2016 foi o ano mais quente já registrado

A informação foi confirmada nesta quarta-feira (18) pela agência americana responsável por monitorar atmosfera e oceanos, a Noaa

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19 JAN 2017Por Folhapress00h30
A média da temperatura da Terra ficou em 0,94°C acima da média do século 20Foto: Fotos Públicas

Nada que não já fosse esperado: 2016 é o ano mais quente já registrado. É o terceiro ano consecutivo em que o recorde global de temperatura é quebrado. A informação foi confirmada nesta quarta-feira (18) pela agência americana responsável por monitorar atmosfera e oceanos, a Noaa.

A média da temperatura da Terra ficou em 0,94°C acima da média do século 20, que serve como "zero" para a escala. O atual segundo colocado, o ano de 2015, teve uma temperatura de 0,9°C acima dessa média -os números resultantes da diferença entre temperaturas medidas em relação à média histórica recebem o nome de "anomalia".

A conta da temperatura média é feita levando medições de temperatura de todo o globo. Separando a anomalia em oceânica e continental, 2016 continua sendo líder nas duas, mas o verdadeiro culpado aparece: a média terrestre é 0,1°C maior que a de 2015, e a oceânica não foi tão diferente das mais altas até então.

Nos 16 primeiros anos do século 21, houve cinco quebras de recorde (2005, 2010, 2014, 2015, 2016). E, entre os dez anos mais quentes já registrados, só o de 1998 não é deste século -foi um ano com forte El Niño.

O fenômeno, caracterizado pela elevada temperatura das águas do oceano Pacífico, bagunça o clima de todo o mundo, deixando-o especialmente quente e chuvoso em diversas regiões. A última ocorrência é de 2015, mas pode ter deixado sua contribuição no ano que passou.

Recordes de temperatura foram medidos em algumas partes da Rússia, chegando a ficar mais de 6°C acima da média histórica. Também foi a maior temperatura já registrada no Alasca -em algumas regiões com anomalia positiva de 3°C.

Em maio, o Canadá sofreu a maior queimada já registrada: 590 mil hectares (quase quatro vezes a área da cidade de São Paulo), na região de Alberta, trazendo um prejuízo de mais de US$ 3 bilhões só em seguros. A cidade de Fort McMurray foi engolida pelo fogo e os 88 mil habitantes foram pegos de surpresa e tiveram pouco tempo para abandoná-la.

No Brasil, algumas regiões Amazônicas e do Nordeste brasileiro tiveram a temperatura média mais alta já calculada. O restante do país ficou também ficou acima da média, só que com menos intensidade.

Curiosamente apesar da variabilidade inerente à climatologia, não houve nenhuma região terrestre que tenha ficado abaixo da média histórica. A única região com recorde negativo foi o estreito de Drake, porção oceânica entre o extremo sul da América do Sul e a Antártida.

Futuro

"Em algum momento, isso acaba deixando de ser novidade", avalia o físico Paulo Artaxo, um dos mais influentes cientistas brasileiros, a respeito do novo recorde, que se repete pelo terceiro ano consecutivo.

Entre os fatores que podem explicar a ingrata tendência está a emissão de gases do efeito-estufa. Neste ano, foi superada a marca simbólica de 400 partes por milhão de molécula de CO2 na atmosfera.

Para a grande maioria dos cientistas, a ação antrópica (do homem) sobre o clima é causa certa do aquecimento global. Outros fatores importantes, afirma Artaxo, são eventos climáticos como El Niño e La Niña, além da variabilidade climática.

Ele diz que eventos extremos como furacões, queimadas e enchentes são uma boa amostra do que está por vir do futuro climático do mundo. "No início do ano, no Rio, houve temperaturas acima de 40°C por mais de uma semana. Também teve uma massa polar invadindo a Europa por um tempo muito acima do normal. São alterações profundas no sistema climático que estão acontecendo, infelizmente, conforme o esperado."

A mensagem, segundo Artaxo, é que as cidades e Estados devem se preparar para os eventos extremos, como as enchentes que atingiram São Paulo nos últimos dias e a seca recorde no Nordeste. "Não adianta ter só um plano -ficar na teoria-, tem que virar política pública, ou haverá impactos socioeconômicos brutais".

Outros impactos possíveis do aumento global de temperatura estão o aumento de conflitos, por causa da competição por recursos minguantes, além da perda de territórios devido ao aumento do nível do mar, deixando zonas inabitáveis.

Também existe preocupação com a agricultura, que pode ser bastante afetada por causa de eventos como o El Niño. Mais de 60 milhões de pessoas sofreram com o evento climático de 2015/2016, segundo a FAO, órgão da ONU para agricultura e alimentação.

Trump

O futuro do clima na Terra ganhou tons de dúvida após a eleição do republicano Donald Trump para a Casa Branca. O magnata tem um histórico de oposição à política climática vigente e assume o posto daqui a dois dias (em 20 de janeiro).

A política trumpista para o clima, na prática, pode significar um boicote ao Acordo de Paris, avaliam pesquisadores. O tratado é o único existente com força de lei internacional que tenta limitar as emissões de CO2 e de outros gases-estufa.

Uma coisa que incomoda é a proximidade de Trump com a indústria petrolífera e do carvão, afirma Tércio Ambrizzi, climatologista e professor da USP (Universidade de São Paulo). O republicano escolheu Rex Tillerson, ex-CEO da gigante do petróleo ExxonMobil para ser secretário de estado, posto-chave hoje ocupado por John Kerry.

Outro escolhido é Scott Pruitt, que deve comandar a Agência de Proteção Ambiental dos EUA. Ele diz não acreditar que exista qualquer ligação entre a atividade humana e o aquecimento global.

"O que ele está fazendo é tentar reverter o que o Obama criou –ele era favorável à mitigação da emissão de CO2, da sustentabilidade, e entendia o problema como político, econômico e social. Do jeito que o Trump quer forçar as indústrias a voltaram para os EUA, eles podem até passar a China em emissões.", diz Ambrizzi.

"Ele trabalha a favor dos interesses de quem o elegeu", diz Artaxo. "Ele foi apoiado pela indústria do carvão de vários Estados do Meio-Oeste americano."

Com alguns Estados mais alinhados com a causa do aquecimento global, como Califórnia e Massachusetts, deve haver uma batalha interna nos EUA, além da externa, contra a China.

O país asiático vem tentando convencer Trump a respeitar o acordo de Paris, mas ainda não houve qualquer garantia por parte do futuro mandatário. "A coisa encrespou, encrespou feio", diz Artaxo.