturais em alguns lugares do mundo, alimentadas pelos gases subterrâneos que são expelidos da terra, o fogo japonês é preservado puramente pelo comportamento humano e fervor religioso.
Ao longo dos séculos, os monges do templo mantiveram o fogo aceso, sem interrupção, como parte dos rituais religiosos do local, cuja manutenção significa monitorar e manter com grande cuidado as brasas originais.
Por outro lado, os fenômenos naturais semelhantes ocorrem quando gases inflamáveis subterrâneos, principalmente metano, etano e propano, escapam através de fissuras geológicas e entram em combustão na superfície.
Alimentadas continuamente pelo gás vindo do subsolo, essas chamas conseguem permanecer ativas por milhares de anos. Especialistas estimam que existam menos de 50 exemplos desse tipo de fenômeno geológico no mundo.

Símbolo de paz e resiliência
A importância da Chama Eterna vai muito além da religião, pois ela também é a origem da famosa “Chama da Paz”, localizada no Parque Memorial da Paz de Hiroshima.
A estrutura foi construída para homenagear aqueles mortos pela bomba atômica lançada pelos Estados Unidos em 1945.
O que foi prometido é que a Chama da Paz queimaria até que todas as armas nucleares na Terra fossem destruídas, o que transforma o antigo fogo espiritual em um manifesto internacional de memória e esperança.
Mesmo após o incêndio ter destruído o salão histórico, o templo confirmou que as brasas foram retiradas a tempo e seguem preservadas em um local seguro.
Para muitos japoneses, a sobrevivência do fogo sagrado na destruição do mundo também reforça o significado simbólico de resiliência e renovação que tem sido associado à chama por mais de um milênio.
