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A porta que não deve ser aberta: o dilema que mantém um tesouro mundial lacrado

Riscos de contaminação por mercúrio e destruição de relíquias ao contato com o ar impedem cientistas de explorar o lugar

Jeferson Marques

Publicado em 06/01/2026 às 17:12

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Simulação mostra os lendários rios de mercúrio no túmulo selado / Imagem ilustrativa gerada por IA/DL

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Relatórios da Administração Estatal do Patrimônio Cultural da China e estudos geofísicos publicados em revistas científicas internacionais confirmam um dos maiores paradoxos da arqueologia moderna: embora o Exército de Terracota seja um dos pontos turísticos mais visitados do planeta, a câmara funerária de seu criador, o Imperador Qin Shi Huang, permanece hermeticamente selada. Mais de dois mil anos após sua morte, o governo chinês mantém uma política rigorosa de "não intervenção", baseada tanto em limitações tecnológicas quanto em riscos letais descritos pelo historiador antigo Sima Qian e corroborados por análises de solo contemporâneas.

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A tumba, localizada sob uma colina artificial em Xi'an, é considerada uma cápsula do tempo que, se aberta hoje, poderia resultar na destruição imediata de tesouros inestimáveis e na liberação de substâncias tóxicas.

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O trauma das cores

A principal razão para o bloqueio não é o medo de maldições, mas a preservação científica. Arqueólogos ainda lidam com o "trauma" da descoberta inicial em 1974. Quando os guerreiros de terracota foram desenterrados, eles possuíam cores vibrantes e pinturas detalhadas. No entanto, ao entrarem em contato com o ar seco e o oxigênio após milênios no subsolo, a pigmentação oxidou e descascou em questão de minutos, tornando-se o cinza que conhecemos hoje.

Especialistas acreditam que a câmara principal do imperador contenha materiais ainda mais sensíveis, como sedas, manuscritos em papel de arroz e estruturas de madeira. Sem uma tecnologia capaz de "congelar" a atmosfera interna no momento da abertura, qualquer escavação seria uma sentença de destruição para esses artefatos.

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Rios de mercúrio tóxico

O segundo motivo valida lendas antigas através da química moderna. Textos históricos afirmam que Qin Shi Huang construiu um mapa da China dentro de seu túmulo, onde os grandes rios e o oceano eram simulados com mercúrio líquido fluindo mecanicamente.

Durante décadas, isso foi tratado como exagero. Porém, sondagens geofísicas recentes realizadas no monte funerário detectaram níveis de mercúrio até 100 vezes superiores ao natural. A alta concentração do metal pesado indica que o "rio tóxico" provavelmente existe, representando um risco severo de contaminação ambiental e envenenamento para qualquer equipe que tente perfurar a estrutura sem proteção biológica avançada.

Armadilhas mecânicas

Além do veneno, há a ameaça física. Os escritos de Sima Qian, datados de um século após a morte do imperador, detalham que artesãos foram ordenados a instalar balestras (bestas) automáticas, preparadas para disparar flechas contra invasores que acionassem mecanismos nas portas.

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Embora seja provável que as cordas e a madeira das armas tenham apodrecido, arqueólogos temem que o acionamento de qualquer mecanismo antigo ou a simples alteração de pressão interna possa causar o colapso estrutural do teto da câmara, soterrando o conteúdo para sempre.

A espera pela tecnologia

Diante desses riscos, a estratégia atual é a paciência. Em vez de pás e picaretas, a ciência aposta na física de partículas. Pesquisadores avaliam o uso de múons (partículas cósmicas capazes de atravessar a terra, semelhantes a um raio-x geológico) para mapear o interior do mausoléu sem cavar um único grama de terra. Até que essa tecnologia esteja madura, o primeiro imperador continuará seu descanso, protegido pela química e pela prudência.

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