Artigo – Dividindo o zero e a democracia

Ou aceitamos a democracia de maneira completa, o que significa o respeito às suas regras, ou voltamos para a barbárie

Por Francisco Marcelino

Entre as coisas indivisíveis estão o zero e a democracia. De uma maneira simplista, podemos dizer que assim como não existe meio-zero, não existe meia-democracia. Ou a aceitamos de maneira completa, o que significa o respeito às suas regras, ou voltamos para a barbárie.

É o que vemos hoje no processo eleitoral americano: bárbaros armados de fuzis de assalto liderados por um líder bárbaro que já sonhou em construir um muro para impedir a entrada de imigrantes latinos em nome do America First. Desde a sua vitória na eleição de 2016, Donald Trump dividiu o indivisível. Na sua visão de democracia, o presidente americano dividiu famílias ao separar filhos de imigrantes ilegais de seus pais.

Trump também dividiu o mundo ao impor sanções comerciais a antigos parceiros, sobretudo à China, e implodir organizações como a Organização Mundial do Comércio. Não poupou nem mesmo seus supostos amigos, como o Brasil, que teve produtos sobretaxados. Sim, America First! O clima foi outra vítima de Trump. Esta semana, os Estados Unidos oficializaram a saída do Acordo de Paris, que visa implementar uma agenda de combate ao aquecimento global. 

Em julho, em plena pandemia do novo coronavírus, Trump retirou o seu país da Organização Mundial da Saúde, alegando má gestão da crise. Com isso, a OMS se viu privada dos aportes americanos durante momento crítico mundial. Nações mais pobres que os confins esquecidos do Brasil precisam do suporte da OMS para combater a pandemia do novo coronavírus, assim como dar continuidade a outros programas de saúde pública.  
   
É verdade que o sistema eleitoral americano é confuso. Mas, confuso ou não, até então não havia sido questionado em mais de 200 anos. E questionar o sistema aos 45 minutos do segundo tempo é tentativa de levar a partida para o tapetão. 

Como os Estados Unidos costumam ser seguidos mundo afora, o Brasil deve ficar muito atento para que o mesmo não aconteça no país em 2022, com questionamentos sobre a lisura das urnas eletrônicas, o surgimento de grupos armados, para o recrudescimento da disputa ideológica. Democracia é feita de discussões, de distensões, acertos, desacordos, de diálogo. Quem já viveu em uma casa dividida por um pai ou uma mãe alcoólatra, um irmão que caiu nas drogas, ou qualquer outra disfuncionalidade, sabe o quão difícil é esse cotidiano de tensão.

Ao contrário do que muitos pensam, 2020 não é um ano para esquecer. É, sim, um ano para ser lembrado até o fim dos tempos. É o ano em que uma pandemia desestruturou todo o modo de vida do planeta. É o ano também em que homens tentaram dividir o zero a golpes de machado e a democracia com tiros de fuzis. 

Mas se a democracia é indivisível, o amor se divide infinitamente. É o que parece faltar em 2020.

Francisco Marcelino, jornalista, escritor e professor