Falta de oxigênio matou pacientes também no litoral norte, dizem funcionários de hospital

De acordo com os relatos ouvidos pela reportagem, a falta de estrutura no hospital levou à morte de ao menos duas pessoas com Covid-19 em dezembro

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15 JAN 2021Por Folhapress19h07
Relatos vieram do Hospital das Clínicas de São SebastiãoFoto: Divulgação/Prefeitura Municipal de São Sebastião

Profissionais da área da saúde relatam mortes por sufocamento e falta de oxigênio em São Sebastião, cidade do litoral norte de São Paulo.

A reportagem do jornal Folha de S.Paulo conversou com pessoas que trabalham no Hospital de Clínicas da cidade, que narraram uma situação similar à do sistema de saúde de Manaus (AM). Na capital amazonense, hospitais se tornaram câmaras de asfixia devido à escassez de oxigênio.

De acordo com os relatos ouvidos pela reportagem, a falta de estrutura no hospital levou à morte de ao menos duas pessoas com Covid-19 em dezembro, na UTI. Os nomes obtidos pela reportagem e as datas de suas mortes foram enviados à Prefeitura de São Sebastião, que afirmou que não expõe "publicamente casos de óbitos na mídia sem autorização da família".

Há relatos ainda de não há médicos suficientes para fechar a escala do hospital e de que estão sendo usados ventiladores pulmonares só com torpedo (tubo de oxigênio) porque a rede de oxigênio não daria conta da demanda.

Em uma etapa posterior, esses torpedos deixaram de comprados e começaram a ser enchidos em uma usina do próprio hospital, segundo os relatos, com um nível de aproveitamento pior.

São Sebastião foi um dos municípios litorâneos que não respeitaram o Plano São Paulo nos dias em que vigoraram a fase vermelha, com fechamento de bares e restaurantes. A cidade tem praias badaladas de SP, como Maresias, Camburi e Barra do Sahy.

Uma pessoa que trabalha no hospital afirmou que em novembro, quando havia quatro pacientes intubados e precisando de ventilação mecânica, a rede já não estava dando conta. Com a falha no torpedo, dois pacientes morreram por falta de oxigênio, afirmou.

Após o episódio, os tubos de oxigênio voltaram a ser comprados, embora com racionamento, e se esgotam com frequência, dizem os entrevistados pela reportagem. Porém, devido à falta de estrutura na rede de oxigênio do hospital, os pacientes têm de ficar constantemente ligados nos torpedos, o que envolve riscos, dizem os profissionais.

Segundo eles, há um risco toda vez que é preciso trocar o oxigênio da rede pelo do tubo. Um dos funcionários explicou que o torpedo normalmente é utilizado para transporte de paciente ou em um posto adaptado, como em um hospital de campanha, mas não em uma UTI.

Segundo as informações repassadas à reportagem, embora oficialmente haja 20 respiradores, apenas dez ficam dentro da unidade. Os outros são levados a outras unidades após fiscalizações, afirmam.

Os funcionários relatam uma série de problemas de estrutura e nas condições do serviço e enviaram à reportagem fotos que mostram um rato e larvas dentro da unidade.

A situação também é ruim no Hospital da Costa Sul, em Boiçucanga, dizem. A unidade atende muitos turistas e, devido à demora, há relatos de agressividade por parte de pacientes, gerando uma situação de medo entre os funcionários.

Os funcionários estão elaborando uma nota aberta para tratar dos assuntos.

OUTRO LADO
Em nota, a Prefeitura de São Sebastião, gerida por Felipe Augusto (PSDB), afirmou que não há registro de pacientes prejudicados por falta de oxigenação no hospital gerido pelo município e que possui estrutura para atender pacientes mesmo em caso de panes.

De acordo com a nota , há 20 respiradores na UTI. "Além disso, o HCSS possui duas usinas de oxigênio próprias, além de uma terceira na unidade hospitalar de Boiçucanga, na costa sul do município. Ainda há a oferta de dois sistemas de backup, para que nenhum paciente possa ter seu tratamento prejudicado por falta de oxigenação", diz o comunicado.

A cidade afirma que o sistema de oxigenação "assegura até cinco dias de oxigênio em caso de pane absoluta em todos os demais sistemas".

Sobre a questão de larvas e ratos, a prefeitura afirmou que o hospital passa por dedetizações periódicas. "Inclusive nessa terça-feira (12), houve vistoria da Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo na UTI do Hospital de Clínicas, na qual tivemos elogios quanto à estrutura atual e todos os requisitos atendidos."

A respeito da demora no hospital, a prefeitura afirma que "isso ocorre em razão da dificuldade de preencher o quadro de médicos em escala, a considerar ainda o número populacional na região sul da cidade que praticamente triplica durante a alta temporada".

"Não somente na estrutura hospitalar, o governo municipal tem se empenhado também para sanar todas as dificuldades diante de uma escassez de médicos no mercado de trabalho em diversos estados e regiões do país", diz a nota.

A prefeitura afirma que não há registro de casos de agressão no hospital de Boiçucanga, que tem uma base da Guarda Civil Municipal.